Capitulo12

749 Palavras
Eu me sinto super feliz quando encontro uma pessoa tão confusa quanto eu.-Caio Fernando Abreu — Eu não levei ninguém pra te perseguir — disse Ethan. — Então pra quê? Pra me provar que pode me trocar? — rebati, firme, tentando não deixar a voz vacilar. — Eu só... — ele parou por um instante, procurando as palavras. — Eu só não sabia lidar. Soltei uma risada curta, amarga. — E agora sabe? — Não. — Ele deu de ombros. — Mas tô tentando. Por um momento, ninguém falou nada. Só o som distante de um carro passando quebrou o silêncio. A lua iluminava o rosto dele, e aquilo me deu raiva. Raiva por ainda achar ele bonito até nas piores horas. — Ethan, o que você quer? — perguntei, cansada de dançar o mesmo círculo. Ele respirou fundo, os olhos firmes nos meus. — Eu quero você. Meu coração parou por um segundo. — Você não sabe o que quer, Ethan. Você mesmo já me falou mil vezes que tem muitas opções e se gaba disso. — Então me ensina a não querer você — disse ele, dando outro passo. — Porque eu juro que tento e não consigo. Fechei os olhos por um instante. Queria responder com força, com indiferença, com tudo o que eu dizia sentir... Mas as palavras não saíram. — Eu saí com o Murilo hoje, Ethan. Você não deveria estar aqui — falei, tentando mudar de assunto. — Eu sei. — A voz dele veio baixa, tensa. — E odiei cada segundo disso. Revirei os olhos. — Pois devia ter pensado nisso antes. Ele suspirou, passou a mão pelos cabelos. — Eu tô pensando agora. O jeito que ele disse aquilo — simples, direto — me desarmou. Um silêncio pesado se instalou entre nós. Dava pra sentir o som das coisas não ditas. — Já tá tarde — murmurei, tentando encerrar. Mas ele não se mexeu. Ficou ali, parado, me olhando com aquele olhar que sempre me desmontava. — Posso te levar até a porta, pelo menos? — perguntou. — Já tô na porta, Ethan. — Ri fraco. — Literalmente. Ele sorriu de canto, aquele sorriso torto que sempre aparecia quando não sabia o que fazer. — Então me deixa te ver entrar — disse, simples, quase um pedido. Por um instante, hesitei. Depois assenti. Me virei e abri o portão. Parei diante dele e olhei pra trás. Ele ainda estava lá, com as mãos nos bolsos e o olhar perdido em mim. — Boa noite, Ethan — falei, tentando encerrar a cena dentro de mim também. — Boa noite, Eli — respondeu, num tom que soou mais como um “não vai embora”. Entrei, fechei o portão devagar e encostei a testa no ferro frio. Do outro lado, o som do motor ligando ecoou pela rua. Mas o barulho que mais doía era o do meu próprio coração, pedindo pra abrir o portão outra vez. Fiquei ali por alguns segundos, tentando convencer a mim mesma de que o certo era deixá-lo ir. Mas o certo nunca teve o rosto dele. Suspirei, respirei fundo e entrei. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. A casa estava em silêncio, mas dentro de mim o caos ainda gritava o nome dele. Me joguei de novo na cama, peguei o celular, hesitei. Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem dele. — Claro que não, — murmurei pra mim mesma. — Ele aparece, bagunça tudo e vai embora, como sempre. Passei a mão pelos cabelos, frustrada. Queria chorar, mas o orgulho não deixava. Queria dormir, mas o coração não deixava. O celular vibrou. Meu coração disparou — por um segundo, achei que fosse ele. Mas não. Murilo. “Chegou bem? Foi ótimo te ver hoje. Espero que tenha se divertido.” Fiquei encarando a tela. O contraste era c***l. Um tentando me dar paz, o outro, caos. Digitei: “Cheguei sim. Foi bom também. Boa noite, Murilo.” Apertei enviar, deixei o celular cair ao lado do travesseiro e fechei os olhos. Mas, claro, o universo adora ironia. Um novo som ecoou — notificação. Dessa vez, era ele. Ethan: “Eu não devia ter ido. Mas não consegui ficar longe.” Meu peito apertou. Fiquei olhando pra mensagem sem saber o que fazer. Apagar? Responder? Fingir que não vi? Deitei de lado, abraçando o travesseiro, e deixei o celular na mesa de cabeceira. Não respondi. Mas dormi com o nome dele queimando atrás das pálpebras.
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