Capitulo11

1461 Palavras
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.-William Shakespeare Olhei a tela do meu celular. “Desce. Estou na frente da sua casa.” Meu coração deu um salto. Desci as escadas apressada, cada degrau ecoando a mistura de ansiedade e raiva que eu tentava disfarçar. Quando abri o portão, lá estava ele — Ethan — encostado no carro, me observando com aquele olhar que parecia atravessar tudo ao redor. Do outro lado da rua, meu vizinho fingia olhar o celular, mas eu via o quanto estava curioso com a cena. — Precisamos conversar — disse Ethan, sem se mover, o olhar fixo em mim. Cruzei os braços, tentando conter o turbilhão dentro de mim. — É errado dirigir bêbado, sabia? — falei, desviando o olhar, fingindo tirar uma poeira inexistente do meu vestido preto. — Não tenta mudar de assunto — respondeu ele, a voz grave, quase um rosnado. Dei de ombros. — Mas não estávamos falando de nada. — Ele está aí? — perguntou, com a mandíbula tensa. — Não, ele não está. — Respirei fundo. — E ciúmes não combina com você, Ethan. — Não é ciúmes — murmurou, mas eu já conhecia aquele tom. Balancei a cabeça. — Ethan, já conversamos sobre isso. Você devia estar com a menina que levou pra me perseguir, lembra? Ele deu um passo à frente e, por um segundo, o ar pareceu pesar entre nós. Mas… vamos voltar um pouco, para entender como tudo chegou até aqui. Oito horas antes… A semana tinha sido exaustiva — daquelas que parecem durar um mês inteiro. Mas, finalmente, o sábado chegou. E lá estava eu: com meu vestidinho preto favorito, salto discreto e uma tentativa de leveza no ar. Sentada no Outback, em frente a Murilo, tentando convencer a mim mesma de que merecia um pouco de normalidade. Ethan tinha perguntado mais cedo o que eu ia fazer. Como sempre, fui sincera — disse que iria ao shopping com o Murilo. Talvez eu devesse ter mentido. — Você está muito linda — disse Murilo, com aquele sorriso encantador que parecia ensaiado. — Você também está — respondi, tentando acompanhar o tom leve da noite. Enquanto ele falava, observei o formato do rosto, os olhos castanhos que desviavam rápido demais, e algo dentro de mim sussurrou em alerta. Sempre fui uma pessoa espiritual, e quando algo vibra errado, eu sinto. E Murilo… tinha algo ali que não batia. Eu só não sabia se era ele quem escondia algo — ou se era eu quem estava sabotando qualquer tentativa de paz. Ele pegou o celular e digitou uma mensagem apressada. Segundo ele, ia entrar de plantão logo depois de sair comigo. Assenti, distraída, e levei a colher à boca — mas o movimento parou no meio do caminho. Meu coração congelou. Ethan. Ele acabara de entrar no restaurante — de mãos dadas com uma menina loira. Linda. Jovem. Da minha idade, talvez. Era impossível não olhar. Ele me viu, claro que viu. E sorriu. Um sorriso de provocação. Eu quis rir. Quis chorar. Quis jogar a colher nele. — Está tudo bem? — perguntou Murilo, me observando com a testa levemente franzida. — Está sim — respondi, respirando fundo. — Tá meio quente a comida, né? — Tá sim — respondeu ele, rindo, sem perceber a guerra silenciosa acontecendo a algumas mesas de distância. — Então, UTI de novo hoje? — mudei de assunto, tentando me recompor. — Sim, vou pegar um plantão de 48 horas. — Já te falei que você não tem vida, né? — Algumas vezes — disse ele, ainda sorrindo. Eu tentava parecer calma, mas meus olhos insistiam em voltar para Ethan. A menina o encarava com um olhar doce, e ele retribuía com aquele sorriso que um dia foi meu. Engoli seco. — E você, como foi o trabalho essa semana? — perguntou Murilo, tentando puxar assunto. — Bem… só muitos cálculos, como sempre. Não sou exatamente uma pessoa de exatas, sabe? — dei de ombros, forçando um sorriso. — Você se dá bem em tudo que faz — disse ele, pousando a mão sobre a minha, do outro lado da mesa. Fiquei tensa. O toque dele era gentil, mas não me acalmava. Pelo contrário — me deixou ainda mais consciente do olhar que eu sentia sobre mim. — Nem sempre — murmurei, puxando a mão