Homens que so existem na minha cabeça

469 Palavras
Eles não têm nome. Nunca tiveram. Não são homens reais, e talvez por isso sejam tão perigosos. Eles existem só onde ninguém pode ver. Só onde eu não preciso explicar nada. Tudo começa nos momentos mais simples. Às vezes estou lavando a louça. A água correndo. O barulho repetitivo dos pratos. A casa quieta demais. Minhas mãos ocupadas, minha mente livre demais. É ali que acontece. Um pensamento entra sem pedir licença. Não é uma imagem completa, é uma sensação. Uma presença. Como se alguém estivesse perto demais. Como se um corpo ocupasse o espaço atrás do meu. Meu coração acelera antes que eu perceba. Meu corpo responde antes que eu autorize. Não vejo rosto. Não vejo detalhes. Só sinto a ideia de uma aproximação firme. De mãos seguras. De alguém que chega sem dúvida, sem pressa, sem pedir desculpa por querer. Isso me consome por segundos. Às vezes por minutos. Eu continuo lavando a louça, mas já não estou ali. Depois acontece no tanque, esfregando roupas, repetindo movimentos que meu corpo conhece bem. O esforço, o ritmo, o silêncio — tudo conspira. É como se minha mente criasse um cenário onde eu não preciso ser mãe, nem esposa, nem responsável. Só mulher. Nessas fantasias, eu não preciso explicar o que quero. Não preciso pedir. Não preciso sentir vergonha. Sou desejada sem justificativa. E isso é o que mais dói. Porque quando o pensamento passa, a culpa vem rápido. Pesada. Treinada. Que tipo de mulher pensa essas coisas? Que tipo de esposa sente isso? Eu me corrijo mentalmente. Peço perdão. Prometo não voltar ali. Promessas que não duram muito. Não é falta de amor pelo meu marido. É falta de espaço para dizer o que vive em mim. Esses homens que invento não são melhores que ele. Não são mais bonitos. Não são mais jovens. Eles apenas me veem. Na minha imaginação, me tocam com atenção, com presença, com intensidade. E eu odeio admitir o quanto isso me afeta. À noite, deitada ao lado de Marcos, sinto vergonha do que pensei durante o dia. Do que meu corpo pediu em silêncio. Do que minha mente criou sem autorização. Viro para o lado. Seguro o desejo. Seguro o choro. Seguro tudo. Aprendi cedo a segurar. Nunca contei isso a ninguém. Nem às amigas. Nem a mim mesma em voz alta. Porque mulheres como eu não falam desse tipo de coisa. A gente sente. E se culpa. Mas o desejo não é indecente. Ele só fica indecente quando não encontra lugar para existir. E o meu não encontra. Então ele aparece assim: entre pratos, roupas molhadas, tarefas comuns. Ele me visita onde ninguém imagina. E vai embora deixando o mesmo rastro de sempre. Vontade. Vergonha. Silêncio. Eu sigo funcionando. Mas por dentro, algo arde quieto demais para ser ignorado para sempre.
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