O barulho da chave na porta sempre vem antes da voz.
Marcos chega no fim da tarde, quase sempre no mesmo horário. O som metálico anuncia que o dia acabou para ele e continua para mim.
— Cheguei.
Lucas responde da sala sem tirar os olhos da televisão.
Mateus pergunta se ele trouxe algo.
Clara corre primeiro.
Ela sempre corre.
Marcos se abaixa, abraça minha filha, passa a mão no cabelo dela. Eu observo da cozinha, mexendo uma panela que já ferveu demais. A comida quase passa do ponto porque ninguém avisa quando o dia muda de turno.
— Oi — ele diz pra mim, como quem marca presença.
— Oi.
Nada está errado.
Mas também nada está inteiro.
Jantamos juntos. Sempre jantamos.
Arroz, feijão, alguma carne simples. Clara fala demais. Os gêmeos discutem por qualquer coisa. Marcos pergunta da escola. Eu respondo metade. A outra metade estou recolhendo copos, pedindo silêncio, levantando da cadeira.
É uma coreografia conhecida.
Às vezes, olho para ele sentado à mesa e tento lembrar quando foi a última vez que ele me olhou sem estar pensando em outra coisa. Trabalho. Conta. Amanhã.
Não lembro.
Depois do jantar, cada um vai para um canto. Marcos senta no sofá. As crianças se espalham. Eu fico em pé, recolhendo restos do dia.
Quando termino, pego a bolsa.
— Vou no mercado rapidinho.
— Tá — ele responde, sem perguntar se preciso de algo.
O supermercado fica a três quadras. Vou a pé. Sempre vou. É o único trajeto que ainda me pertence.
Caminho entre prateleiras como quem passeia sem pressa, mesmo sabendo exatamente o que falta. Leite. Pão. Detergente. Algo para o lanche das crianças.
Vejo outras mulheres. Algumas mais novas. Outras como eu. Carrinhos cheios. Olhares cansados. Ninguém se olha por muito tempo.
No corredor de higiene, um homem passa por mim. Nada demais. Mas o perfume fica. Por um segundo a mais do que deveria.
Meu corpo reage antes do pensamento.
Não acontece nada.
Ele segue.
Eu sigo.
Mas o desejo vem como um susto pequeno, rápido, vergonhoso.
Para com isso, eu penso.
Você tem quarenta anos. Três filhos. Uma casa.
Pago as compras. Volto.
Em casa, Marcos já colocou as crianças para tomar banho. Ajudo Clara a escolher o pijama. Os gêmeos brigam por toalha. A rotina engole qualquer sobra de pensamento.
Quando finalmente a casa silencia, estamos cansados demais para conversar.
Marcos deita. Eu apago as luzes.
Ele se aproxima, me toca com familiaridade. Não é r**m. Mas também não é inteiro. É breve. É suficiente para ele.
Para mim, não.
Eu fico acordada depois. O teto conhecido. O corpo quente. A cabeça cheia.
Penso no dia.
Na louça.
No mercado.
No cheiro que ficou no corredor três.
E odeio pensar nisso.
Porque amo meus filhos.
Porque respeito meu marido.
Porque fiz tudo certo.
Mas alguma coisa em mim continua pedindo atenção. Não escândalo. Não fuga. Só verdade.
Viro de lado. Marcos dorme rápido. Sempre dorme.
Eu fico ali, acordada, pensando como é possível estar cercada de gente o dia inteiro e ainda assim me sentir sozinha em lugares que ninguém vê.
Amanhã tudo recomeça.
Café.
Escola.
Casa.
Jantar.
E eu sigo.
Funcionando.
Calada.
Inteira por fora.
Mas com uma pergunta que começa a ficar difícil de ignorar:
Até quando?