Eu me sinto super feliz quando encontro uma pessoa tão confusa quanto eu.-Caio Fernando Abreu
— Eu não levei ninguém pra te perseguir — disse Ethan.
— Então pra quê? Pra me provar que pode me trocar? — rebati, firme, tentando não deixar a voz vacilar.
— Eu só... — ele parou por um instante, procurando as palavras. — Eu só não sabia lidar.
Soltei uma risada curta, amarga. — E agora sabe?
— Não. — Ele deu de ombros. — Mas tô tentando.
Por um momento, ninguém falou nada.
Só o som distante de um carro passando quebrou o silêncio.
A lua iluminava o rosto dele, e aquilo me deu raiva.
Raiva por ainda achar ele bonito até nas piores horas.
— Ethan, o que você quer? — perguntei, cansada de dançar o mesmo círculo.
Ele respirou fundo, os olhos firmes nos meus. — Eu quero você.
Meu coração parou por um segundo.
— Você não sabe o que quer, Ethan. Você mesmo já me falou mil vezes que tem muitas opções e se gaba disso.
— Então me ensina a não querer você — disse ele, dando outro passo. — Porque eu juro que tento e não consigo.
Fechei os olhos por um instante. Queria responder com força, com indiferença, com tudo o que eu dizia sentir...
Mas as palavras não saíram.
— Eu saí com o Murilo hoje, Ethan. Você não deveria estar aqui — falei, tentando mudar de assunto.
— Eu sei. — A voz dele veio baixa, tensa. — E odiei cada segundo disso.
Revirei os olhos. — Pois devia ter pensado nisso antes.
Ele suspirou, passou a mão pelos cabelos. — Eu tô pensando agora.
O jeito que ele disse aquilo — simples, direto — me desarmou.
Um silêncio pesado se instalou entre nós.
Dava pra sentir o som das coisas não ditas.
— Já tá tarde — murmurei, tentando encerrar.
Mas ele não se mexeu.
Ficou ali, parado, me olhando com aquele olhar que sempre me desmontava.
— Posso te levar até a porta, pelo menos? — perguntou.
— Já tô na porta, Ethan. — Ri fraco. — Literalmente.
Ele sorriu de canto, aquele sorriso torto que sempre aparecia quando não sabia o que fazer.
— Então me deixa te ver entrar — disse, simples, quase um pedido.
Por um instante, hesitei. Depois assenti.
Me virei e abri o portão.
Parei diante dele e olhei pra trás.
Ele ainda estava lá, com as mãos nos bolsos e o olhar perdido em mim.
— Boa noite, Ethan — falei, tentando encerrar a cena dentro de mim também.
— Boa noite, Eli — respondeu, num tom que soou mais como um “não vai embora”.
Entrei, fechei o portão devagar e encostei a testa no ferro frio.
Do outro lado, o som do motor ligando ecoou pela rua.
Mas o barulho que mais doía era o do meu próprio coração, pedindo pra abrir o portão outra vez.
Fiquei ali por alguns segundos, tentando convencer a mim mesma de que o certo era deixá-lo ir.
Mas o certo nunca teve o rosto dele.
Suspirei, respirei fundo e entrei.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
A casa estava em silêncio, mas dentro de mim o caos ainda gritava o nome dele.
Me joguei de novo na cama, peguei o celular, hesitei.
Nenhuma notificação.
Nenhuma mensagem dele.
— Claro que não, — murmurei pra mim mesma. — Ele aparece, bagunça tudo e vai embora, como sempre.
Passei a mão pelos cabelos, frustrada.
Queria chorar, mas o orgulho não deixava.
Queria dormir, mas o coração não deixava.
O celular vibrou.
Meu coração disparou — por um segundo, achei que fosse ele.
Mas não.
Murilo.
“Chegou bem? Foi ótimo te ver hoje. Espero que tenha se divertido.”
Fiquei encarando a tela.
O contraste era c***l.
Um tentando me dar paz, o outro, caos.
Digitei:
“Cheguei sim. Foi bom também. Boa noite, Murilo.”
Apertei enviar, deixei o celular cair ao lado do travesseiro e fechei os olhos.
Mas, claro, o universo adora ironia.
Um novo som ecoou — notificação.
Dessa vez, era ele.
Ethan:
“Eu não devia ter ido. Mas não consegui ficar longe.”
Meu peito apertou.
Fiquei olhando pra mensagem sem saber o que fazer.
Apagar? Responder? Fingir que não vi?
Deitei de lado, abraçando o travesseiro, e deixei o celular na mesa de cabeceira.
Não respondi.
Mas dormi com o nome dele queimando atrás das pálpebras.