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Isadora narrando
Quando fecho os olhos ainda sinto o cheiro do Rio. É estranho, porque já faz dez anos que eu não piso lá. Mas algumas lembranças parecem tatuadas na alma, difíceis de apagar. Eu lembro bem da época em que eu ainda era criança, correndo pelas vielas do morro sem medo, sem pensar em nada além das bonecas de pano que eu carregava nos braços.
Mas o que mais me marcou foi ele. O meu padrasto da vez, o homem que todo mundo chamava de Magnata. Engraçado que até hoje eu não consigo lembrar o nome verdadeiro dele, só sei que ninguém se referia de outro jeito. Magnata pra cá, Magnata pra lá. Só minha mãe que o chamava de amor. Essa palavra, na boca dela, sempre me soava estranha. Amor, pra minha mãe, nunca foi definitivo. Ela terminava um relacionamento e, poucos dias depois, já estava em outro. E aquele outro virava o novo amor.
Eu, criança, achava bonito ouvir ela suspirando, dizendo amor no telefone, rindo alto na sala. Mas hoje, olhando de longe, entendo que era só mais um ciclo sem fim. O Magnata, no entanto, foi diferente. Pelo menos pra mim. Ele me tratava bem, sempre chegava com presentes, brinquedos novos, roupas que eu nunca teria se dependesse só da minha mãe. Na casa dele tinha sempre muita gente, e eu me sentia no meio de uma família de verdade. A mãe dele, principalmente. Aquela senhora me acolhia como se eu fosse a neta que ela nunca teve. Diferente da minha avó de sangue, que nunca me tratou com tanto carinho. Eu adorava ficar lá, ouvindo histórias, ganhando colo, comendo bolo quente saído do forno.
Foi por isso que quando a minha mãe disse que nós não íamos mais para o morro, eu chorei escondido. Eu era só uma menina, mas sentia que estava perdendo algo importante. A vida ao lado do Magnata me dava uma sensação de estabilidade, mesmo que todo mundo soubesse que estabilidade e morro não combinam.
O tempo passou. Cresci, amadureci e Portugal se tornou minha realidade. Dez anos longe do Brasil, dez anos vivendo outra vida. Eu estudei, fiz amizades, aprendi a falar diferente, mas nunca deixei de ser a menina do Rio por dentro. Só que tudo desmoronou quando eu completei dezessete anos.
Minha mãe morreu.
Até hoje, quando digo essas duas palavras, meu peito aperta. Ela morreu em um acidente de carro junto com meu padrasto da vez. Já foram tantos que eu perdi a conta, cada um carregando o título de "amor" que ela espalhava com facilidade. Só que esse último, pelo menos, levou ela junto. E me deixou sozinha.
Eu me lembro do dia como se fosse ontem. Eu estava em casa, era um domingo de tarde quando recebi a ligação. Minha amiga atendeu primeiro porque eu estava no banho, e quando sai ela me olhou com os olhos marejados. Não precisou dizer nada. Eu já sabia.
No enterro, foi como se um pedaço de mim tivesse sido enterrado junto. A mãe de uma amiga que eu considero como segunda mãe me ajudou em tudo. Foi ela que acionou o seguro de vida da minha mãe, que me levou ao cartório, que cuidou da papelada. Se dependesse de mim, eu teria desmoronado por completo. Mas ela me segurou firme, e eu agradeço a Deus por ter colocado essa família no meu caminho.
O pior, sem dúvida, foi a despedida. Ver o caixão descendo lentamente enquanto a chuva fina molhava meu cabelo foi como levar facadas no coração. Eu não chorava alto, eu soluçava baixinho, como se cada soluço arrancasse um pedaço da minha alma.
Isadora: Mãe… por que você tinha que me deixar?
Ninguém respondeu. Ninguém poderia responder.
Agora, meses depois, completei dezoito anos, estou de malas prontas. Decidi voltar para o Brasil. Portugal nunca foi realmente meu lar, apesar de tudo que vivi aqui. Eu sei que minha vida está no Rio, e é lá que vou recomeçar.
Enquanto arrumo as malas, lembro das conversas com minhas amigas.
Thais: Você tem certeza que quer ir embora? Aqui você tem gente que se importa contigo.
Isadora: Eu sei, Thai. Mas não dá mais. Eu sinto que preciso voltar. É como se algo estivesse me chamando de volta.
Sofia: E se não for fácil?
Isadora: Nunca foi fácil. Nem aqui, nem lá. Mas pelo menos no Rio eu vou estar perto das minhas raízes.
Elas me abraçaram, choraram comigo, mas no fundo entenderam. Porque, apesar de toda a dor, eu sempre falava do Rio com brilho nos olhos.
Na noite anterior à viagem, fiquei olhando pela janela do meu quarto em Lisboa. As luzes da cidade refletiam no Tejo, e eu me despedi em silêncio. Aquele lugar tinha me dado muito, mas também tinha me tirado a coisa mais preciosa que eu tinha: minha mãe.
Fecho a mala com força e respiro fundo. Está decidido.
No aeroporto, o coração bate forte. Cada passo é um misto de medo e esperança. Medo do que vou encontrar. Esperança de que, de alguma forma, eu consiga me reconstruir.
Durante o voo, tento dormir, mas a mente não para. Fico lembrando de quando corria pelo morro, da risada do Magnata, do jeito doce que a mãe dele me tratava. Penso em como seria se minha mãe ainda estivesse viva. Será que ela estaria me chamando de maluca por querer voltar? Ou será que me apoiaria?
Chegiei ao Rio de manhã cedo. O calor me abraça de um jeito que Portugal nunca conseguiu. O cheiro de maresia, o barulho distante das buzinas, a mistura de vozes. É caótico, mas é meu.
Isadora: Voltei, Rio. Agora é eu e você.
Não sei exatamente por onde começar. Não tenho família esperando, não tenho casa para voltar. Mas tenho a mim mesma. E, pela primeira vez, isso vai ter que bastar.
Enquanto pego um táxi, olho pela janela e sinto uma lágrima escorrer. Não é tristeza, é uma sensação estranha de recomeço. Como se cada rua, cada esquina, cada morro me dissesse: "Você voltou, menina. Agora mostra quem você é."
E é isso que vou fazer.