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1237 Palavras
Isadora narrando Eu e Ester passamos um tempão no meu apartamento nos arrumando. Eu gosto desse ritual com ela, a gente rindo, mexendo no celular, fofocando e comentando sobre a noite que ainda nem tinha começado. Primeiro vesti uma meia arrastão preta, depois um shortinho jeans mais folgado, meio desfiado, que deixava parte da meia à mostra. Coloquei uma camiseta preta simples, larguinha, mas acabei jogando por cima uma jaqueta preta de couro mais ajustada, que me deu outra postura. Calcei uma bota de cano curto que eu adoro, arrumei meu cabelo meio preso, meio solto, e finalizei com uma gargantilha fina e um par de brincos discretos. Na maquiagem preferi algo mais leve, só pra realçar os olhos e a boca, e no final borrifei meu perfume favorito, aquele que me dá confiança. Quando me olhei no espelho, senti que estava pronta. Ester apareceu da sala já montada no estilo dela. Vestiu um conjuntinho de saia e blusa, mas a saia era tão curta que eu tive que falar. Ela calçou uma papete branca, bem diferente do meu estilo mais pesado, e exagerou na maquiagem: sombra marcada, batom forte, iluminador brilhando no rosto. Quando passou perto de mim, o perfume dela chegou primeiro, chamativo demais, do tipo que anuncia a presença antes mesmo de ela falar. Mas combinava com ela, com essa ousadia natural que sempre teve. Chamamos um carro de aplicativo e o motorista deixou a gente próximo da entrada do Alemão. Daquele ponto em diante não tinha como seguir de carro. Ou a gente subia a pé ou pegava os moto táxi que ficam por ali, controlados pelos caras do morro. Como era noite de baile, muita gente estava chegando, e a fila pro moto táxi era enorme. Ficamos esperando um tempo, observando o movimento, até que finalmente duas motos apareceram. Subimos separadas, cada uma com o seu moto táxi, e o vento da subida bateu no meu rosto, trazendo um frio na barriga que não era só da velocidade. Eu não lembrava quase nada daquele morro. Fazia tanto tempo que eu não pisava ali, mas uma memória sempre me acompanhou: Magnata e a família dele. Eu era criança quando vi ele pela última vez, e agora, anos depois, voltar naquele território carregava uma energia que eu não sabia explicar. Quando a moto parou perto da quadra onde ia rolar o baile, desci devagar, como quem pisa em solo sagrado. Ester veio logo atrás, rindo com o mototaxista que tentou puxar papo. Segurei a mão dela antes de atravessarmos a rua em direção à quadra. O barulho era ensurdecedor: grave batendo forte, vozes misturadas, gente conversando, rindo, gritando. A energia vibrava no ar, cada passo que eu dava parecia me puxar ainda mais pro centro daquele turbilhão. O portão da quadra estava aberto, mas o tumulto pra entrar era intenso. Garotos vendendo cerveja, meninas já descendo até o chão, crianças correndo pelos cantos, gente de todo tipo, todas as idades, todo estilo. Era a favela viva em sua forma mais pulsante. Quando finalmente atravessamos a entrada, senti meu corpo inteiro arrepiar. A batida do funk parecia sincronizar com meu coração. A luz piscava em cores, fumaça subia de alguns cantos, e o cheiro era uma mistura de bebida, cigarro, perfume barato e adrenalina. Apertei a mão de Ester e ela sorriu, já balançando o quadril no ritmo da música, enquanto me puxava mais pra dentro. Eu não conseguia parar de observar. Cada rosto, cada gesto, cada movimento parecia parte de um espetáculo. O DJ no palco comandava a multidão com frases de efeito, e o público respondia em coro. O chão da quadra vibrava sob nossos pés, e eu senti como se estivesse no coração de um mundo que me engolia inteira. E então eu vi ele. O Magnata. No meio da multidão, ainda assim ele parecia brilhar sozinho. Mais alto, mais forte, mais bonito do que qualquer lembrança que eu pudesse ter guardado. O tempo só tinha feito bem pra ele. O porte, a presença, o jeito de estar no centro sem precisar forçar nada. As mulheres em volta olhavam como se quisessem devorá-lo, e eu entendi de imediato por quê. Ele tinha um magnetismo que não se explicava, só se sentia. Meu coração disparou. Era impossível acreditar que aquele homem era o mesmo que eu lembrava de longe, meu ex-padrasto quando pequena. Ele sempre foi o dono de tudo, dono dos olhares, dono do respeito. Eu me peguei dançando sem nem perceber, só pra tentar disfarçar a avalanche de sentimentos que me atravessava. E foi nesse instante que senti. O olhar dele. Não sei se era imaginação minha, mas tive a impressão clara de que Magnata me observava. Entre tantas pessoas, entre tantas mulheres tentando chamar sua atenção, parecia que por segundos ele fixava os olhos em mim. Eu continuei dançando, fingindo naturalidade, mas por dentro estava em chamas. Ester percebeu meu nervosismo. Ester: Prima, o que foi? Tá pálida. Isadora: Nada, só tô sentindo a energia do lugar. Ester: Energia nada, eu vi a direção do seu olhar. Você tá olhando pra aquele homem ali. Tu sabe Quem é? Olhei de novo e ele ainda estava lá, rodeado de gente, mas firme, imponente. Isadora: É o Magnata. Ester: O chefe, isso mesmo. Isadora: Não tô olhando, não. Eu conheço ele desde criança, quer dizer, conhecia. Ester: Será que ele te reconheceu? Engoli em seco. A possibilidade de ele realmente se lembrar de mim parecia absurda, mas aquela sensação não saía do meu corpo. Eu continuei dançando, tentando me perder no ritmo, mas meus olhos insistiam em voltar pra ele. Magnata sorria de vez em quando, conversava com uns caras, mas a cada intervalo seu olhar cruzava o meu. A quadra parecia pequena demais pra tanta gente, mas ainda assim eu me sentia sozinha com ele naquele espaço invisível que só nós dois compartilhávamos. As músicas mudavam, a multidão enlouquecia, e eu ali, lutando contra a lembrança e o presente, contra a menina que eu fui e a mulher que eu sou. Ester, claro, não deixou passar. Ester: Amiga, eu acho que você devia parar de se enganar. Esse homem tá te olhando. Isadora: Não, ele deve estar olhando pra alguém atrás de mim. Olha quanta mulher bonita por aqui. Ester: Pode até ser, mas a forma como você tá se mexendo, parece que tá dançando só pra ele. E talvez estivesse. Eu não queria admitir nem pra mim mesma, mas cada passo, cada movimento, cada balanço de quadril era uma tentativa de não desmoronar sob aquele olhar. Senti um frio subir pela espinha, misturado com calor. Um conflito interno difícil de esconder. Será que ele lembrava de mim? Ou será que eu era só mais uma no meio de tantas? Olhei em volta e percebi o quanto a favela vibrava. Crianças no ombro dos pais, mulheres disputando quem descia mais no chão, garotos apostando quem bebia mais rápido, gente se abraçando, gente discutindo. Tudo acontecia ao mesmo tempo, mas nada disso conseguia competir com a presença dele. Eu sabia que se parasse na frente do Magnata, ele provavelmente não iria se lembrar de mim. Anos tinham passado, rostos novos devem ter surgido na vida dele, e eu era apenas uma lembrança apagada. Mesmo assim, naquele momento, dentro daquela quadra, sob aquelas luzes e aquele som ensurdecedor, eu senti como se tudo fosse possível. Até ele lembrar de mim, a pequena Isa.
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