Capítulo 7

2048 Palavras
Beca O quarto — o nosso quarto, eu acho — é maior que o meu apartamento inteiro. A luz do fim da tarde penetra pelas janelas do chão ao teto com vista para os jardins iluminados, projetando longas sombras sobre o piso de madeira em espinha de peixe. Uma enorme cama de dossel domina o espaço, com sua estrutura de mogno escuro sustentando o que parece uma pequena fortuna em lençóis italianos. Só os lençóis provavelmente custam mais do que meus materiais de arte para um semestre. Tudo evoca riqueza e bom gosto masculino — das poltronas de couro junto à lareira às pinturas abstratas que suspeito serem originais de Rothko. O próprio ar parece caro, com notas de sândalo e couro das velas acesas nas mesas laterais de mármore. Esse é o domínio de Marco, seu santuário, e em breve será meu também. Só de pensar nisso meu estômago embrulha. Fico no centro de tudo, enrolada em nada além de uma toalha depois do banho, olhando para os escassos pertences que os homens de Marco conseguiram resgatar do meu apartamento vandalizado. Minha garganta aperta ao ver aquilo. Minhas pinturas, meus materiais de arte, a maioria das minhas roupas — tudo arruinado com tinta vermelha. Eles não destruíram apenas minhas coisas; eles violaram minha arte. Usaram minhas próprias tintas acrílicas vermelho-sangue para escrever sua mensagem nas minhas telas: Bem-vindo à família. A lembrança de ver as fotos do meu estúdio assim me dá uma sensação de bile na garganta. Cada tela destruída representava horas de trabalho, pedaços da minha alma derramada na superfície. Minhas peças para a próxima exposição de teses, as paisagens urbanas que eu vinha desenvolvendo há meses, o retrato do meu pai no qual eu vinha trabalhando em segredo — tudo destruído. Eles não levaram apenas meus pertences; eles levaram minha voz. Minhas mãos tremem ao abrir a sacola com meu vestido de funeral. Valentino preto, o tecido tão fino que parece água entre meus dedos. O modelo é elegantemente simples — na altura do joelho, com mangas compridas e gola alta, perfeitamente apropriado para uma princesa da máfia enterrando o pai. Escolha da minha mãe, é claro. Katherine tinha aparecido uma hora antes com uma equipe inteira de estilistas e sua língua ácida de sempre. — Sério, querida — ela disse, me olhando com desdém. — Essa fase artística já serviu ao seu propósito, mas é hora de ser quem você nasceu para ser. O nome Mancini traz certas expectativas.— Eu me contive para responder sobre o que exatamente eu nasci para ser. Um peão? Uma substituta? Uma marionete bonita com roupas de grife? Uma batida na porta do quarto me faz dar um pulo. — Srta. Beca?— É Maria, a governanta. — O Sr. Mancini me pediu para trazer isso para você. A mulher mais velha entra, com os cabelos prateados presos na nuca, e os olhos castanhos e calorosos brilhando de gentileza. Ela é exatamente como uma avó deveria ser, dos sapatos confortáveis ao uniforme passado, e algo em sua presença gentil alivia a tensão nos meus ombros. Ela carrega uma pilha de sacolas de compras — Neiman Marcus, Bergdorf Goodman, La Perla. As cores e os logotipos característicos me ridicularizam com seu luxo. — Ele disse que você pode precisar de... tudo. Tudo. Porque a família Greco tinha destruído tudo o que eu tinha. Minha garganta aperta ao pensar nos meus materiais destruídos — os pincéis especiais que colecionei ao longo dos anos, as tintas importadas para as quais economizei, os cadernos de desenho cheios de ideias e sonhos. Tudo se foi, substituído por marcas de grife e preços que provavelmente equivalem à minha mensalidade anual. — Obrigada, Maria. — Você precisa de ajuda? — Não — respondo rapidamente, sentindo a necessidade urgente de ficar sozinha com minha dor, minha raiva, minha confusão. — Não, eu consigo. Assim que Maria sai, jogo as malas sobre a cama enorme. O conteúdo se espalha como uma revista de moda