Marco
Observo Rebecca analisar meu escritório com olhos de artista, seu olhar demorando-se nos detalhes que a maioria das pessoas sequer percebe. O sol do fim da tarde, que entra pelas janelas à prova de balas, reflete a luz em seus cabelos, transformando o castanho comum em cobre polido. Ela se move como um sonho pelos móveis que selecionei cuidadosamente.
O espaço, com painéis de nogueira escura e livros encadernados em couro, parece ser absorvido por ela sem que toque em nada, mas vendo tudo com uma atenção quase reverente.
Quando ela para diante da pintura sobre a lareira, sinto o peito apertar. Adquiri — A Tempestade no Mar da Galileia — por meios ilegais, embora sua procedência oficial seja impecável. A pintura foi roubada do Museu Gardner décadas atrás, e foram necessários recursos consideráveis para recuperá-la.
Valeu cada centavo só para ver seus olhos se iluminarem agora, para notar como seus dedos se contraem, como se quisesse tocar a tela.
— É lindo — sussurra, e por um instante esqueço que ela é filha de Alessandro, esqueço que m*l tem vinte e dois anos, esqueço tudo, menos como a luz do sol ama seu rosto.
— A maneira como ele capturou a luz rompendo as nuvens de tempestade...
Faço uma anotação mental para pedir a Daniel que pesquise os artistas favoritos dela. Vou encher essa casa de obras-primas se isso ajudar a suavizar sua transição, se isso fizer com que esta gaiola pareça um pouco mais com um lar.
Ela ainda usa jeans manchados de tinta e um suéter solto, que escorrega de um ombro, revelando uma pequena tatuagem que eu não sabia que existia até o outro dia. É delicada — uma rosa dos ventos, com um pincel de artista substituindo a agulha. A vontade de traçá-la com a língua é tão intensa que preciso cerrar os punhos.
Ela parece completamente deslocada em meio ao luxo do velho mundo, mas, de alguma forma, pertence mais aqui do que qualquer uma das mulheres refinadas da alta sociedade que tentaram reivindicar esse espaço.
Deus sabe que elas tentaram. Depois de Letícia , parecia que todas as famílias com uma filha elegível precisavam repentinamente dos meus — conselhos. Elas chegavam com vestidos de grife e perfumes caros, aquelas bonecas cuidadosamente confeccionadas com seus sorrisos ensaiados e movimentos calculados. Algumas eram sutis, outras óbvias, todas ambiciosas. Eu as mandava embora com graus variados de polidez, dependendo da persistência delas.
Mas Rebecca... ela é diferente. Real, de um jeito que eles nunca foram, com unhas pintadas e a criatividade brilhando nos olhos. Ela não tenta ser nada além do que é, e isso a torna mais perigosa do que todas as candidatas da mais alta sociedade juntas.
— Uma bebida? — ofereço, dirigindo-me ao carrinho do bar antes de fazer algo e******o como beijar aquela tatuagem.
— Eu não... — ela se interrompe, endireitando os ombros delicados. — Na verdade, sim. Faça forte.
Sirvo dois dedos de uísque para cada um de nós, notando como suas mãos tremem levemente ao pegar o copo de cristal. Ela escolhe a poltrona de couro mais distante da minha mesa, acomodando-se como se tentasse se encolher. A tinta mancha sua bochecha — verde dessa vez — e meus dedos coçam para limpá-la.
Controle. Preciso manter o controle. Mas ela torna isso quase impossível, sentada na minha cadeira como uma criatura selvagem trazida acidentalmente para dentro de casa. Tudo nela desperta algo primitivo em mim — algo que quer reivindicar, possuir, marcar. O mesmo algo contra o qual tenho lutado desde que ela fez dezoito anos e deixou de ser a garotinha do Alessandro na minha mente.
— Sua filha me odeia — diz ela finalmente, olhando para a bebida. O cristal reflete a luz, projetando sombras âmbar em seu pescoço. Eu me forço a desviar o olhar.
— Luíza odeia todo mundo. — Acomodo-me atrás da minha mesa, precisando da barreira entre nós. A extensão de mogno parece minha última linha de defesa contra a vontade de tocá-la. — Ela tem sido... difícil desde que a mãe morreu.
— Morreu? — Seus olhos se fixam nos meus, e, meu Deus, aqueles olhos poderiam colocar impérios de joelhos. Castanhos, com manchas douradas, olhos de artista que enxergam demais.
