SIENA
Encaro a mansão Mackenzie respirando fundo. Ulisses, o motorista da família que Josephine enviou para me buscar essa manhã, desce, dá a volta no Bentley, abre a porta, mantendo-a aberta, e estende a mão para ajudar-me a descer.
Meu coração acelera e, pela primeira vez na vida, estou me sentindo nervosa para começar o primeiro dia de trabalho, mesmo que seja irreal e tenha prazo para terminar.
— Bom dia, senhorita! — Finn, o mordomo, me cumprimenta com um sorriso cordial assim que abre o portão da mansão para mim.
— Bom dia, Finn — respondo-lhe com um sorriso. Seus olhos verdes me encaram.
— Madame Josephine a espera na mesa do jardim para o breakfast — anuncia, e assinto, seguindo-o até o jardim.
Solto um pequeno ofego quando, à medida que me aproximo, percebo que ela não está sozinha. Avisto uma figura elegante, com porte atlético, trajando um belo terno escuro e uma gravata da cor dos seus olhos. Ele sorri de algo que sua mãe diz em torno da mesa e, como se sentisse minha presença, ele ergue a cabeça, seus olhos azuis travando nos meus.
— Siena! Venha, querida. Seja bem-vinda — Josephine canta, levantando-se e vem em minha direção. Ivarsen fica de pé, franzindo o cenho, e parece petrificado no lugar. — Ivar, meu filho. Essa é Siena — Josephine diz e olha para mim. — Acho que vocês se viram no lançamento — continua. — Siena trabalhará como minha assistente a partir de hoje.
Ivarsen balança a cabeça como se estivesse saindo de um transe. Seus olhos aquecidos percorrendo cada centímetro do meu corpo, descansando em minha face.
— Certo — concorda e parece pensar em algo, mas logo se recompõe. — Seja bem-vinda, Siena! Será um prazer tê-la conosco — diz suavemente, seus lábios curvando-se em um sorriso de tirar o fôlego.
Deus! Estremeço.
Ivarsen parece ainda mais impressionante desde a última vez que o vi.
— Obrigada, senhor MacKenzie — agradeço-o e sorrio. Ando até Josephine, que me convida para sentar-me ao seu lado e de Ivarsen.
A conversa entre nós flui, e tanto Josephine e Ivarsen fazem perguntas sobre minha vida, o que me deixa um pouco desconfortável. Há certos fatos do meu passado que não merecem ser lembrados. São dolorosos, sombrios e só pertencem a mim.
— Siena, você é natural de Nova Iorque? — Ivarsen pergunta em tom suave, seus olhos permanecendo fixos nos meus.
Respiro profundamente, tentando concentrar-me na sua pergunta.
— Não — respondo — Na verdade, nasci e me criei em Londres.
— Interessante — Ele sorriu.
— E não se arrependeu, digo, de deixar Londres? — pergunta. Uma expressão estranha cintilando em seu rosto.
— No começo, sim — confesso — Hoje, não mais.
Os olhos dele parecem realmente brilhar com minha resposta e sorrio incerta, mantendo meu rosto neutro, mas consciente que há algo acontecendo entre nós.
Suspiro internamente quando Paige aparece. Sinto meus ombros relaxarem instantaneamente. Com a chegada da pequena, parei de ser o foco principal, o que trouxe certo alívio. Ivarsen demonstrou curiosidade sobre mim, mas há certas linhas que não devemos cruzar. Será que ele desconfia de algo? A voz meiga de Paige consegue arrancar-me dos meus devaneios. Ela é uma criança adorável e, quando estamos próximas, é como se eu resgatasse um lado meu que havia esquecido. Um lado terno, capaz de sorrir.
— Vamos, querida — Adele, a babá de Paige, a chama gentilmente —, Ulisses já espera por nós.
Paige acena, virando a cabeça para mim.
— Siena, quando eu chegar da escola, quero te mostrar algo.
— Você quer ver? — pergunta, seus olhinhos meigos brilhando.
Sorrio e concordo com a cabeça.
Paige sorri, exibindo duas covinhas adoráveis em suas bochechas rosadas e, para a minha surpresa, ela se inclina, envolvendo-me em um abraço apertado.
Observo-a se despedir de todos à mesa e correr alegremente com a Adele em seu encalço na direção de Ulisses, que aguardava pelas duas com a porta traseira do Bentley aberta.
Sentindo uma tensão tomar conta de mim, viro a cabeça para o lado, deparando-me com os olhos azuis penetrantes de Ivarsen em mim. Ele estava me observando, isso ficou claro. Mas por qual motivo? Será que ele está sentindo o mesmo que eu? De repente ele desvia o olhar e endireita as costas.
— Bem, estou indo, mamãe. Hoje terei uma reunião com alguns fornecedores e Alícia. Deseje-me sorte. — Ivarsen levanta-se e se despede da mãe com um beijo em sua testa. Josephine sorri graciosamente para o filho e o retribui com um beijo na bochecha. Ele se vira para mim, seu olhar viajando por cada centímetro da minha face. — Senhorita Leblanc…, tenha um ótimo dia! — diz com um aceno lento e um sorriso gentil surgindo em seu rosto.
— Igualmente, senhor MacKenzie — respondo-o suavemente.
Ivarsen, com um último olhar em minha direção, vai embora, permitindo, assim, que um suspiro profundo deixe meus lábios.
— Se saiu muito bem, querida — Josephine dispara enquanto observamos o BMW Black do seu filho cruzar os portões da mansão. Viro-me para ela. — Ele está encantado. Por mais discreto que seja e tentasse disfarçar, seus olhos estavam em você o tempo todo. — Meus lábios se curvam, mas o reprimo rapidamente. — Precisamos ser diretas. Meu filho é um cavalheiro, nunca dará o primeiro passo.
Olho para Josephine, desprovida de expressão. Ela acena com as mãos.
— Deixe isso por minha conta — assegura. — Ivarsen só precisa de um empurrão, e eu darei isso. — Sinto um frio no estômago com sua determinação.
— E como pensa fazer isso? — A pergunta deixa meus lábios antes mesmo que eu pudesse impedi-la.
Josephine se virou para mim com um sorriso brilhante.
— Uma festa.
— Uma festa? — repito.
Ela concorda.
— Haverá um baile beneficente da família Lancaster, todos os anos tem, é uma tradição. Ivarsen sempre ia com Grace, mas, após sua morte, eu passei a ser sua acompanhante ou Alícia, sua prima. Esse ano, porém, é você que o acompanhará. Meus olhos se arregalam. — Não se preocupe. Irei apenas sugerir que ele a convide.
— E o que a faz pensar que ele fará isso?
Josephine balança a cabeça e sorri.
— Digamos que é o instinto de mãe falando. Só confie em mim — diz confiante, encerrando o assunto.