Dante Narrando
Tem coisa que a gente mata no peito. Outras a gente engole. Mas tem umas que engasga, fica entalada, tipo espinho na garganta. Ver a Luna entrando de volta por aquela porta foi tipo isso. Um bagulho que eu jurei que nunca ia acontecer. E aconteceu. Ela cresceu. Tá diferente. Mas o olhar... o olhar ainda é o mesmo. Aquele jeito de fitar no fundo, como se enxergasse o que ninguém mais vê. Isso me quebra. Porque ela me lembra de tudo o que tentei apagar. Fui pro meu quarto depois da conversa. Bati a porta, larguei o rádio no canto e sentei na beira da cama. Passei a mão na corrente no pescoço. Mãe... se a senhora visse isso agora.
A Luna não entende. Ela acha que eu virei monstro. Que escolhi essa vida. Mas essa vida não dá escolha pra quem nasce dentro dela. Eu era só um moleque quando tive que juntar os pedaços do nosso pai. Literalmente. Um tiro no peito, um no queixo. Mãe chorando no chão, ela berrando, e eu com ela no colo, tentando fazer a irmã parar de tremer. A partir dali, não teve mais infância. Só responsa.
Quando vi que a Luna podia crescer sem isso, eu fiz o que tinha que fazer. Cortei ela da quebrada. Inventei desculpa, falsifiquei papel, arrumei casa longe. Mandei ela embora. Chorei escondido. Mas mandei. Porque aqui não é lugar pra mulher ser livre. Aqui, mina é moeda de troca, é ameaça, é mira. E minha irmã... minha irmã não ia virar mais uma estatística de morro.
Mas agora ela voltou.
Kael é meu irmão de outra guerra. Nunca me deixou na mão. Foi ele que limpou o corpo do Jorge quando explodiram o beco. Foi ele que segurou o rádio quando a gente perdeu o controle da Grota. Foi ele que invadiu a delega quando prenderam minha mãe da segunda vez. Kael é firme. Mas é homem. E homem se perde por mulher. E mulher bonita com passado em comum... é um veneno gostoso. Vi o jeito que ele olhou pra ela. Nem precisou falar nada. Tava no ar. A tensão, a vontade, o medo. Tudo junto. Vi nos olhos dos dois.
E isso me ferra.
Porque eu sei o que vem depois. Sei que o morro vai falar. Que a boca vai zumbar. Que os rivais vão usar isso contra mim. Já tão dizendo que minha irmã voltou porque a liderança tá fraca. Já tão achando que tem brecha. E onde tem brecha, tem tiro.
Peguei o rádio de novo.
— Kael. Desce aqui no depósito.
A voz dele respondeu do outro lado, seca, na hora:
— Tô indo.
Levantei, respirei fundo. Quando ele chegou, me encarou de frente. Olhar firme, postura reta. Mas eu conheço ele. O peito dele tava em guerra.
— E aí, chefe?
— Tu olhou pra ela.
Ele ficou quieto. E foi aí que eu soube que tava certo.
— Eu olhei. E daí?
Dei um passo pra frente. Encostei no peito dele com o dedo.
— E daí que ela é minha irmã. E tu sabe disso. Desde o começo.
— Sei. Mas também sei que ela não é mais criança. E que ela não voltou pra brincar de casinha. Veio porque perdeu a mãe. Veio porque tá ferida. E tu não é dono dela, Dante.
Fechei a mão, respirei fundo. Eu podia quebrar ele ali. Mas não ia mudar nada.
— Eu não sou dono dela. Mas sou dono da segurança dela. E se ela sofrer qualquer coisa aqui por tua causa, Kael... eu juro que te enterro com as próprias mãos.
Ele não tremeu. Só assentiu.
— Pode ficar tranquilo. Eu nunca deixaria nada acontecer com a Luna.
— É esse o problema. Tu vai proteger ela demais. E quando a fraqueza entra, o morro sente o cheiro. Tu sabe disso.
Kael se calou por uns segundos. Depois, falou baixo.
— Então me manda embora. Se tu acha que eu sou risco, me tira daqui.
Eu ri. Riso seco.
— Tu é o único que eu confio pra segurar o tráfico da parte alta. Se eu te tirar, essa p***a desaba.
Ele assentiu de novo. Sabia que eu tava certo.
