Já haviam se passado três anos desde que Jack começou a trabalhar ali, praticamente toda a equipe havia mudado, mantendo apenas Édi e ele, a saudade de Elizabeth continuava lá, mas ele havia se acostumado, Jimi havia sido como um pai, o ensinando coisas como dirigir, aconselhando, protegendo, enquanto sua esposa era como uma mãe para o menino, Jack também havia crescido muito, ele estava mais velho, a barba havia terminado de fechar, inclusive estava por fazer, também havia ficado mais forte, seu queixo havia ficado quadrado, o cabelo crescido um pouco, agora o sobretudo já fica certo em seu corpo, também havia ganhado seu primeiro chapéu, afinal um vaqueiro precisa de um, era feito de couro preto, com abas viradas para cima, não era muito grande, em sua base uma corda couro trançado, Scotch também havia crescido, chegando ao seu tamanho adulto, sua pelagem manteve as mesma cores, apenas crescendo. Ao acordar naquela manhã fria Jack notou que o havia acordado na verdade era uma batida contínua na porta, ao abrir lá estava Jimi, que parecia não envelhecer.
-Oi Jack, nós conseguimos.
-Como assim, conseguimos o que?
-Você não existe mais, o seu caso ainda estava em aberto, então paguei para darem você como morto.
-Então eu não tenho mais problemas pra andar por aí?
-Não, inclusive eu preciso que você vá até a cidade, para pegar um carregamento de ração pra vacas.
-Certo, já tô indo. -Falou animado por finalmente pode sair dar uma volta.
-Aqui o dinheiro.
Jack pegou os dois mil dólares, seu chapéu e chamou Scotch que veio correndo ao seu encontro, o homem embarcou em uma das caminhonetes disponíveis, todas eram Dodge RAM pretas, a única coisa que realmente mudava de uma para a outra é que a de Jack ele cuidava. Após alguns minutos Jack já estava chegando a cidade, era a primeira vez que voltava lá em três anos, era como se tudo tivesse recém acontecido, mas então sentiu uma lambida em sua mão que estava na marcha, o que lhe tirou daquele transe, mas o que mais o animava é que agora poderia reencontrar Liz, também sabia que ainda tinham parentes de seu pai na cidade, o que podia ser um problema, após algum tempo procurando achou a única loja grande de produtos agropecuários da cidade, então parou o veículo no estacionamento e entrou, em torno de vinte minutos já estava do lado de fora, esperando o atendente trazer os sacos, quando viu alguém o encarando, ele não sabia bem quem era aquele, mas sabia que ninguém podia estragar a “morte” dele, Jack tentou aproximar-se do homem, que ao ver-lo indo em sua direção tentou correr, os dois também correram atrás do desconhecido, que não demorou muito para ser encurralado ao entrar em um beco.
-Eu te conheço? Vi você me encarando.
-Não, mas eu te conheço, você é o menino que sumiu, o principal suspeito da morte de Maxuel.
-Não, você deve está enganado, essa é a primeira vez que venho a cidade.
-N-não, é você sim.
-Merda, não me faz fazer isso.
-Você vai me matar também?
-Se você prometer não falar nada, aí eu não vou.
-Você sabe o valor da sua cabeça?
Jack sem falar mais uma única palavra, apenas desferiu um soco no queixo do homem, não foi difícil o derrubar, ele era magro, não muito alto, nem forte.
-Você não viu ninguém, caso você pense o contrário, lembra que eu posso voltar..
Falou dando um chute no rosto do homem que desmaiou, os dois voltaram até o estacionamento, onde um jovem magro, estatura mediana, relativamente fraco, vestindo uma camisa polo verde com o emblema no peito escrito agrofest, além da calça cáqui os esperava, era o atendente que havia falado com Jack no interior da loja momentos antes, junto a ele estava um carrinho cheio de sacos.
-Perdão a demora, estava resolvendo um problema.
-Tudo bem, só me ajuda a colocar no carro isso aqui por favor.
-Claro.
Em poucos minutos já haviam carregado a caçamba da camionete com os quinze sacos de ração, os dois entraram na camionete e partiram, Scotch parecia feliz em estar andando de carro, ele amava, nas primeiras vezes até passou m*l, mas depois se acostumou e agora não podia ver a oportunidade que já pulava para dentro do carro. Jack sabia que agora não podia ir ver Liz, pois ainda era horário de trabalho, então simplesmente dirigiu para a fazenda, quando chegou descarregou tudo no depósito, enquanto terminava de tirar tudo do carro viu um sedã preto chegando, Jack não fazia ideia de quem era, nem que carro era aquele, então correu para a casa principal junto com Scotch, quando conseguiu alcançar o carro que já estava em frente a casa, um homem alto, barba feita, cabelo loiro com um topete, cara de arrogante, vestia um terno preto desceu do carro.
-Quem é você é o que quer aqui?
-Calma Jack, esse é o meu irmão, aquele que te falei.
