6- Incontrolável

1394 Palavras
Leonardo Narrando Ela me evita. Finge que não sente. Desvia o olhar. Morde os lábios como se quisesse conter o que o corpo grita. Mas eu vejo. Cada detalhe. Cada gesto. Rebeca pode até tentar se esconder por trás de relatórios e planilhas, mas eu sou um homem treinado para ler pessoas. Negociar com tubarões. Dominar ambientes. E com ela… eu perco o controle. Nunca me deixei abalar por uma mulher. Nunca. Tive mulheres lindas, ousadas, provocantes. Todas sabiam que meu mundo tem regras: prazer sem promessas. Intensidade sem futuro. Um jogo onde eu sempre controlo as peças. Mas Rebeca não joga. Ela é o jogo. Inocente, doce… e, ao mesmo tempo, provocante sem querer. É esse contraste que me enlouquece. Quando me chamou de “senhor Duarte” com aquela voz trêmula, quase perdi a razão. Quase puxei ela contra mim e beijei até ela esquecer qualquer regra ou resistência. Mas me contive. Pela primeira vez em muito tempo, me contive. E agora, estou aqui. Encostado na porta da minha sala, observando cada passo dela como um predador observa sua presa favorita. E então, para piorar tudo… Nina reaparece. Claro que ela não iria desistir tão fácil. Nina é como uma sombra do meu passado, insistente, manipuladora, e tão venenosa quanto charmosa. Ela invadiu minha sala no fim do expediente, com aquele andar arrogante e o batom vermelho que sempre usava quando queria guerra. — Sabe que odeio ser ignorada, Leo — ela começou, se jogando na poltrona diante da minha mesa como se ainda tivesse algum direito. — E eu odeio ter meu tempo desperdiçado — respondi seco, sem levantar os olhos do notebook. — Então para de fingir. Aquela garotinha que você contratou… ela não vai te dar o que eu dava. Fechei o notebook com força. Levantei devagar. — Não fala dela. — Ah… então é isso? Ela agora é o seu brinquedinho novo? — Nina. Eu tô tentando manter a educação. Mas se continuar, vai se arrepender de ter voltado aqui. Ela se levantou com um sorriso debochado, me rodeando como uma cobra. — Você pode até tentar se enganar, Leo. Mas eu te conheço. Sei o que te excita. Sei o que você precisa. Essa pureza toda dessa Rebeca… vai te cansar. Você vai vir atrás de mim. Vai se lembrar do que éramos. — Já me lembro — falei, firme. — E por isso mesmo, jamais repetiria. Ela sorriu, fria. Como se tivesse um trunfo escondido. — A gente se vê por aí, querido. E saiu como chegou: deixando veneno no ar. Mas o que ela não sabe é que Rebeca já me tem de um jeito que nenhuma mulher jamais teve. Não é só desejo. É fascínio. É querer explorar cada centímetro daquela pele macia, ouvir meu nome escapando da boca dela no escuro. É querer possuir… e proteger. E isso… é novo pra mim. Perigoso. Incontrolável. Mas eu não vou recuar. Se ela for minha queda, que seja. Porque agora que provei o gosto da tentação… Não pretendo parar. Assim que a porta se fechou atrás de Nina, o silêncio tomou conta da sala. Mas não um silêncio comum. Era denso. Quente. Carregado. O tipo de silêncio que precede uma tempestade. Sentei novamente na cadeira, esfregando o maxilar. Nina é um lembrete do homem que eu era impulsivo, imaturo, c***l. E essa versão não pode tocar em Rebeca. Ela não merece isso. Ela merece algo melhor. Algo limpo. Mas eu… não sou esse homem limpo. Então por que continuo pensando nela a cada maldito segundo? O jeito que ela me olha e tenta desviar os olhos. O som da risada dela quando se solta com as outras secretárias no café. A maneira como o vestido acompanha as curvas dela… discretamente, mas com perfeição. É uma provocação. Um tormento diário. E agora, depois do que aconteceu hoje cedo, sei que ela sente também. Rebeca pode negar. Pode fugir. Mas o fogo que vi nos olhos dela não mente. E eu sou o tipo de homem que não ignora sinais. Levantei da cadeira de uma vez. Não conseguiria me concentrar em nada até vê-la de novo. Até ter certeza de que está bem… e que não foi Nina quem ocupou os pensamentos dela