— Ou sofreu um acidente infeliz?
O ar no quarto pesa por um instante, e uma tensão quase palpável se instala entre nós.
A amargura em sua voz é profunda. Aperto meu copo com mais força enquanto memórias vêm à tona — memórias que passei uma década tentando enterrar.
— Letícia foi assassinada — digo, secamente. — Dez anos atrás. A família Greco a mandou de volta em pedaços.
Mentira. Mas Rebecca não precisa saber disso.
A cor desaparece do rosto de Rebecca. Ela sempre foi pálida, mesmo com seus tons oliva, mas agora está quase translúcida, com a mancha verde de tinta na bochecha se destacando como um hematoma. Ela vira o uísque de uma só vez, quase sem se encolher com a queimadura. Estou impressionada, apesar de tudo — garotas da alta sociedade geralmente tomam seus drinques aos poucos, tentando parecer delicadas. Mas Rebecca bebe como alguém que já foi a festas da faculdade, alguém que sabe lidar com a bebida.
Pensar nela em festas, nos olhares de outros homens sobre ela, faz algo sombrio se revirar em meu estômago.
— Por quê? — ela pergunta, com a voz quase um sussurro.
— Porque eu não venderia território para eles no Brooklyn. — Meus dedos ficam brancos em volta do copo enquanto as lembranças voltam. — Porque eles queriam provar que podiam tomar o que era meu. Porque são uns sádicos desgraçados que… — Interrompo a frase, controlando a raiva que ainda arde depois de uma década.
— E agora eles me querem. — Não é uma pergunta.
— Eles querem me destruir — corrijo, observando-a processar isso. — Você é apenas o método escolhido por eles dessa vez.
Rebecca se levanta abruptamente, andando de um lado para o outro até a janela. O sol bate em seus cabelos, transformando os fios escuros em fogo. Ela é linda — pura graça selvagem e sensualidade inconsciente. A calça jeans manchada de tinta abraça as curvas que seu suéter largo tenta esconder, e aquela maldita tatuagem continua aparecendo, me provocando.
— Meu pai sabia sobre Letícia ? — A pergunta atrai minha atenção de volta para o rosto dela. Na luz fraca, sombras brincam em suas feições, destacando a delicada arquitetura de suas maçãs do rosto e a linha vulnerável de seu pescoço.
— Ele me ajudou a caçar os homens responsáveis.— Eu me levanto, incapaz de permanecer sentado com ela daquele jeito — como uma heroína trágica em uma pintura a óleo, toda beleza e tristeza iluminadas pelo sol.
— Você os matou?
— Sim. — Não adianta mentir para ela agora. Ela vai precisar entender como o nosso mundo realmente é. Como eu realmente sou. — Seu pai me ajudou a rastreá-los. Cada um morreu mais devagar que o anterior.
Ela fica em silêncio por um longo momento, observando os jardins abaixo, onde as equipes de segurança patrulham o perímetro. Seus dedos traçam padrões no vidro — dedos de artista, longos e elegantes, tingidos com várias cores. Imagino aqueles dedos na minha pele e tenho que me virar, servindo-me de mais uma bebida.
— Você vai me contar o que realmente aconteceu com meu pai?
Sento-me, pouso meu copo e observo sua postura rígida. O suéter escorregou novamente, revelando a curva do seu ombro, a borda daquela maldita tatuagem. Controle.
— Tem certeza de que quer saber?
— Não. — Ela se vira para mim, e há lágrimas em seus olhos, mesmo enquanto levanta o queixo em desafio. A combinação de vulnerabilidade e força me atinge como um golpe físico.
— Mas eu preciso.
Aponto para a cadeira mais próxima da minha mesa. Quando ela se senta, sinto um leve aroma dela — jasmim misturado com diluente e algo exclusivamente seu. Isso me dá água na boca. Me obrigo a agarrar os braços da cadeira para não ceder ao turbilhão que ela provoca em mim.
— A família Greco queria se expandir para o território do seu pai no Queens. Ele recusou. Fizeram ameaças. — Meu maxilar se contrai ao lembrar. — Ele achou que conseguiria lidar sozinho. Não queria me envolver porque sabia o que tinham feito com Letícia . Dois dias antes de morrer, ele veio até mim, pediu ajuda. Mas era tarde demais. Eles já estavam infiltrados na equipe de segurança dele.