-Oi Jimi, dá pra mandar seu peão sair daqui?
-Na verdade não, dependendo ele já vai te escoltar para fora da fazenda de volta.
-Você sabe que esse lugar é tão meu quanto seu, você não pode me expulsar.
-Na verdade posso, o pai colocou no meu nome no testamento, porque sabia que você venderia assim que pudesse.
-A qual é, esse é o velho John, agora eu só quero fazer parte desse lugar, posso entrar?
-Pode, Jack pode ir, hoje é dia de manejar o gado pro pasto doze, depois avisa o Édi que quero falar com vocês dois.
-Certo, já tô indo.
-Conseguiu um bom bichinho aí eu em!
Jack ignorou a provocação e apenas desceu para os estábulos, onde seu cavalo o esperava, pegou uma das escovas e começou a limpar um pouco o animal.
-Sabe Comanche, eu tô com medo dele pegar você de volta, se ele for ficar por aqui, afinal você ainda pertence a ele.
Após terminar a escovação Jack montou no animal e partiu para o pasto, onde com a ajuda dê Scotch tocou o gado, enquanto o vaqueiro acompanhava gritando com os animais, o cachorro assustava os que tentavam sair da formação, depois de quase uma hora até o pasto doze, Jack finalmente havia terminado esse trabalho, então montado em seu cavalo voltou para os estábulos, onde avisou Édi que mais tarde o chefe queria falar com eles, algumas horas após isso uma batida na porta do alojamento pode ser ouvida, ao abrir a porta era Jimi.
-Oi, queria falar com vocês.
-Sim, entra. -Respondeu Jack
-Aquele é meu irmão, o dono do seu cavalo, o problema é que ele não gosta muito desse lugar e acredita que parte pertença a ele, nosso pai deixou tudo pra mim, mas ele é bem insistente, pra piorar eu tenho que ir a um leilão de gado amanhã, se vocês puderem ficar de olho nele, Jack também cuida da Aurora.
-Certo, pode deixar.
-Não precisa se preocupar, vou cuidar… Chefe hoje a noite, posso pegar a camionete, quero ir atrás da Liz.
-É claro, não precisava nem pedir, aquelas ali estão sempre a disposição.
-Certo, obrigado.
Naquela noite Jack arrumou-se, colocou uma camisa social preta, uma calça jeans usada poucas vezes, limpou seu chapéu, passou perfume e vestiu seu velho sobretudo, pegou sua bolsa, que ele mesmo havia feito com couro, arrumou um mapa, para garantir que não erraria o lugar, seu celular, no coldre na cintura seu revólver, então chamou Scotch para ir, quando estava chegando na camionete viu o irmão de Jimi vindo em sua direção.
-Não! -Gritou o homem de longe.
-Não o que? Tá doido?
-Você não vai pegar a camionete, depois você bate e quem tem que consertar somos nós.
-A não enche meu saco! Antes de eu receber qualquer ordem de um borra botas de gravata, tenho que ao menos saber seu nome.
-Meu nome é John!
Gritou enquanto agarrava Jack pela gola do casaco, o vaqueiro já impaciente olhando nos olhos de seu agressor desferiu uma joelhada em seu saco, o que fez com que fosse solto, enquanto seu oponente se curvava com a dor, Jack então deu um soco de cima para baixo que pegou na orelha de John o derrubando desmaiado.
-O meu é Jack, seu bosta. -Falou logo após cuspindo no homem. -Vamos Scotch.
Os dois partiram dali, assim como antes não demorou muito chegar na cidade, o homem dirigia como se nunca tivesse saído dali, lembrava de cada canto, cada rua, antes de ir para a casa da garota, parou em frente a uma floricultura, um lugar simples, colunas de madeira e vidraças formavam a frente do lugar, ao entrar seu interior era como o esperado, diversas estantes com flores, a luz amarelada trazia um tom aconchegante, Jack pegou um buquê de rosas e foi em direção ao caixa, onde uma senhora com descendência asiática o encarava.
-Olá, tudo bem? Vou levar esse.
-É uma boa escolha rapaz, sua namorada deve ser muito feliz, também queria ter recebido mais flores quando era nova.
-Obrigado, ainda ha tempo, só achar a pessoa certa.
-Tem razão, vai ficar quinze dólares.
-Certo. -Falou Jack entregando vinte. -Pode ficar com o troco.
-Obrigada, boa sorte jovem.
-Obrigado, igualmente
Ele pegou as flores e voltou para o veículo, onde Scotch o esperava, então enfim partiram para a casa de Liz, não demorou muito para chegarem em frente a uma casa de madeira pintada na cor branca, lá dentro as luzes estavam ligadas, Jack arrumou sua gola que havia sido bagunçada antes, chamou Scotch e os dois desceram, ao tocar a campainha ouviu alguma comoção do lado de dentro, até que derrepente a porta se abriu, era o pai da menina na porta.
