Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.-William Shakespeare
Olhei a tela do meu celular.
“Desce. Estou na frente da sua casa.”
Meu coração deu um salto.
Desci as escadas apressada, cada degrau ecoando a mistura de ansiedade e raiva que eu tentava disfarçar.
Quando abri o portão, lá estava ele — Ethan — encostado no carro, me observando com aquele olhar que parecia atravessar tudo ao redor.
Do outro lado da rua, meu vizinho fingia olhar o celular, mas eu via o quanto estava curioso com a cena.
— Precisamos conversar — disse Ethan, sem se mover, o olhar fixo em mim.
Cruzei os braços, tentando conter o turbilhão dentro de mim.
— É errado dirigir bêbado, sabia? — falei, desviando o olhar, fingindo tirar uma poeira inexistente do meu vestido preto.
— Não tenta mudar de assunto — respondeu ele, a voz grave, quase um rosnado.
Dei de ombros. — Mas não estávamos falando de nada.
— Ele está aí? — perguntou, com a mandíbula tensa.
— Não, ele não está. — Respirei fundo. — E ciúmes não combina com você, Ethan.
— Não é ciúmes — murmurou, mas eu já conhecia aquele tom.
Balancei a cabeça. — Ethan, já conversamos sobre isso. Você devia estar com a menina que levou pra me perseguir, lembra?
Ele deu um passo à frente e, por um segundo, o ar pareceu pesar entre nós.
Mas… vamos voltar um pouco, para entender como tudo chegou até aqui.
Oito horas antes…
A semana tinha sido exaustiva — daquelas que parecem durar um mês inteiro.
Mas, finalmente, o sábado chegou.
E lá estava eu: com meu vestidinho preto favorito, salto discreto e uma tentativa de leveza no ar.
Sentada no Outback, em frente a Murilo, tentando convencer a mim mesma de que merecia um pouco de normalidade.
Ethan tinha perguntado mais cedo o que eu ia fazer.
Como sempre, fui sincera — disse que iria ao shopping com o Murilo.
Talvez eu devesse ter mentido.
— Você está muito linda — disse Murilo, com aquele sorriso encantador que parecia ensaiado.
— Você também está — respondi, tentando acompanhar o tom leve da noite.
Enquanto ele falava, observei o formato do rosto, os olhos castanhos que desviavam rápido demais, e algo dentro de mim sussurrou em alerta.
Sempre fui uma pessoa espiritual, e quando algo vibra errado, eu sinto.
E Murilo… tinha algo ali que não batia.
Eu só não sabia se era ele quem escondia algo — ou se era eu quem estava sabotando qualquer tentativa de paz.
Ele pegou o celular e digitou uma mensagem apressada.
Segundo ele, ia entrar de plantão logo depois de sair comigo.
Assenti, distraída, e levei a colher à boca — mas o movimento parou no meio do caminho.
Meu coração congelou.
Ethan.
Ele acabara de entrar no restaurante — de mãos dadas com uma menina loira.
Linda. Jovem. Da minha idade, talvez.
Era impossível não olhar.
Ele me viu, claro que viu.
E sorriu.
Um sorriso de provocação.
Eu quis rir.
Quis chorar.
Quis jogar a colher nele.
— Está tudo bem? — perguntou Murilo, me observando com a testa levemente franzida.
— Está sim — respondi, respirando fundo. — Tá meio quente a comida, né?
— Tá sim — respondeu ele, rindo, sem perceber a guerra silenciosa acontecendo a algumas mesas de distância.
— Então, UTI de novo hoje? — mudei de assunto, tentando me recompor.
— Sim, vou pegar um plantão de 48 horas.
— Já te falei que você não tem vida, né?
— Algumas vezes — disse ele, ainda sorrindo.
Eu tentava parecer calma, mas meus olhos insistiam em voltar para Ethan.
A menina o encarava com um olhar doce, e ele retribuía com aquele sorriso que um dia foi meu.
Engoli seco.
— E você, como foi o trabalho essa semana? — perguntou Murilo, tentando puxar assunto.
— Bem… só muitos cálculos, como sempre. Não sou exatamente uma pessoa de exatas, sabe? — dei de ombros, forçando um sorriso.
— Você se dá bem em tudo que faz — disse ele, pousando a mão sobre a minha, do outro lado da mesa.
Fiquei tensa. O toque dele era gentil, mas não me acalmava.
Pelo contrário — me deixou ainda mais consciente do olhar que eu sentia sobre mim.
