Rebeca Narrando
Ainda sinto o calor das mãos dele na minha cintura. Meu corpo inteiro vibra com o toque que m*l aconteceu.
Com o beijo que quase foi.
Leonardo Duarte.
Ele não é só meu chefe. É um homem que parece esculpido para destruir a sanidade de qualquer mulher: alto, imponente, com olhos que te despem mesmo quando está vestido dos pés à cabeça. Aquele olhar não pede permissão.
Ele toma.
E hoje… ele quase me tomou.
Voltei do happy hour como se tivesse bebido mais do que tomei. Na verdade, foi só um drink. Mas meu corpo ainda está embriagado dele. Do que quase aconteceu ali fora.
Não consegui dormir. Fiquei encarando o teto, relembrando cada palavra, cada centímetro que separava nossos lábios. O jeito como ele disse que veio por mim… como se eu fosse a única pessoa naquele lugar. Aquilo não era coisa que se diz por impulso.
Era intenção. Desejo. Puro e perigoso. Mas eu não sou esse tipo de mulher. Ou pelo menos, achava que não era.
Sempre fui certinha. Sempre sonhei com o tipo de romance que começa com flores, mãos dadas e jantares à luz de velas. Sempre achei que esperaria pelo cara certo, na hora certa… que o amor viria suave, leve. Sem pressa.
Mas Leonardo não é leve.
Ele é intensidade.
E está fazendo nascer dentro de mim uma mulher que eu nem sabia que existia. Uma que quer se jogar sem pensar nas consequências. Uma que não consegue esquecer o cheiro dele, o som da voz dele, a forma como seus olhos escureceram quando eu disse que talvez não quisesse que ele parasse.
Eu disse aquilo. De verdade. Sem pensar, sem medir. Porque no fundo… eu queria mesmo. E ainda quero.
Mas isso é tão errado.
Ele é meu chefe. Está completamente fora dos limites. E ainda por cima… aquela mulher. A ex dele, Nina. Só de lembrar o jeito como ela me olhou, me arrepia. Aquela mulher é um aviso. Um alerta de que estou entrando num campo de batalha. Mesmo assim, aqui estou eu.
Me perguntando o que teria acontecido se ninguém tivesse interrompido. Se nossos lábios tivessem se tocado. Se eu tivesse sentido de verdade o gosto do homem que me tira o fôlego. O problema é que eu sei a resposta. Se ele me beijasse… eu não teria parado.
E agora, nem sei mais se quero parar.
Na manhã seguinte, acordei com os olhos pesados e o coração inquieto. Vesti uma saia lápis preta, uma camisa de seda clara e prendi o cabelo em um coque mais firme que o normal. Talvez, no fundo, eu quisesse parecer mais séria, mais profissional. Mais… intocável.
Mas ao cruzar a porta do prédio da Duarte Empreendimentos, tudo o que senti foi o mesmo frio na barriga da noite anterior. Não era medo. Era expectativa.
Meus saltos ressoavam pelo mármore impecável, e com cada passo eu tentava convencer a mim mesma de que nada mudou. Que ele é só o meu chefe. Que foi só um momento de fraqueza.
Mas mentir para mim mesma nunca foi o meu forte.
— Bom dia, Rebeca — disse uma colega do financeiro, me dando um sorriso simpático. Respondi no automático.
Cheguei à sala de Leonardo com as mãos suando.
Respirei fundo antes de girar a maçaneta.
Ele estava lá, como sempre: terno impecável, mangas arregaçadas, os dedos longos digitando alguma coisa no notebook. Quando me viu, ergueu os olhos. Aqueles olhos que pareciam me ver além da roupa, além da carne. Ele sorriu de leve — só de um lado. Aquele maldito sorriso que me faz esquecer onde estou.
— Bom dia, Rebeca.
A voz dele soou baixa, carregada de algo que eu fingia não reconhecer: tensão. Desejo.
— B-bom dia, senhor Duarte — respondi, me odiando por gaguejar.
Ele riu, devagar. Aquela risada que arrepia por dentro.
— Depois de ontem… ainda vai me chamar de “senhor”?
Corei até a raiz do cabelo.
— Foi… uma situação fora do comum. Mas estamos no escritório agora. E eu… gosto de manter a compostura.
Ele se levantou lentamente, caminhando até mim com passos calmos demais para alguém que parecia conter um furacão por dentro.
— Você é disciplinada. Isso é admirável.
Parou perto. Muito perto.
— Mas não vai conseguir fingir que nada aconteceu, Rebeca. Eu vi. Senti. E você sentiu também.
Engoli seco. Quis dizer que não. Que ele estava enganado. Mas… eu não sou boa em mentiras.
Então desviei o olhar, tentando manter o controle que já estava escapando.
— Foi um momento. Só isso.
— Pode até repetir isso mil vezes, Rebeca… — ele murmurou, se inclinando ligeiramente até seu rosto ficar perto do meu. — Mas seu corpo vai sempre dizer a verdade.
Meu coração martelava no peito. Minhas pernas tremiam.
Eu precisava sair dali. Respirar.
— Com licença, senhor Duarte. Tenho relatórios para finalizar.
E saí da sala antes que perdesse a cabeça. Antes que me perdesse completamente nele. Mas, no fundo, eu sabia. Não importa quantas barreiras eu tente construir, Leonardo Duarte já começou a derrubá-las.
Uma por uma.
Voltei para a minha mesa com o coração acelerado e as mãos trêmulas. Não sei como consegui digitar alguma coisa sem errar todas as letras. Leonardo estava me consumindo por dentro, e nem sabia o quanto.
Ou pior… talvez soubesse.
Ele é experiente. Seguro. Tem aquele olhar que parece sempre um passo à frente, como se soubesse exatamente o efeito que causa. E em mim, o efeito é devastador. Minha cabeça dizia que eu precisava me afastar. Que isso era perigoso, errado, complicado. Que eu podia perder tudo. Minha credibilidade. Meu emprego. Minha paz.
Mas o corpo… o corpo queria mais. Mais da voz rouca dele dizendo meu nome. Mais do calor dos olhos dele percorrendo meu corpo. Mais da tensão deliciosa que nos cerca cada vez que ficamos a sós.
Olhei para o reflexo da minha tela escura e, por um instante, não vi a Rebeca certinha, a menina dos sonhos recatados. Vi uma mulher. Uma mulher cheia de vontade.
E foi aí que entendi…
Talvez eu tenha esperado tanto tempo por alguém que me fizesse sentir assim, viva, pulsando, à beira do abismo, e agora que encontrei, estou com medo de pular. Mas e se, ao invés de cair, eu voar? Suspirei, tentando afastar o turbilhão que tomava conta de mim. Mas então… a porta da sala dele se abriu. E Leonardo saiu. Nossos olhos se cruzaram. E naquele instante, com aquele olhar intenso e possessivo cravado em mim, eu soube: Não tem mais volta.