Magnata narrando
Acordei cedo, parceiro. Nem precisava de despertador, meu corpo já sentia a energia do dia. O sol entrando pela janela, o morro acordando devagar, o cheiro do café subindo da cozinha. Já senti aquele calor no peito, sabe? Aquele pressentimento de que o dia ia ser pesado, bonito e intenso ao mesmo tempo. Levantei, passei a mão no rosto e sorri sozinho. Hoje é dia de baile. Hoje a favela vai pulsar, e eu vou estar de camarote, observando, sentindo cada vibração, cada riso, cada batida que sai do coração do morro.
Tomei um banho rápido, vesti roupa leve, mas estilosa, do jeito que o povo gosta de ver.
No almoço, fiquei no papo com os moleque, escutando o que rolava, as fofoca, os planos pro fim de semana. Ria das besteira, mas sempre mantendo o olhar firme. Dono do morro é assim: tá no controle, mas nunca se afasta do povo.
O dia passou rápido. Sol batendo forte, crianças correndo, mulheres rindo, o povo trabalhando, a vida acontecendo. Eu aproveitei pra dar uma passada na boca do morro, verificar o que precisava, garantir que nada atrapalhasse a festa. Tudo organizado, energia boa no ar. A quebrada inteira sentindo que hoje seria especial.
É dia de baile, parceiro. Desde cedo já sinto no peito aquela ansiedade boa, tipo coração batendo mais forte, porque sei que quando o sol se põe, a favela vai pulsar. O morro inteiro vai tremer com o grave, com o riso, com a vida. Eu não sou de ficar só no camarote, de longe, não. Gosto de participar, de sentir o povo de perto. O Magnata que eles respeitam e amam é o mesmo que dança, que canta, que brinda no meio da multidão.
Assim que escureceu, desci a rua com os moleque. O som já batia pesado, parecia fazer o chão respirar. As luzes piscando, barracas de bebida abertas, churrasqueiro virando carne no espeto, o cheiro de carvão misturado com perfume barato no ar. A favela tava viva, vibrando. Criança correndo, os mais velhos ajeitando cadeira, os jovens dominando a pista.
Morador: Salve, Magnata! Hoje vai ser histórico!
Magnata: Confia, irmão. Hoje é nóis.
Caminhei mais um pouco, cada rosto sorridente parecia me abraçar. Esse respeito que sinto não é por medo, é por amor. A quebrada sabe que nunca virei as costas, que sempre tô junto. E quando vejo a galera feliz, eu também fico.
Cheguei perto da boca, os moleque já estavam reunidos. Menor, Juninho e Pivete fumando, rindo, energia boa.
Magnata: E aí, tão no ritmo ou tão com preguiça?
Pivete: Preguiça aqui não existe, patrão. Tamo só aquecendo.
Magnata: Então se prepara que hoje ninguém para!
Eles caíram na risada, e seguimos juntos até o coração da festa.
O paredão explodiu num grave que parecia bater dentro do peito. As mina rebolando, o povo gritando, a galera se abraçando como se o mundo fosse acabar amanhã. A favela inteira vibrando em uníssono. O brilho nos olhos da rapaziada, a gargalhada das meninas, o batuque da palma acompanhando a batida... aquilo ali era mais que um baile, era resistência, era vida.
Uma mina gritou do nada:
Mina: Magnata, tu é rei, dono da quebrada!
Magnata: Rei é vocês, eu só faço a favela Vibrar.
A multidão vibrou, e senti o peito explodir de orgulho.
No meio da pista, vi ela. Uma morena novinha, sorriso tímido, mas o corpo dela rebolando no ritmo da batida era hipnotizante. O cabelo solto balançava, a pele brilhava no reflexo das luzes. Fiquei parado alguns segundos, só observando. Mano, confesso, me deixou doido só de olhar. Aquilo mexeu comigo, mas era novinha demais. Não cheguei junto, não troquei ideia. Só guardei a imagem dela dançando como se o mundo fosse só alegria.
Continuei circulando, porque o baile não para. Uma energia única dominava o lugar. Vi criança dormindo no colo das mães, mesmo com o grave estourando; vi os mais velhos sorrindo como se tivessem voltado no tempo; vi cada olhar carregado de esperança, como se aquela noite fosse uma pausa no sofrimento.
De repente, três playboyzinhos querendo tumultuar. Não admito desrespeito na quebrada. Cheguei firme.
Magnata: Qual foi, parceiro? Aqui é respeito, não é bagunça.
Playboy: A gente só quer curtir, pô.
Magnata: Então curte sem querer pagar de doido. Se não, a rua engole.
Eles baixaram a bola rápido. Não precisei mandar bater, só o papo reto já botou ordem.
Voltei pro meu camarote e mandei subir umas gata, deixei a batida me levar. Dancei com umas mina, bati palma, cantei junto com o DJ. A favela vibrou comigo. Quando levantei as mãos e gritei, a resposta foi um coro de arrepiar.
Magnata: Essa porr@ é nossa! Hoje é dia da favela sorrir!
Multidão: É nóis!
A galera vibrou, e o coração parecia que ia explodir de tanta energia. A noite inteira rolou assim, cheia de riso, dança e sentimento. Cada abraço, cada sorriso, cada olhar era como se o mundo lá fora não existisse. A favela inteira unida, respirando juntos, vivendo o momento.
Mais tarde, já quase amanhecendo, o baile ainda rolava, mas eu dei uma afastada. Sentei e fiquei olhando o morro, iluminado pelas luzes piscando. Sorri sozinho.
Magnata: Valeu a pena cada segundo.
Pivete veio atrás de mim.
Pivete: Patrão, tá feliz?
Magnata: Feliz demais, irmão. Isso aqui é o que eu vivo. Enquanto a favela sorrir, eu vou tá em paz.
Ele deu um tapa no ombro e ficou do meu lado em silêncio. Só a batida ecoando no fundo e o sol começando a nascer.
E é isso, parceiro. Baile não é só música e bebida. É vida, é resistência, é união. Hoje foi histórico. E amanhã, quando o sol subir, a quebrada vai lembrar que viveu uma noite que ninguém vai esquecer.
O baile já ia acabando, parceiro. Do camarote, vi a galera cansada, mas feliz, cada sorriso valendo cada segundo da noite. Desci com calma, cumprimentando quem ainda estava na pista, sentindo a energia da favela ainda pulsando no peito. segui pra casa. Ao chegar, a porta se fechou atrás de mim, o silêncio substituindo o som do grave. Tirei o tênis, joguei a jaqueta pra cima da cadeira e me atirei na cama. Senti o corpo relaxar, o coração ainda acelerado, e um sorriso escapou. Valeu a pena, parceiro. Hoje foi histórico.