que tivesse explodido — suéteres de cashmere, blusas de seda, calças de alfaiataria, tudo em tons discretos de preto e cinza. Cremes. Perfumes. Produtos caríssimos. Tudo exatamente do meu tamanho, porque, é claro, Marco saberia minhas medidas. Só de pensar nisso, meu rosto esquenta. Então encontro a bolsa da La Perla. Prendo a respiração enquanto retiro, peça por peça, lingeries quase imperceptíveis. Seda esmeralda e renda preta. Alças finas, recortes estratégicos. Uma camisola que escorreria pelas minhas coxas como água. Um conjunto de sutiã que provavelmente custa mais do que meu antigo aluguel mensal. Tudo feito para seduzir. Para submeter. A mensagem é clara: devo me parecer com a esposa perfeita de um chefão da máfia. Cada centímetro de mim, mesmo os que só ele verá, deve ser perfeitamente preparado. Controlado. A porta do quarto se abre sem aviso. Marco entra, e meu coração imediatamente para de bater. Ele congela ao me ver apenas de toalha, e o ar da suíte se carrega de eletricidade. Mesmo após horas de reuniões, ele ainda exala aquele poder letal e refinado — devastador em seu terno sob medida. O paletó abraça seus ombros largos, fazendo-me sentir pequena. Seu cabelo, geralmente impecável, está um pouco desalinhado, como se ele tivesse passado os dedos por ele. As têmporas salpicadas de fios prateados refletem a luz do abajur, e algo se contrai fundo no meu ventre. — E-eu pensei que você ainda estivesse em reunião — gaguejo, segurando a toalha com mais força. Me disseram que ele ficaria ocupado até tarde. A água escorre do meu cabelo pelas costas, e de repente, cada gota parece uma carícia. Pela maneira como seus olhos escurecem, ele está rastreando o caminho que elas fazem. — Acabou cedo — sua voz é mais grave do que o habitual, áspera, e provoca um arrepio que não tem nada a ver com o frio. — A família Greco mandou outra mensagem. O medo corta meu constrangimento como uma lâmina. — Que tipo de mensagem? — Nada com que você precise se preocupar. O tom seco deveria me enfurecer — e enfurece —, mas é difícil manter o foco na raiva quando ele me olha daquele jeito. Ele afrouxa a gravata, um gesto simples que, em suas mãos, parece carregado de promessas. Tira o paletó em seguida, revelando a camisa branca que molda seu corpo com perfeição perigosa. — O funeral... — Meus joelhos fraquejam com a lembrança. Afundo na beira da cama, entre sacolas de compras e vestidos caros. — Não sei se consigo... Marco se aproxima com dois passos decididos, ajoelhando-se diante de mim. De tão perto, posso ver os traços da barba por fazer, sentir o leve aroma da colônia misturado com algo mais cru, mais masculino. Seus olhos encontram os meus — azul-aço, turvos como o mar antes da tempestade — e minha respiração falha. — Você consegue — diz ele suavemente. A gentileza em sua voz me quebra mais do que qualquer força bruta. — Você é mais forte do que imagina, Rebecca. — Beca — corrijo, quase sem pensar. E então sorrio, amarga, por me importar com isso agora. Uma gota d'água escorre do meu cabelo até a mão dele, pousada perto do meu joelho. Seus dedos se contraem. Ele sorri de leve. — Beca — repete, estendendo a mão para afastar uma mecha molhada da minha bochecha. O gesto é gentil, quase terno — o que torna ainda mais inquietante saber o que essas mãos já fizeram. Quando seus dedos calejados roçam minha pele, é como se acendessem algo adormecido em mim. Eu deveria me afastar. Me levantar. Vestir alguma coisa. Mas, em vez disso, me inclino para o toque, meu corpo se entregando como sempre faz perto dele. Ele cheira a uísque, perigo e um tipo de virilidade que me embriaga. — Me fale dele? — sussurro, desesperada para afastar o turbilhão dentro de mim. — Do meu pai. Não o mafioso. Seu amigo. Algo muda em Marco. Um traço de vulnerabilidade suaviza suas feições perigosas. Ele se levanta, senta ao meu lado na cama — tão perto que sua coxa toca