SIENA
— Sim, estava. Inclusive, ele nos dará uma carona. Claro, se não for problema para você. E antes que você negue, ele foi meu cliente, foi embora para Londres e retornou recentemente. Paolo é confiável.
Percebendo o sorriso radiante de Aria, e seus olhos expectantes, acabo cedendo ao seu pedido.
— Certo. Se for convidá-lo para entrar, não use o nosso sofá, ou a bancada da cozinha, sim?
Ela arregala os olhos e segura uma risada.
— Você é terrível, Siena — resmunga, sua voz soando divertida.
Enquanto Aria vai ao encontro de Paolo, ando até a grande vitrine de exposição para devolver o colar. O mesmo senhor de terno preto vem em minha direção.
— Senhorita Leblanc…
Olho para a pequena e discreta placa dourada fixada em seu terno. Pierre Moreau é seu nome.
— Senhor Moreau, estou aqui para devolver o colar.
— Parfait! — diz finalmente em seu sotaque francês. Ele sinaliza para uma mulher ruiva elegantíssima, em um vestido azul-turquesa. Ela anda até mim e sorri gentilmente.
— Senhorita…
Acena indo atrás de mim. Levo meu cabelo para o lado, facilitando a retirada da peça, que é imediatamente posta na vitrine, expondo sua beleza de milhões de dólares. Cumprido minha missão, encontro Aria e Paolo, e juntos deixamos a festa.
Não avistei mais Ivarsen antes de ir, nem Anton ou Josephine. Depois que retirei o colar do meu pescoço, me senti vazia, não pela luxuosa joia caríssima que se foi, mas pelo que ela representou no exato momento em que foi colocada. Senti uma conexão com Ivarsen que me atordoou e deixou-me confusa por ele despertar sensações que eu julguei nunca mais ser capaz de sentir novamente.
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CAPÍTULO 5
SIENA
Dois dias depois do lançamento da joalheria Mackenzie, recebi um telefonema solicitando um encontro. Era uma secretária que se apresentou em nome da senhora Josephine Mackenzie. Confesso que jamais imaginei receber um convite desses, ainda mais vindo dela. Eu poderia recusar, mas a minha curiosidade é maior, e agora estou indo ao seu encontro.
Cheguei dez minutos adiantada no restaurante em que ela marcou, não demorou muito e Josephine, extremamente pontual, deu o ar da sua graça, elegante em um vestido branco com um decote canoa. Seus fios negros em um coque lateral e, em sua face, um par de óculos escuros que ela retira assim que se aproxima da nossa mesa.
— Olá, querida — saúda. — Fiquei realmente feliz que tenha aceitado vir ao meu encontro. — Sorrio, levantando-me para cumprimentá-la.
— Imagina. É um prazer, senhora. Confesso que estou muito curiosa com o seu convite.
— Bem. — Ela acena para nos sentarmos. — Eu não sou mulher de rodeios, Siena, e irei direto ao ponto — diz assim que um garçom se aproxima e puxa sua cadeira. Em seguida, faz o mesmo com a minha. Ele nos deixa o cardápio e sai. Novamente tenho a atenção da senhora Mackenzie. — Eu tenho algo para lhe propor, querida. Andei observando você em alguns eventos, sei que é uma acompanhante de luxo. É uma profissão interessante, devo admitir — diz casualmente. Eu não respondi, simplesmente continuei olhando para ela. — E eu não sei explicar — continua —, mas algo em você me chamou a atenção e, depois do lançamento, eu tive a certeza. Você é a pessoa perfeita para o que tenho em mente. Franzo o cenho. Josephine alcança as minhas mãos por cima da mesa. — Eu quero que seduza meu filho, Siena — solta suavemente, me fazendo arregalar os olhos com sua proposta. Percebendo minha surpresa ela continua a falar: — Ivarsen.
Abro e fecha a boca sem conseguir pronunciar uma palavra sequer. Só a menção do seu nome fez algo se retorcer em meu peito.
— Eu sei que parece um absurdo, mas ouça, Siena. Eu tenho os meus motivos para lhe propor isso.
Retiro minhas mãos do seu toque, assimilando tudo que acabei de ouvir.
— E-u… Senhora, eu não sei o que dizer. Isso é…
— Uma tentativa desesperada de uma mãe para salvar o seu filho. De o fazer enxergar que ainda está vivo — interrompe-me —, Siena, há sete anos Ivarsen perdeu sua esposa e, desde então, se entregou ao luto. Eu só quero que meu filho volte a ser feliz. Que ele veja que ainda pode ter isso. — Suas palavras me causam um estremecimento.
Mas eu não posso fazer isso. Não sou a pessoa certa para essa missão.
— Senhora Mackenzie, eu peço desculpas, mas não posso fazer isso.
Eu sinto muito.
Josephine balança a cabeça negando.
— Por favor, reconsidere. Eu pago o que for preciso. Diga quanto quer e eu darei.
Solto um suspiro, contorcendo-me no meu assento.
— Não se trata de dinheiro. Senhora, tem noção do que está me pedindo? Honestamente, eu não entendo como poderia ajudar o seu filho. Já parou para pensar que ele ainda não está pronto? Eu sei que quer o melhor para ele, mas não pode controlar tudo.
Josephine continua serena, embora note seus olhos marejados. Sua calma é só uma fachada que há anos é treinada para não sucumbir a momentos delicados.
— Ivarsen sempre foi um rapaz discreto, reservado, mas sabia aproveitar a vida. Tinha vigor, exalava felicidade. Seus olhos azuis tinham brilho, era como uma chama que ardia, pulsava e nunca se apagava — ela divaga e percebo uma lágrima solitária deslizar pela sua face.
Ela desvia o olhar e alcança sua bolsa sobre a cadeira ao lado. Abre e procura algo. Ela volta o seu olhar para mim e estende uma fotografia.
— Pegue — insiste. Pego a pequena fotografia das suas mãos e a encaro. — Essa é Paige — diz com um sorriso orgulhoso.
Observo uma menina de vestido rosa, lindos olhos azuis e cachinhos dourados. Ela está sorrindo, suas bochechas rosadas iluminadas pelos raios de sol em um jardim de inverno. Ela me lembra muito alguém. Olhos brilhantes, rosto delicado. Então a ficha cai. Devolvo a fotografia para Josephine.
— Ela é filha de Ivarsen — responde, confirmando a minha suspeita. — Quando Grace morreu, Paige tinha um ano de vida, e eu a crio desde então. Meu filho é um bom pai, mas, após a morte da esposa, ele m*l chega perto da filha e parte disso se deve a ela parecer demais com a mãe, isso ainda o atordoa.
Meu coração se aperta ao imaginar como Ivarsen e a filha sofreram e sofrem até hoje. Há dores que o coração sempre irá lamentar e este é mais um motivo para não aceitar essa loucura. Conheço bem essa dor. Seria como reabrir uma ferida.
— Eu sinto muito — sussurro.
— Obrigada. — Ela funga. — Eu fiz tudo que estava ao meu alcance para criar e educar a minha neta. Paige é uma menina meiga, alegre, mas, assim como o pai, é solitária. Ela é como uma concha vazia que eu tento desesperadamente preencher com todo o amor que tenho.
Agora é minha vez de alcançar as suas mãos por cima da mesa.
— Tenho certeza de que a senhora fez um ótimo trabalho.
Sorrio, imaginando Paige saudável e feliz, tendo uma boa educação e infância.
— Receio que não sou o suficiente. Siena, eu não pediria isso se não tivesse certeza de que você seria capaz de abrir os olhos do meu filho, fazê-lo enxergar a vida diante dele. Na verdade, mesmo sem se dar conta, você já fez isso. Na festa de lançamento.
Meus olhos confusos a encaram.
— C-omo? — perguntei.
— Ivarsen olhou para você. E não estou falando de um simples olhar. Me refiro a algo mais profundo. Por favor… — implora — reconsidere.
Olho para seus olhos e eles são suaves