— O tiro não foi aleatório — ela sussurra, o rosto branco como giz. Os dedos agarram os braços da cadeira com tanta força que quase ouço o couro estalar. Uma lágrima escorre pela sua bochecha, refletindo o último raio de sol como um diamante cortante.
— Não. O próprio motorista o traiu. — Inclino-me para frente, sustentando o olhar dela, lutando contra a vontade de enxugar aquela lágrima. — Descobri tarde demais. Quando cheguei ao local...
— Pare. — Ela se abraça, o gesto protetor me provoca uma vontade voraz de matar alguém. De preferência Nicolai Greco. — Só... pare.
O silêncio entre nós pesa como chumbo, carregado de uma dor muda. Lá fora, a tempestade iminente escurece o céu como tinta derramada, lenta e irrevogável. Em breve, as luzes externas do complexo se acenderão, convertendo os jardins em um campo de segurança iluminado por holofotes. Mas, por enquanto, permanecemos nas sombras crescentes, e eu a observo tentando se recompor.
— O funeral é amanhã — digo finalmente, odiando o quão insuficientes as palavras parecem.
— E nosso casamento, no dia seguinte. — Sua risada não tem humor, soa como vidro quebrado. — Meus professores não vão acreditar na minha desculpa para faltar à semana de crítica.
— Você pode continuar seus estudos — lembro a ela, mesmo que a ideia de deixá-la sair do complexo me congele o sangue. — Isso fazia parte do nosso acordo.
— Nosso acordo. — Ela se levanta, caminhando até a pintura, examinando-a com olhar distante. A última luz do dia ilumina seu perfil, e por um instante, ela parece um dos temas de Vermeer — pura graça silenciosa, paixão contida. — Diga-me, esse acordo inclui a verdade sobre tudo? Ou terei que esperar pelo próximo atentado contra minha vida para descobrir todos os seus segredos?
A pergunta fica entre nós como fumaça espessa. Eu me levanto, atraído por ela como uma mariposa pela chama. Meus pés me levam até ela, perto o suficiente para sentir seu calor, para respirar aquela mistura intoxicante de jasmim, tinta e mulher. Ela fica tensa, mas não recua.
— Há coisas que você não quer saber, Rebecca.
— Beca — ela corrige automaticamente, ainda olhando para a pintura. Seu pulso acelera visivelmente na garganta. — Todos me chamam de Beca, menos você.
— Beca — provo o nome, deixando-o deslizar da minha língua como mel. Observo arrepios no seu ombro exposto, luto contra a vontade de traçá-los com os dedos, com a boca. Ela estremece levemente, seu corpo sutilmente se inclina, transferindo o peso.
— Alguns segredos é melhor deixar enterrados.
Ela se vira de repente, e estamos perto demais. Perto demais. Consigo ver os pontos dourados nos seus olhos castanhos, contar cada cílio, notar como suas pupilas dilatam quando me encara. Seus lábios se abrem levemente, e juro sentir sua respiração na minha pele.
— Esses segredos fizeram meu pai ser morto.
— Esses segredos te mantêm viva. — Minha voz sai rouca sem que eu possa controlar. Tudo nela me desestabiliza — seu cheiro, sua proximidade, o jeito que ela me olha como se tentasse decifrar um enigma. — Confie que o que faço, faço para te proteger.
— Tipo casar comigo? — Há um desafio em seu tom que faz meu estômago arder.
— Sim.
— E dividir a cama com você? — As palavras são quase um sussurro, mas me atingem como um soco.
Meu controle se desfaz. Seguro seu queixo entre o polegar e o indicador, levantando seu rosto. A pele dela é seda sob meus dedos calejados, seu pulso dispara. — Não é sobre proteção — rosno, vendo seus olhos escurecerem. — É sobre garantir que todos os homens de Nova York saibam que você é minha.
Sua respiração trava, as pupilas se dilatam até restar um fino anel castanho. Por um instante, o ar entre nós crepita com possibilidades. Eu poderia diminuir essa distância, provar seus lábios entreabertos, descobrir se ela é tão suave quanto parece. Minha mão livre desliza até o quadril dela, que treme sob meu toque.
Mas então ela se afasta, criando distância. A perda do calor dela dói fisicamente.
— Eu não sou sua — ela diz baixinho, a voz trêmula. — E não sou sua falecida esposa. Não serei substituta da Letícia, nem peão na sua guerra com os Greco.