a minha através da toalha. O calor do contato me percorre como eletricidade. — Ele era o melhor homem que conheci — diz Marco, com a voz carregada de lembranças. — E o pior jogador de pôquer. Ele ri, e o som parece vibrar dentro de mim. — Contava as mesmas piadas ridículas em todos os jantares. Sua mãe fingia estar envergonhada, mas ria toda vez. — Eu me lembro — digo, puxando os joelhos para perto do peito. Água ainda escorre pelas minhas pernas, e acho que ouço a respiração de Marco falhar. — Antes de tudo... antes das coisas ficarem complicadas. — Você vivia coberta de tinta, até mesmo naquela época. — Ele toca uma manchinha seca no meu braço. — Alessandro dizia que puxou isso da mãe dele. Ela também era artista. — Eu nunca soube disso — murmuro, surpresa. — Tem muita coisa que você ainda não sabe sobre a sua família. Sobre esse mundo. — Sua mão continua em meu braço. — E eu vou ter que te ensinar. A forma como ele diz isso... Sombrio. Promissor. Como se cada palavra estivesse carregada de duplo sentido. Meu corpo reage antes da mente. Imagino suas mãos me ensinando outras coisas, sua barba raspando minha pele, sua boca me explorando... Não. Não posso. Amanhã eu enterro meu pai. Depois de amanhã, me caso com Marco Mancini. — Preciso me vestir — digo, levantando rápido. Mas tropeço em uma sacola caída. Ele me segura com firmeza, a mão espalmada contra minhas costas nuas onde a toalha escorregou. Sua palma é quente, forte, e meu corpo se molda ao dele como se tivesse sido feito para isso. — Cuidado, pequena — ele murmura, a voz baixa, íntima, italiana. Seu polegar faz pequenos círculos nas minhas costas, e cada um deles me rouba o fôlego. — Eu não sou pequena — protesto fracamente, sem conseguir me afastar. — Não — ele concorda, a voz grave, os olhos escurecendo. A outra mão sobe até minha bochecha. Seu polegar roça meu lábio inferior. — Você não é. Por um instante, penso que ele vai me beijar. Uma parte de mim quer que ele me beije. Preciso saber como é sua boca. Se ele beija com a mesma intensidade com que me olha. Meus lábios se entreabrem. Sua respiração falha. Sua mão me puxa ainda mais para perto... Mas ele recua. Coloca distância. O vazio onde estava sua presença me gela, ainda que minha pele continue em chamas. — Vista-se — diz, com a voz rouca e controlada. Ele se vira em direção ao banheiro, já tirando a gravata. A simples ação, a curva do ombro, a firmeza das costas — tudo nele é um convite ao pecado. — E, Beca? — Ele olha para trás. Há fome em seus olhos. Possessão. E algo mais suave, mais perigoso. — A camisola esmeralda. Use aquela. Desaparece no banheiro, deixando-me tremendo no meio do quarto. O chuveiro liga. O som invade minha mente com imagens proibidas — água escorrendo por suas costas, mãos deslizando sobre músculos tensos... Meus dedos procuram a camisola, mas, ao encontrá-la, hesito. É linda. Sedutora. Esmeralda, como o anel que ele estava mais cedo. O anel que pertenceu à esposa morta. Sento na cama, cercada por tecidos caros e lembranças cortantes. Amanhã enterrarei meu pai. No dia seguinte, me casarei com um homem que me desperta desejos que não entendo — desejo, medo, uma fome desesperada. E essa noite... tenho que decidir se vou vestir a cor da mulher que veio antes. Se aceitarei ser uma sombra. Um fantasma. O vapor escapa pela fresta da porta, trazendo consigo o cheiro dele. Fecho os olhos, lembrando suas mãos, sua voz, o toque quente em minha pele. Não. Pego a camisola de seda preta. O tecido desliza entre meus dedos como uma promessa. Não é por ele. É por mim. Porque, embora possa ser forçada a carregar seu nome e dividir sua cama, minha identidade ainda me pertence. Quando o chuveiro desliga, visto a camisola preta com um orgulho silencioso. Ergo o queixo. Não sou Letícia. Nunca serei. E está na hora de Marco Mancini entender isso.
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