agora. Saí da sala e fui direto para o andar da equipe administrativa. Andar casual. Pessoas sorrindo, rindo alto. Clima leve, descontraído. Mas quando entrei, tudo parou por um segundo. Meus olhos encontraram os dela. E, por um momento, só havia nós dois. Ela estava com uma xícara de café na mão, parada perto da copiadora. Vestido azul-claro, justo na cintura, cabelo preso com algumas mechas soltas… e aquela boca. Maldita boca. Rebeca mordeu o lábio. Meu autocontrole quase evaporou. — Rebeca — chamei com a voz baixa, firme. Ela hesitou por um segundo, olhou em volta e andou até mim com passos pequenos. — Sim, senhor Duarte? Olhei nos olhos dela. Profundo. Intenso. Ela engoliu em seco. — Preciso que vá até minha sala. Agora. Ela franziu a testa, surpresa. Mas não questionou. Apenas assentiu, baixando os olhos. Enquanto caminhávamos de volta, lado a lado, eu sentia a tensão crescer. A cada passo, a vontade de puxá-la contra a parede, beijá-la até ela esquecer qualquer outra coisa, aumentava. Mas eu me controlei. Ainda. Porque quando a porta da minha sala se fechasse… Quando estivéssemos sozinhos de novo… Talvez a linha que separa o certo do errado finalmente desaparecesse. E eu cruzasse, sem olhar para trás. A porta se fechou atrás de nós. Rebeca ficou parada, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo, como se estivesse se protegendo de alguma coisa. Ou de alguém. De mim. Me aproximei devagar, com passos firmes, mas sem pressa. Queria observar cada reação dela. O jeito como o peito subia e descia com a respiração acelerada. Como os olhos verdes me acompanhavam com receio, mas também com… curiosidade. Desejo. — Por que me chamou aqui? — ela perguntou, a voz suave, mas um pouco trêmula. Cruzei os braços, mantendo certa distância. Ainda. — Porque eu precisava ver você. Sozinha. Sem distrações. Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa. — Isso é algum tipo de brincadeira? Sorri de lado. — Não brinco com assuntos sérios. E você… Rebeca… tem me tirado o foco mais do que gostaria de admitir. Ela desviou o olhar, corando. Linda. Inocente. Tentadora. — Senhor Duarte, eu… só estou tentando fazer meu trabalho — murmurou. — E está fazendo bem. Talvez até demais. Ela ergueu os olhos para mim. Tinha firmeza ali, apesar do nervosismo. — Se está insinuando algo, posso ir embora. — Não — respondi, a voz mais baixa, rouca. Dei dois passos, me aproximando. Ela não recuou. — Não estou insinuando nada. Estou te dizendo o que é. — E o que é, exatamente? Nosso olhar se prendeu. Meu corpo se aproximou do dela como se fosse atraído por um ímã. — É tensão, Rebeca. Química. Desejo. Você sente. Eu sinto. Não tem como negar. Ela respirou fundo. — Não é certo… — Eu sei. Outro passo. Estávamos a centímetros. — Mas não consigo evitar. Meus dedos tocaram o queixo dela, com delicadeza, erguendo o rosto para mim. Ela fechou os olhos por um instante, como se lutasse contra si mesma. E então os abriu. E neles havia um brilho que me incendiou. — Eu não sei jogar esse jogo — ela sussurrou. — Não precisa jogar — respondi. — Só… sente. Acariciei sua bochecha com as costas da mão. A pele dela era macia como seda. Se eu me inclinasse só um pouco mais… — Leonardo… O som do meu nome saindo dos lábios dela me fez perder o chão por um segundo. Rebeca me olhava como se estivesse à beira de um precipício, com medo e desejo em partes iguais. E eu também estava. Porque se eu desse mais um passo… Não teria mais volta. Mas antes que qualquer coisa acontecesse, ela se afastou. Um pequeno passo. O suficiente para nos trazer de volta à realidade. — Eu… preciso voltar ao trabalho — disse, baixando o olhar. Assenti, respirando fundo. — Vá. Mas saiba… isso não acabou. Ela me lançou um último olhar e saiu, deixando a porta se fechar suavemente. Fiquei ali, sozinho, sentindo o gosto do que quase aconteceu. E sabendo que não vou descansar… até acontecer de verdade.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR