Kael Narrando
Quando a Luna entrou naquela casa, eu soube. Nem foi pelo jeito que ela olhou. Nem pelo cheiro do perfume que veio com o vento. Foi no silêncio. No vazio que ela preencheu. Como se o morro tivesse prendido a respiração no segundo em que ela pisou ali de novo. Fingi que tava de boa. Que era só mais uma volta, mais uma visita, mais uma lembrança. Mas não era. Ela voltou diferente. Crescida. Calejada. Só que ainda era ela.
A mesma que passava limão nos joelhos ralados na laje. A mesma que me fazia rir com as palavras tortas quando era pequena. A mesma que sumiu sem dizer tchau, e levou junto um pedaço meu que eu nunca achei de novo. Mas agora tá de volta. E isso muda tudo. Desci do quarto do depósito com a cabeça pesada. A conversa com o Dante ainda martelava nos ouvidos. Ele me deu o recado, direto. Fica longe. Protege, mas não toca. Obedece, mas não deseja. Como se fosse fácil. Como se fosse possível.
Fui até o ponto da vigilância, no barraco da laje, onde o Alemão e o Guga tavam trocando turno.
— Tudo certo aí? — perguntei, pegando o binóculo do canto.
— Movimento estranho no beco do Tel. Uns moleques que não são daqui. Mas tão só observando, não tão armando nada. — disse o Alemão.
— Deixa no radar. Se voltar mais de uma vez no mesmo lugar, a gente vai pra cima.
Enquanto eles falavam, minha cabeça tava longe. Tava nela. No jeito que ela falou comigo. No modo como ela me encarou como se não tivesse medo de nada. Nem de mim. Nem do que eu sou. Tem mulher que olha e abaixa os olhos. Respeita. Tem medo. A Luna não. A Luna encara. Questiona. Joga na cara. E é por isso que ela é perigosa.
Não só pro morro. Pra mim.
Fiquei na laje um tempo. De olho no beco, mas pensando nela. Pensando no que aconteceu naquela noite, antes dela sumir. O último toque. O beijo que nunca devia ter acontecido. O calor que ficou grudado na minha pele por anos. E agora ela tá ali. Dormindo no quarto da mãe. A poucos metros. Do outro lado da parede. Pior que um inimigo armado é o desejo calado. Aquele que fica esperando o momento certo pra te arrebentar por dentro.
Desci da laje e fui direto pra viela dos fundos. Cortei caminho por onde ninguém vê. Subi pelo barranco e cheguei na parte de trás da casa. A luz do quarto dela tava acesa. Cortina fechada, mas dava pra ouvir. O som do chuveiro, o ranger do piso. Ela tava lá. Viva. Presente. Real demais.
Encostei na parede. Fechei os olhos. Respirei fundo.
— Merda...
Tava perdendo o controle. E isso nunca aconteceu comigo. Eu sou o cara que resolve. Que segura os caixões. Que faz o que ninguém tem coragem. Mas com ela... com ela é diferente.
Com ela, eu sou o moleque que nunca teve chance de dizer o que sentia. O rádio apitou no meu bolso. A voz do Dante:
— Reunião amanhã, sete da noite. Só os cabeça. E você chega antes.
Respondi com um tô ligado, e guardei o rádio.
O dia amanheceu antes mesmo que eu percebesse. E eu soube, ali mesmo, encostado na parede de trás da casa da Luna: Essa guerra... não é só com os inimigos de fuzil na mão. A maior guerra tá aqui dentro. E eu não tenho munição pra ela.
Fiquei ali por mais tempo do que devia. Só ouvindo. A água do chuveiro batendo no chão, os passos leves dela indo e vindo no quarto. A Luna tinha esse efeito. Mesmo no silêncio, fazia barulho dentro da gente. Quando percebi o que tava fazendo, já era tarde. Não era só proteção. Eu tava vigiando o que não me pertence. Sentindo o que não devia. Me prendendo num fio tão fino que qualquer deslize virava queda. Desviei. Fui embora. Cortei pela lateral, subi os degraus da antiga oficina do seu Raul e entrei no quartinho onde eu dormia. Um colchão jogado, a pistola na cabeceira, camisa no chão e o rádio ligado no volume mais baixo. Vida de cão de guarda não tem luxo. Tem vigília.
Me joguei no colchão com a cabeça fervendo. Fechei os olhos, mas ela continuava lá. Não dava pra apagar. Me lembrei da vez em que a gente quase se beijou na varanda da casa velha. Ela tinha uns dezessete, o cabelo preso num coque bagunçado, o olho cheio de revolta porque tinha descoberto que o pai dela era mais que traficante. Era mandante. Foi a primeira vez que vi ela chorar com ódio. Eu tentei consolar. Ela encostou a testa na minha. A boca dela quase tocou a minha. E aí...
Dante apareceu. Foi por um triz. E naquela hora, eu soube. Aquilo nunca ia poder acontecer.
Mas agora ela voltou. E o pior: voltou com dor. Com sede de verdade. E quando mulher ferida resolve vasculhar o passado, ela cava até encontrar esqueleto. E se ela descobrir tudo... Levantei do colchão, nervoso. O passado não tá enterrado. Tá guardado. Preso num segredo que só eu, Dante e mais dois sabem. E esse segredo, se ela desenterrar, vai destruir tudo.
Ela não sabe o que matou a mãe.
Nem por que foi afastada. Nem que o sangue que ela carrega é mais sujo do que contaram. Peguei o rádio e chamei Dante.
— Preciso falar contigo. Urgente.
Ele respondeu de cara:
— Não agora.
— É sobre ela.
Silêncio.
Do outro lado, ele respondeu firme:
— Amanhã. Na reunião.
Desliguei. Soltei o rádio em cima da mesa. Encostei na parede com a testa suada, o coração batendo mais rápido do que devia. A verdade é que a Luna me desmonta. Ela olha pra mim e eu esqueço quem sou. Esqueço que tenho função, que tenho lado, que minha mão já carregou morte. Com ela, eu não sou Kael, o segurança do morro. Eu sou só homem. E isso... isso me fode. O morro é feito de linha tênue. E eu tô em cima dela. De um lado, lealdade. Do outro, desejo. E cada passo que ela dá... me puxa mais pro lado errado. Ou talvez pro lado certo. Mas o certo, aqui em cima, é o que mata.