— Nem sempre — murmurei, puxando a mão de volta com delicadeza. Peguei o suco e levei à boca, fingindo distração.
Murilo me observou em silêncio por um instante, depois soltou um leve suspiro.
— Você ainda gosta dele, né? — perguntou, direto, sem rodeios.
O copo parou a poucos centímetros da mesa.
Por um momento, tudo ao redor pareceu sumir — o barulho dos talheres, as risadas, até o cheiro da comida.
— De quem? — perguntei, fingindo surpresa, mas minha voz saiu fraca demais pra convencer.
Murilo arqueou uma sobrancelha. — Não precisa mentir pra mim. Do seu ex que você comentou.
Dei um pequeno sorriso, sem humor. — Não estou mentindo. Só… não sei o que sinto mais.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. — Então ele ainda tem um lugar aí dentro.
Olhei de relance para Ethan, que agora segurava a mão da loira sobre a mesa.
Senti algo apertar dentro do peito — uma mistura estranha de raiva, dúvida e orgulho ferido.
— Talvez — respondi por fim. — Mas não tem volta. Com o tempo, vai passar.
Murilo assentiu devagar, e dessa vez o silêncio entre nós foi mais sincero que qualquer palavra.
O jantar terminou em silêncio.
Não era um silêncio desconfortável, mas aquele tipo que vem quando as palavras já não mudam mais nada.
Murilo chamou o garçom, pediu a conta e pagou sem insistir em prolongar a noite.
— Posso te deixar em casa? — perguntou, num tom calmo, quase cuidadoso.
Assenti.
Eu só queria ir embora dali, longe do olhar de Ethan e daquela cena que parecia ter sido feita pra me atingir.
O caminho até o carro foi silencioso. Do outro lado do estacionamento, ainda consegui ver o brilho loiro do cabelo da menina com quem ele estava. Ela ria, jogando a cabeça pra trás, e ele… ele parecia se divertir também.
Fingi que não vi.
Mas vi.
E doeu.
Entrei no carro e fechei a porta, respirando fundo. Murilo deu a volta e ligou o motor.
— Quer ouvir alguma música? — perguntou, tentando aliviar o clima.
— Não, obrigada. — respondi, olhando pela janela. — Prefiro silêncio hoje.
A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes e lembranças.
Murilo não insistiu. Só dirigia, tranquilo, as mãos firmes no volante.
De vez em quando, me olhava de canto, como quem queria entender o que se passava — mas eu mesma não sabia explicar.
Quando chegamos, ele estacionou em frente à minha casa e desligou o carro.
Por alguns segundos, ficamos ali, no escuro, ouvindo apenas o barulho distante da rua.
— Ei — disse ele, virando-se pra mim. — Não precisa se culpar por nada, tá? Às vezes a gente quer esquecer alguém, mas o coração demora pra acompanhar a cabeça.
Sorri de leve, sentindo o peso das palavras.
— Eu sei… é só que parece que eu sempre volto pro mesmo lugar.
— Um dia você não vai mais voltar — respondeu ele, com um meio sorriso. — E quando esse dia chegar, vai perceber que finalmente se libertou.
Assenti, sem confiar muito na minha voz.
Ele se aproximou, devagar, como se me desse tempo pra decidir o que queria.
O beijo não veio — apenas um toque leve no rosto, um gesto de carinho que dizia mais do que qualquer palavra.
— Boa noite, Eli. — sussurrou.
— Boa noite, Murilo. — respondi, abrindo a porta.
Saí do carro e caminhei até o portão. Antes de entrar, olhei pra trás.
Ele ainda estava ali, me observando, com aquele olhar sereno que doía justamente por não me causar o mesmo arrepio.
Assim que entrei, o silêncio da casa me envolveu.
Subi pro quarto, e me joguei na cama, não sei quantos minutos fiquei ali, mais foram muitos minutos
O celular vibrou.
O nome dele iluminou a tela.
Ethan 💬: “Tá acordada?”
Fechei os olhos e respirei fundo.
Apaguei a mensagem sem responder.
Dois minutos depois, outra.
Ethan 💬: “Queria te ver.”
Senti o coração apertar.
Peguei o celular e digitei:
“Vai dormir, Ethan.”
Mas não enviei.
Fiquei olhando para a tela até ela apagar sozinha.
Minutos depois, outra vibração.
Uma mensagem curta, direta, que me fez sentar na cama.
“Desce. Estou na frente da sua casa.”
Meu coração disparou.
E o resto…
Você já sabe.
Continua...