-O que você tá fazendo aqui? Já não fez nossa filha sofrer o suficiente?
-Eu sei que fiz, mas também fiz uma promessa a ela.
-Bom ela não está. -Assim que terminou de falar isso foi possível ouvir uma voz doce feminina ao fundo.
-Quem é que tá na porta pai?
-Senhor eu só quero vê-la, deixe ela decidir se pode falar comigo ou não, por favor, você não faz ideia do porquê eu fugi.
-Não faço mesmo, ainda quero essa explicação.
Um silêncio constrangedor se seguiu nos instantes seguintes, até que foi quebrado novamente.
-Elizabeth! É pra você.
O grande homem que m*l tinha envelhecido fechou a porta, que pouco tempo depois se abriu, Liz estava com o cabelo ainda maior do que da última vez, vestia uma calça de pijama xadrez vermelha e um moletom cinza escrito Love and War.
-Putta merda, achei que você nunca iria voltar pra cá, você demorou tanto!
Ela falou enquanto começava a chorar, Jack por sua vez subiu as escadas e abraçou-a, enquanto fazia carinho em sua nuca.
-Me desculpa, demorou mais do que eu esperava.
-Por que? Por que demorou tanto?
-Porque se eu voltasse antes seria pior, eu ia ficar preso talvez o resto da minha vida.
-Eu achei que você não ia mais voltar.
-Mas eu voltei!
-Agora é tarde.
-Como assim.
-Ela tá comigo idiiota. -Jack ouviu vindo de trás, ao virar-se viu um jovem alto e forte, cabelos loiros com um topete, estava vestindo uma camisa preta por baixo de uma jaqueta de futebol americano, calça jeans apertada e um Jordans.
-Sério? -Jack falou, soltando-a.
-Por favor não vai, eu quero conversar.
-Conversar sobre o que, Elizabeth? Sobre o fato de eu ter esperado todos esses anos pra voltar pra você? De eu ter sido fiel todo esse tempo? De me esconder em uma fazenda por anos, para polícia não me achar, porque se me achassem eu nunca mais ia te ver? Quer saber eu também devia ter imaginado, nunca pude confiar em ninguém mesmo!
-Isso, vai embora seu frouxo! -Gritou o garoto no pé da escada.
Jack furioso foi em direção a ele, que ao ver o homen, entrou em pânico, tentando caminhar para trás, mas acabou por cair do meio fio.
-Depois eu sou o frouxo ainda. -Falou entrando na camionete junto com seu cachorro.
Quando o menino estava se levantando o vaqueiro deu uma pequena acelerada com a camionete, o que fez com que ele se assustasse caindo para trás de novo.
-Sai da rua seu merda, se não eu te atropelo!
Então saiu acelerando para longe, enquanto ia pra casa lembrava-se dos bons momentos que havia vivido com liz e como aquele imbbecil estragou tudo, quando chegou em casa foi direto ao estábulo, onde seu cavalo o esperava, mas quando chegou o animal já não estava mais lá, furioso foi até a casa principal, onde John esperava sentado na varanda, era uma casa enorme feita com toras de madeira.
-Que foi? Porque tá nervosinho?
-Cala a p0rra da boca! Jimi!
-Não é com ele que você quer falar, o cavalo não está mais no estábulo, porque eu o vendi, assim que você saiu, eu liguei pra um conhecido buscar.
Jack, furioso, puxou seu revólver, antes que John pudesse reagir, o vaqueiro havia o levantado da cadeira pela gola com uma mão, enquanto com a outra encostava a arma em seu queixo.
-Calma! Calma! Calma!
-Eu não pretendo me acalmar, mas acho que você pretende parar com qualquer merda que estava fazendo.
-Ou o que? Vai me matar?
-Não duvide, eu não levo nem um segundo pra acabar com você.
Ao falar isso, Jack virou com o homem, jogando-o por cima da cerca da varanda no gramado do outro lado, então foi até ele, onde encostou o revólver em sua testa, quando ouviu um grito vindo da entrada da casa.
-Calma Jack! não faz isso, pelo menos ainda não.
-Ele vendeu o Comanche, mas que merda, quem ele pensa que é pra vender o meu cavalo?
-Calma filho, o cavalo era dele lembra? ele só fez isso pra te atingir, se você deixar isso te abalar, quem ganha é ele, eu vou te dar um novo, amanhã vamos ir atrás disso, beleza? Eu sei que você era apegado no Comanche, mas a gente não pode fazer nada.
-Certo, eu vou pra cama, obrigado.
-Eu que agradeço, eu não tinha motivo mas queria, você tinha motivo e queria, tá ótimo. Jimi falou dando um sorriso.
Jack após tomar um banho foi para a cama, seu quarto não havia mudado nada desde que chegou, talvez isso mudasse logo, ele vinha pensando em fazer uma cabana, enquanto pensava nisso começou a ficar sonolento, em três anos essa foi a única vez que não olhou a foto de Elizabeth antes de dormir.