de volta com delicadeza. Peguei o suco e levei à boca, fingindo distração. Murilo me observou em silêncio por um instante, depois soltou um leve suspiro. — Você ainda gosta dele, né? — perguntou, direto, sem rodeios. O copo parou a poucos centímetros da mesa. Por um momento, tudo ao redor pareceu sumir — o barulho dos talheres, as risadas, até o cheiro da comida. — De quem? — perguntei, fingindo surpresa, mas minha voz saiu fraca demais pra convencer. Murilo arqueou uma sobrancelha. — Não precisa mentir pra mim. Do seu ex que você comentou. Dei um pequeno sorriso, sem humor. — Não estou mentindo. Só… não sei o que sinto mais. Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. — Então ele ainda tem um lugar aí dentro. Olhei de relance para Ethan, que agora segurava a mão da loira sobre a mesa. Senti algo apertar dentro do peito — uma mistura estranha de raiva, dúvida e orgulho ferido. — Talvez — respondi por fim. — Mas não tem volta. Com o tempo, vai passar. Murilo assentiu devagar, e dessa vez o silêncio entre nós foi mais sincero que qualquer palavra. O jantar terminou em silêncio. Não era um silêncio desconfortável, mas aquele tipo que vem quando as palavras já não mudam mais nada. Murilo chamou o garçom, pediu a conta e pagou sem insistir em prolongar a noite. — Posso te deixar em casa? — perguntou, num tom calmo, quase cuidadoso. Assenti. Eu só queria ir embora dali, longe do olhar de Ethan e daquela cena que parecia ter sido feita pra me atingir. O caminho até o carro foi silencioso. Do outro lado do estacionamento, ainda consegui ver o brilho loiro do cabelo da menina com quem ele estava. Ela ria, jogando a cabeça pra trás, e ele… ele parecia se divertir também. Fingi que não vi. Mas vi. E doeu. Entrei no carro e fechei a porta, respirando fundo. Murilo deu a volta e ligou o motor. — Quer ouvir alguma música? — perguntou, tentando aliviar o clima. — Não, obrigada. — respondi, olhando pela janela. — Prefiro silêncio hoje. A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes e lembranças. Murilo não insistiu. Só dirigia, tranquilo, as mãos firmes no volante. De vez em quando, me olhava de canto, como quem queria entender o que se passava — mas eu mesma não sabia explicar. Quando chegamos, ele estacionou em frente à minha casa e desligou o carro. Por alguns segundos, ficamos ali, no escuro, ouvindo apenas o barulho distante da rua. — Ei — disse ele, virando-se pra mim. — Não precisa se culpar por nada, tá? Às vezes a gente quer esquecer alguém, mas o coração demora pra acompanhar a cabeça. Sorri de leve, sentindo o peso das palavras. — Eu sei… é só que parece que eu sempre volto pro mesmo lugar. — Um dia você não vai mais voltar — respondeu ele, com um meio sorriso. — E quando esse dia chegar, vai perceber que finalmente se libertou. Assenti, sem confiar muito na minha voz. Ele se aproximou, devagar, como se me desse tempo pra decidir o que queria. O beijo não veio — apenas um toque leve no rosto, um gesto de carinho que dizia mais do que qualquer palavra. — Boa noite, Eli. — sussurrou. — Boa noite, Murilo. — respondi, abrindo a porta. Saí do carro e caminhei até o portão. Antes de entrar, olhei pra trás. Ele ainda estava ali, me observando, com aquele olhar sereno que doía justamente por não me causar o mesmo arrepio. Assim que entrei, o silêncio da casa me envolveu. Subi pro quarto, e me joguei na cama, não sei quantos minutos fiquei ali, mais foram muitos minutos O celular vibrou. O nome dele iluminou a tela. Ethan 💬: “Tá acordada?” Fechei os olhos e respirei fundo. Apaguei a mensagem sem responder. Dois minutos depois, outra. Ethan 💬: “Queria te ver.” Senti o coração apertar. Peguei o celular e digitei: “Vai dormir, Ethan.” Mas não enviei. Fiquei olhando para a tela até ela apagar sozinha. Minutos depois, outra vibração. Uma mensagem curta, direta, que me fez sentar na cama. “Desce. Estou na frente da sua casa.” Meu coração disparou. E o resto… Você já sabe. Continua...
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