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1051 Palavras
Magnata narrando Eu sou o Magno, mas pode esquecer esse nome, porque ninguém me chama assim. Aqui no Alemão todo mundo me conhece como Magnata. Quarenta e cinco anos de idade, cara vivido, respeitado e temido. Frio, cru.el e impiedoso, é isso que falam de mim, e quer saber? Não tão mentindo, não. Pra segurar esse lugar, pra ser o braço direito do Betão, chefe maior do comando, não dá pra ser mole, não. Só que até os mais f0dão tem ponto fraco. O meu? Mulher. Já vi, já provei, já vivi de tudo. Da favela ao asfalto, já passaram várias pela minha vida. Mas nenhuma ficou. Nenhuma marcou como eu queria. Sabe quando tu tá na pista, cheio de poder, dinheiro, respeito, e mesmo assim sente aquele vazio? É isso. Eu, Magnata, já fiz de tudo, mas ainda não encontrei aquela que vai virar minha cabeça. Não é porque eu sou putã0 que não queira viver essa parada aí. Paixão, amor, sei lá. Betão mesmo já me zoou disso. Betão: E aí, Magnata, até hoje nenhuma te domou, né? Magnata: Domar a mim? Tá maluco, chefe. Mas que eu queria sentir essa fita, eu queria, não vou mentir, não. Betão: Tu é vacilão, fica só de olho, pegando as mina e largando. Magnata: Pior que não é assim, não. Eu só não achei a certa, saca? E é verdade. Eu olho pro Morte, pro Betão, esses caras se derretem todo pelas mina. Ficam de quatro mesmo. Eu rio, mas por dentro penso: “Quando vai ser minha vez?” Agora, deixa eu te contar como eu virei o rei desse lugar. Antes de eu assumir, quem mandava aqui no Alemão era um verme. Alma sebosa, sem respeito nenhum. O cara usava do poder só pra abusar das mina. Qualquer novinha que aparecia, ele queria ser o primeiro a tirar a pureza. Era nojento. Eu via famílias abandonando suas casas, largando tudo, só pra proteger as filha. O morro inteiro vivia com medo não era da polícia, não. Era dele. E eu, que sempre fui da rua, sempre no corre, já não aguentava mais ver aquela humilhação. Não sou santo, nunca fui, mas tem parada que até o mais bandido tem limite. Então eu decidi. Dei um basta. Cheguei com meus homens, botei pressão, cerquei ele de todos os lados. O bagulho foi feio. O morro inteiro ouviu os tiros naquela noite. Quem viu diz que parecia guerra. Mas eu sabia que era a hora. Ou eu caía, ou ele caía. No fim, ele caiu. E caiu feio. Não teve piedade, não. O Alemão viu que quem manda aqui agora é o Magnata. Depois que eu derrubei ele, botei pra girar de verdade. Reorganizei tudo. Boca funcionando no esquema, dinheiro rodando, lei no morro. Aqui ninguém mexe com mina à força, ninguém toca em criança, ninguém falta com respeito. Quem tenta, já sabe: ou cai fora, ou encontra a morte. Eu trouxe ordem. E quando tem ordem, o morro cresce, o povo respeita, e eu vesti a coroa de rei. Hoje eu sou o dono dessa p***a toda. Magnata: Aqui, parceiro, não tem bagunça. Vapor: Tá tranquilo, chefe, tá tudo no esquema. Magnata: Melhor tá mesmo. Porque se eu descobrir vacilo, tu sabe qual é o preço. Não me confunde, não. Eu sou justo, mas sou c***l. Não gosto de falatório, não gosto de enrolação. Vacilou comigo ou com o comando, já era. Betão sempre confiou em mim. Ele sabe que eu não falho. Eu sou o braço direito dele, aquele que vai pra linha de frente quando o bagulho aperta. Morte e Lobão também tão na caminhada, cada um no seu setor, cada um com seu jeito, mas todos alinhado no mesmo bonde. O comando é lei, e aqui lei se cumpre. Às vezes, eu penso no passado. Lembro da primeira vez que peguei numa arma, moleque ainda. Lembro das correrias, das madrugadas sem dormir, do sangue no asfalto. Cada cicatriz que eu carrego no corpo é história de guerra. E foi assim que eu me tornei o Magnata. Não foi sorte, foi luta, foi sangue, foi dor. Mas mesmo depois de tudo isso, o que me incomoda é aquela falta. Eu, que posso ter qualquer mulher, que já tive várias, ainda sinto como se não tivesse vivido de verdade esse lance. Não é amorzinho de novela que eu quero, não. Eu quero aquela que vai me olhar de frente, sem medo, sem se abaixar. Que vai ser minha parceira de verdade, não só pelo dinheiro ou pelo poder. Magnata: Tu acredita em amor, 2T? 2T: Amor? Isso aí é fraqueza, meu irmão. Mulher é bom pra cama, pra companhia, mas não pode ser fraqueza. Magnata: Sei não, mano. Acho que quando chegar a minha hora, eu vou sentir. Mas acho que já passou da hora. 2T: Então se prepara, porque quando tu sentir, pode ser tua queda, e tem isso não Chefia. Essas palavras dele ficaram na minha cabeça. O Garoto tinha razão, mas será que amor derruba mesmo? Ou será que fortalece? Eu ainda não sei. Enquanto isso, eu sigo no meu trono. No Alemão, cada esquina tem meu nome. Cada boca gira porque eu deixo girar. Cada vida que se levanta ou cai, eu tô no meio. E quem tenta peitar, já sabe que não volta. Magnata: Esse morro é meu. Eu derrubei um verme pra erguer essa coroa. E ninguém vai tirar de mim. Quando eu ando pelas vielas, sinto o respeito. Criança acena, mãe agradece porque hoje pode dormir sem medo daquele monstro que mandava antes. E eu, que sou bandido, sei que pelo menos trouxe paz pra quem merecia. E tem mais: não é só dentro do morro que meu nome pesa. No asfalto também. Empresário, político, policial corrupto, todo mundo sabe quem é o Magnata. Uns vem por medo, outros por interesse. Eu jogo com todos. Mas nunca esqueço de onde vim: a favela é meu castelo, e o povo daqui sabe que eu não deixo faltar nada. Vapor: Chefe, tão dizendo que a polícia vai tentar invadir de novo. Magnata: Deixa eles vir. Aqui não entra sem deixar sangue no chão. Sou frio, sou cru.el, sou impiedoso, sim. Mas sou o Magnata. E enquanto eu estiver de pé, o Alemão tem dono.
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