— Não — concordo, deixando a mão cair. O fantasma da pele dela permanece nos meus dedos. — Você é algo muito mais perigoso.
Antes que ela pergunte o que quero dizer — antes que eu faça algo imperdoável como puxá-la para perto — uma batida na porta nos interrompe. Daniel entra, com uma expressão sombria que me faz gelar na hora.
— Chefe, temos um problema. Nicolai Greco deixou uma mensagem... no apartamento da Srta. Maranzano.
Meu sangue congela, o desejo substituído por raiva instantânea. — Que tipo de mensagem?
— As paredes... pintaram-nas de vermelho — a voz de Daniel é contida, quase cuidadosa. Ele olha para Beca e depois para mim. — Deixaram isso.
Ele me entrega um envelope. Eu o agarro, já sabendo que vou odiar o conteúdo. r***o o papel e, de repente, revivo meu passado, tudo que tentei esquecer, tudo que tentei proteger em Beca.
Letícia no dia do nosso casamento, radiante em renda marfim e esmeraldas Mancini. Seus cabelos presos no alto, olhos azuis brilhantes de amor e esperança. Ela era delicada, uma borboleta em meu mundo de violência. Foi por isso que a escolheram, e por isso a destruíram. Porque sabiam que isso me destruiria também.
Escrito em vermelho na foto: A história se repete.
A fotografia se amassa em minhas mãos. Tenho vaga consciência de Beca se aproximando, seu suspiro abrupto ao ver a imagem. Mas só consigo focar na raiva que cresce no peito, na vontade de destruir alguém — Nicolai Greco, se possível.
— É ela? — a voz de Beca é suave. — Letícia ?
Obrigo meus dedos a relaxar, alisando a foto. — Sim. No dia do nosso casamento. Ela usava as esmeraldas da minha avó.
Z táAs mesmas esmeraldas no meu cofre, esperando outra noiva. Outra vítima.
— Ela era linda. — Há algo no tom de Beca que não sei decifrar. Quando olho para ela, ela observa a fotografia, absorvendo cada detalhe. — Ela parece... feliz.
— Ela foi. Por um tempo.
Até que meu mundo a destruiu. Como se pudesse destruir a mulher que está aqui agora, manchada de tinta, feroz e tão jovem.
— Chefe — Daniel interrompe gentilmente. — Tem mais. A tinta que usaram nas paredes... combina com o estilo da Srta. Maranzano. Eles estão observando o ateliê dela, estudando o trabalho dela.
Beca solta um pequeno som, como se fosse golpeada no estômago. Instintivamente, estendo a mão, mas ela recua. Seus olhos estão arregalados, o suéter escorregando do ombro como um convite que não posso aceitar.
— Preciso fazer umas ligações — digo, tentando controlar a voz. — Daniel, leve a Srta. Maranzano até Maria. Ela vai ajudar a se instalar.
— Marco. — A voz dela me para no meio do caminho. É a primeira vez que usa meu primeiro nome, soa quase pecado em seus lábios. — O que você não está me contando? Sobre Letícia , sobre o que eles realmente querem?
Olho para ela, para essa mulher que me faz sentir o que não tenho direito. Que está no meu escritório, tinta no cabelo e olhar desafiador, exigindo verdades que não posso dar.
— Descanse, Beca. Amanhã enterramos seu pai. Depois, você será minha esposa. — Minha voz suaviza um pouco. — Alguns fantasmas são melhores deixados em paz.
Ela sai com Daniel, mas seu aroma permanece — jasmim, terebintina e algo só dela. Viro mais um uísque, olhando para a foto ainda em minha mão. Letícia sorri, para sempre congelada naquele instante de felicidade antes do inferno.
— Vou me sair melhor dessa vez — prometo ao fantasma dela, embora saibamos que é mentira. Porque Beca não é Letícia — ela é mais forte, mais feroz, mais viva. Isso a torna infinitamente mais perigosa.
À família Greco. Ao meu controle. Ao meu coração.
A tempestade que ameaçou a manhã finalmente se dissipa. A chuva açoita o vidro à prova de balas. Em algum lugar da cidade, Nicolai Greco planeja seu próximo passo. Em algum lugar da casa, Beca talvez planeje sua fuga. E aqui estou eu, preso entre dever e desejo, proteção e posse, o fantasma do passado e a mulher que ameaça ser meu futuro.
Que Deus nos ajude.