Isadora narrando
Quando cheguei na casa da minha tia Renata, senti um alívio que não sentia há semanas. Ela sempre foi a mais próxima da gente, sempre foi o número que minha mãe ligava quando Bahia saudade do Brasil, da família. Me recebeu com um abraço apertado, daqueles que quase fazem a gente chorar na hora. Eu precisava daquilo. Precisava sentir que não tava tão sozinha nesse momento.
A família inteira ficou sabendo da morte da minha mãe. Engraçado como a morte muda as coisas. Enquanto minha mãe tava viva, pouca gente ligava, pouca gente batia na porta pra saber se a gente precisava de alguma coisa. Agora que ela se foi, parece que todo mundo lembra que existimos. Só que eu não quero falsidade, não quero lidar com isso agora, estou cansada.
Então, escondi o que realmente aconteceu. A família só sabe que minha mãe trabalhava e que eu também. O dinheiro que eu recebi do seguro de vida, ninguém precisa saber. Eu uso a desculpa da indenização do trabalho dela. Assim é mais fácil. Assim não corro o risco de aparecer primo distante, tio sumido, querendo se aproximar com sorriso falso.
Minha prima Ester foi a primeira a aparecer. Toda elétrica, meio maluca, do jeito que sempre foi. Me puxou pro quarto dela pra mostrar as roupas, as fotos, as fofocas que ela sabia da vizinhança.
Ester: Tu chegou bem na semana certa, prima. Vai rolar um baile lá no Alemão esse final de semana, cê tem que ir comigo.
Isadora: Baile? Nunca fui.
Ester: Pois então, é hora de conhecer. Vai ser bom pra tu, distrair a cabeça.
Ela falava animada, como se não tivesse noção da tempestade que ainda girava dentro de mim. Parte de mim até queria aceitar, queria sentir a batida da música, ver gente, esquecer a dor por algumas horas. Mas outra parte gritava que era cedo demais, que meu luto ainda queimava forte demais.
Mais tarde, sentada na cozinha, minha tia Renata veio puxar assunto. Sempre direta, sempre cuidadosa.
Tia Renata: Tu lembra que tua mãe namorou o Magnata, né?
Isadora: Lembro sim, tia. Todo mundo chamava ele assim, menos ela. Pra ela ele era só, amor.
Tia Renata: Pois é. Ele ainda é o dono do morro, sabia? Continua com aquela postura, no comando. Aqui em Bonsucesso todo mundo ainda fala dele.
Na hora que ela falou, um filme passou na minha cabeça. Eu ainda me lembrava das vezes que minha mãe me levava na casa dele. Da forma como a mãe dele me tratava, como se eu fosse neta, dos presentes que ele me dava, das risadas, da sensação de que eu fazia parte de algo grande.
Isadora: Eu lembro dele, tia. Lembro como ele era bom comigo.
Tia Renata: Bom, mas frio. Não esquece que é bandid0, Isa. Pode ter te tratado bem, mas o mundo dele é perigoso.
As palavras dela ecoaram fundo. Não que eu precisasse ser lembrada, eu sabia muito bem. Mas, no fundo, havia uma nostalgia esquisita dentro de mim. Um pedaço da infância que ainda guardava com certa ternura.
Depois disso, fui pro quarto que tia Renata preparou pra mim. Me joguei na cama e fiquei olhando pro teto. Minha cabeça não parava. Preciso colocar tudo em ordem. Comprar um lugar pra mim, me afastar das amarras da família, investir esse dinheiro de forma inteligente. Viver da renda, talvez. Não depender de ninguém. Minha mãe sempre correu atrás do dela, mas nunca soube escolher quem colocar no coração. Eu não quero repetir os erros dela.
Só que a vida não é tão simples assim. Eu tava de malas prontas, de volta ao Brasil, mas sem saber por onde começar. O Rio que eu deixei há dez anos quando eu era só uma criança, eu tô me reencontrando agora. Eu não sou mais a criança que aceitava as escolhas da mãe. Agora, sou eu que tenho que decidir.
Fechei os olhos e respirei fundo. Tanta coisa se passava na minha cabeça que parecia impossível organizar. O luto ainda me sufocava, mas junto dele vinha a necessidade de seguir. O baile que Ester tanto falava talvez fosse a chance de entender melhor onde eu estava me metendo. Talvez fosse o primeiro passo pra me reconectar com a cidade, com as raízes que ficaram pra trás.
Só sei que naquela noite, deitada na cama da minha tia, senti que minha vida ia mudar de um jeito que eu ainda não conseguia imaginar.
Acordei decidida. Não dava mais pra ficar só pensando no que fazer, precisava agir. Levantei cedo, tomei um banho e fui direto procurar uma imobiliária. Queria um canto só meu, um espaço onde eu pudesse respirar sem depender de ninguém.
Expliquei pro corretor o que eu queria: algo prático, confortável e, se possível, mobiliado. Não quero gastar tempo nem energia montando casa do zero, quero começar a viver logo. Ele me levou primeiro a dois apartamentos. O primeiro era simples demais, meio abafado, não senti firmeza. O segundo já me chamou mais atenção, tinha luz natural, varanda pequena, mas agradável. Eu conseguia me ver ali.
Depois, ele me mostrou uma casa num condomínio. Bonita, espaçosa, parecia coisa de novela. Mas logo percebi que não era pra mim. Grande demais, exigia cuidados, manutenção. Não era o que eu queria nesse momento da vida. Eu precisava de praticidade, não de mais problemas.
Voltei a pensar no segundo apartamento. Era mobiliado, bem organizado, tudo no lugar. Quando entrei pela segunda vez, já imaginei minhas coisas espalhadas, eu cozinhando ali, recebendo minha tia Renata e a Ester pra passar uma tarde. Me deu uma sensação boa, um aconchego. Foi quando percebi: era aquele.
Assinei os papéis do aluguel sem pensar duas vezes. Não queria mais ficar parada, presa na casa da minha tia. Quero estar perto dela, sim, visitar sempre, ter a presença dela e da Ester na minha vida. Mas também preciso cuidar da minha própria história.
Enquanto saía da imobiliária com as chaves na mão, senti um misto de medo e liberdade. Medo de recomeçar do zero, num lugar que é meu mas que ainda é estranho. E liberdade porque, pela primeira vez desde que minha mãe se foi, eu estava tomando uma decisão só minha.
Meu plano é simples: manter o apartamento como meu refúgio, um espaço de paz. Vou trabalhar, investir o dinheiro que tenho, e transformar essa nova fase em algo sólido. Não quero depender de ninguém, não quero repetir os erros da minha mãe. Quero aprender a viver sozinha, mas com o coração aberto pra receber quem realmente importa.
Naquele dia, ao entrar no meu novo lar, olhei em volta e sorri. Era só o começo.