— Então faz o teu. Protege o morro. Protege ela. Mas fica longe. Tu entendeu?
Ele me olhou. E ali, naquele segundo, eu vi: ele não ia conseguir. Não por maldade. Nem por desobediência. Mas porque o sentimento já tinha entrado. E quando entra... ninguém manda mais. Ele saiu calado. E eu fiquei ali, no depósito, olhando as armas na prateleira. O cheiro de pólvora, o mofo das caixas, a sombra do morro cobrindo tudo. O inferno tá começando a subir. E se esse amor deles estourar... vai ser tiro, sangue e lágrima.
Mas se ele ferir minha irmã...
Vai ser só morte.
Kael saiu sem dizer mais nada. Mas o jeito que ele foi embora... não foi de quem aceitou. Foi de quem engoliu a bronca. Só que eu conheço esse cara. Quando ele engole demais, ele explode. E quando explode, não sobra nada.
Passei a mão na nuca, dei dois passos pro lado e peguei a Glock na gaveta do armário. Conferi o pente, engatilhei, guardei de volta. Esse é meu ritual. Quando o mundo parece prestes a virar, eu reviso minhas armas. Porque a gente nunca sabe quando vai ter que usar.
Peguei o rádio e chamei o Cebola:
— Fica de olho na parte de cima da escadaria do Cimento. Qualquer movimentação diferente, me avisa na hora.
— Fechou, patrão. Vi uns caras estranhos por ali hoje cedo. Tavam de touca e capuz. Não é do nosso.
— Então tu já sabe. Se tiver com dúvida, cerca primeiro. Pergunta depois.
Desliguei o rádio e olhei pela janela do quartinho. Lá de cima dava pra ver boa parte do morro. As luzes piscando, as vozes se misturando com batida de som automotivo, criança correndo, o cheiro de comida no ar. Parecia paz. Mas era só disfarce. Aqui, a paz dura até o primeiro rádio gritar. A cabeça tava fervendo. Entre o que eu via e o que eu sentia. Entre o que o morro precisava e o que meu sangue pedia.
Minha irmã voltou.
E mesmo que ela ache que não... só a presença dela já muda o clima da favela. Os mais velhos olham torto. Os parceiros cochicham. As mulheres desconfiam. Porque todo mundo lembra dela. A princesinha do Dante. A que foi embora rica, limpa, estudada. E agora tá de volta? Aqui? No meio da lama?
Isso incomoda.
Incomoda porque ela é diferente. Porque ela não tem medo de olhar nos olhos. Porque ela fala o que ninguém tem coragem. E o pior... ela voltou com fogo no peito. Um tipo de dor que não se cala. E eu sei que ela vai cavar fundo. Vai querer saber por que a mãe morreu. Vai mexer onde não devia. Vai cutucar as feridas que eu passei anos trancando.
Mas o pior mesmo... o pior é o Kael.
Porque ele sempre teve essa p***a desse olhar. Quieto, mas intenso. Nunca vi ele se perder por ninguém. Nunca. E agora, com ela aqui, ele não precisa nem falar. Tá no gesto, na postura, no jeito que respira quando ela passa. Ele tenta segurar, mas tá ali. Queimando.
Eu não posso permitir.
Não só porque ela é minha irmã. Mas porque isso enfraquece tudo o que a gente construiu. O comando é respeito. Se o braço direito se enrola com sangue do chefe, vira piada. Vira alvo.
E aqui... aqui ninguém perdoa fraqueza. Bati a porta e fui andando pela viela. O povo me cumprimentando com cabeça baixa. Os mais novos fazendo pose. Os mais velhos medindo os passos. Entrei no bar da Val e pedi um café. Forte, sem açúcar. Igual a vida aqui.
— Tua irmã voltou bonita — ela soltou, enquanto enchia o copo de plástico.
— Ela não voltou pra desfilar. Veio enterrar a nossa coroa.
— E vai ficar?
— Vai. Até onde eu aguentar.
Val me olhou por cima da xícara.
— Só espero que o morro aguente também.
Fiquei em silêncio. Porque essa era a real. A Luna voltou cheia de perguntas. E quanto mais ela cavar, mais perto ela vai chegar das verdades que enterrei. Verdades que, se saírem da cova, arrastam todo mundo junto. E talvez nem o Kael consiga salvar ela disso.