Kael Narrando
A reunião ainda tava grudada na minha pele quando saí da casa do Reduto. As palavras do Dante ecoavam na cabeça como rajada de fuzil: Ou tu protege ela, ou tu protege o que resta de nós. Só que ele esqueceu de dizer o que fazer quando as duas coisas já tão misturadas. Porque proteger ela é meu instinto. Mas proteger o que a gente construiu... é minha missão. Só que agora, uma coisa puxa a outra pro fundo. E se eu tentar salvar um lado, o outro afunda.
Desci a viela com o rádio no ombro, ligado, mas sem prestar atenção nas chamadas. A cabeça longe. O coração, pior ainda. Lembrando do olhar da Luna mais cedo. Do jeito que ela me desafiou sem levantar a voz. Da força que ela tem mesmo quebrada. Do jeito que ela me encara sem medo, como se me conhecesse melhor do que eu mesmo. E talvez conheça. Porque só ela viu o lado meu que nunca mostrei pra ninguém. Só ela entendeu o silêncio que me comanda. Parei na frente da casa dela. A luz tava apagada. Mas tinha uma vela acesa no quarto. Ela não tava dormindo. Sabia.
Fiquei uns minutos ali fora. Em pé. Calado. Lutando contra uma vontade que me arrasta há anos. Até que ouvi um barulho no portão.
Era ela.
Cabelo preso de qualquer jeito, camisa velha do Dante, pé descalço e olhar direto.
— Não consegue dormir também? — perguntou.
Balancei a cabeça. A voz não saía fácil.
— Tava pensando... — completei, depois de um tempo.
— Em mim?
Não era uma provocação. Era uma pergunta sincera. Daquelas que a gente não escapa.
— Sempre.
Ela respirou fundo. Encostou na grade do portão, os dedos enroscando no ferro, e ficou me olhando.
— Entra, Kael.
Só isso. Duas palavras que desmontaram o que restava da minha resistência. Empurrei o portão devagar. Entrei. Passamos pela sala em silêncio. A casa cheirava a vela, lembrança e coisa guardada. Ela sentou na beirada do sofá. Eu fiquei de pé, encostado na parede. Longe o suficiente pra me controlar. Perto demais pra não sentir.
— Meu irmão falou contigo, né?
Assenti.
— Ele disse que se eu tiver contigo, eu viro ameaça.
— E você acredita nisso?
— Eu acredito que você é tudo que ele tenta manter longe. Porque você mostra o que ele não quer ver. Mostra que ele falhou. Que não conseguiu te proteger do mundo que ele criou.
Ela baixou a cabeça. Apertou os dedos nos joelhos. Depois levantou os olhos. E foi ali que eu perdi o chão.
— Eu não voltei pra quebrar ninguém, Kael. Só quero a verdade. E talvez... você.
Aquela última frase me desmontou inteiro. Dei dois passos. Depois mais um. Agora ela tava a centímetros de mim. Estendi a mão. Encostei na nuca dela. Devagar, como se pedisse permissão. Ela não recuou. Só fechou os olhos. Como se já tivesse esperado por isso desde antes de ir embora. A boca dela encontrou a minha num beijo que não tinha nada de calmo. Era urgente, denso, cheio de anos engasgados, de vontade presa no peito. A gente se agarrou como quem se salva de afogamento. E por um instante... o mundo lá fora parou. Mas a favela não dorme. E logo depois, o rádio vibrou no meu cinto.
— Kael, resposta. Tiro na parte de baixo. Dois caídos. Precisamos de você.
Me afastei ofegante. Encostei a testa na dela.
— Isso aqui vai cobrar caro da gente.
Ela segurou meu rosto com as duas mãos.
— Então que cobre. Mas não foge agora.
Dei um beijo rápido nela, respirei fundo e saí pela porta. Porque o morro chamou. E eu, mesmo partido, ainda sou o cão de guarda dessa p***a. Mas agora... eu tenho o que perder. E isso muda tudo. Desci a rua correndo, o rádio preso no peito, a arma na cintura e a cabeça ainda na casa dela. No beijo. No calor. No que a gente finalmente quebrou. E no que vai ser impossível apagar agora. No beco da Grota, a fumaça ainda subia. Cheguei e vi dois moleques caídos no chão. Um já sem vida. O outro sangrando muito, mas respirando. Guga e Alemão tavam encostados no muro, alertas, arma apontada pra uma moto caída mais à frente.
— O que aconteceu? — perguntei, ainda ofegante.
— Dois vieram armados de pistola. Tão com símbolo de outro bonde tatuado. Um tentou atirar na gente, caiu. O outro só correu, largou a moto. Tamo tentando rastrear.
Me ajoelhei ao lado do moleque que ainda respirava. Devia ter uns dezoito, dezenove. Olhos abertos, tremendo. Reconheci.
— Esse aqui é da área do Jardim, andava com o Russo.
Peguei o rádio.
— Alerta total. Tem infiltração. Mandaram olheiro armado pra medir reação. Isso foi teste. Próximo vem com fuzil.
Fiquei de pé, limpei a mão na camisa. O cheiro de sangue misturado com fumaça é o que mais fica na pele. Mais que o perfume da Luna. Mais que a culpa. Pensei nela de novo. Na respiração colada na minha. Na voz dizendo: Então que cobre. Mas não foge agora. Fugir era mais fácil. Mais seguro. Mas não era o que eu ia fazer. Porque agora... ela me tem. E isso muda tudo. Dei a volta na cena. Olhei o rastro de onde o outro correu. Peguei o rádio de novo.
— Verifica câmera do beco da Rua Dois. Quero saber pra onde esse moleque fugiu. E se tiver ligação com algum nome da parte baixa, quero saber ainda hoje.
Guardei o rádio. Fiquei um tempo olhando os corpos. Quem vive nesse meio aprende a ver morte como rotina. Mas a verdade é que cada corpo é um aviso. Cada sangue derramado é só um passo a mais pro abismo. E hoje, por mais que eu tente manter a postura, eu tô tremendo por dentro. Porque agora eu tenho ela no meio disso tudo.
A Luna.
A mulher que eu desejei em silêncio por anos. A que não devia nem olhar de perto. A que agora me olha como se confiasse. E isso me quebra. Porque eu não sei se consigo proteger ela de tudo.
Do Dante. Do morro. De mim.
Saí dali e voltei pro alto, a passos firmes. Mas cada passo era pesado. Pensei no que eu disse pra ela: Isso aqui vai cobrar caro da gente. E agora eu sei. O preço já começou a ser cobrado. E eu tô pagando com cada escolha errada. Cada verdade não dita. Cada vez que eu deixo de dizer o que sinto, achando que é por proteção.
Mas a Luna... ela não é de meia verdade. E se eu não segurar ela do lado certo, alguém vai puxar pro lado errado. E aí... nem o Dante vai conseguir impedir o que vem. Nem eu. Nem ninguém.