A manhã nasceu abafada, o tipo de calor que grudava na pele.
Cecília acordou com o som das crianças brincando lá fora e o cheiro de café vindo da cozinha.
Rute já estava lavando roupa, cantando baixinho uma música antiga, tentando disfarçar o cansaço.
O pai ainda dormia, jogado no sofá, e o ronco alto ecoava pela casa.
No quarto ao lado, Carla se arrumava pra ir trabalhar no restaurante da Ivonete.
Ela sempre foi a mais calma das três irmãs, mas quando o assunto era PH, os olhos dela brilhavam diferente.
Já Clara, a mais velha, estava sentada em frente ao espelho, passando batom vermelho e conferindo o decote da blusa.
— Tu vai pra onde, Clara? — perguntou Cecília, pegando um copo d’água.
— Pra rua, ué. — respondeu a irmã, sem olhar. — Ou tu acha que as contas se pagam sozinhas?
Cecília suspirou.
Clara era bonita, provocante e sabia disso.
Gostava do perigo — principalmente quando o perigo tinha tatuagens, arma na cintura e dinheiro no bolso.
— Só toma cuidado. — disse Cecília, baixinho.
Clara riu.
— Cuidado é coisa pra gente fraca, Cê. Aqui, quem tem medo, morre.
As palavras ficaram ecoando na cabeça de Cecília, enquanto ela colocava o uniforme da loja.
Não era covardia o que sentia — era um tipo de prudência que o morro ensinava.
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Mais tarde, depois do trabalho, ela encontrou Maia no ponto de ônibus.
O sol já descia, tingindo o céu de laranja e rosa.
As duas caminharam juntas pelas vielas, desviando das poças d’água e das motos que subiam rápido demais.
— Tô morta. — reclamou Maia. — Faculdade de manhã, restaurante de tarde... tô precisando de umas férias em Copacabana.
Cecília riu. — Só se for pra limpar a areia.
— Ah, mas eu ia de boa! — Maia gargalhou. — Só de pensar em ver o mar sem ter que olhar pra trás o tempo todo já valia.
Elas viraram a esquina e entraram na lanchonete da Ivonete, que cheirava a pastel frito e café fresco.
O lugar estava cheio, como sempre.
— Mãe, olha quem veio! — gritou Maia. — A Cê!
Ivonete apareceu do balcão com um sorriso caloroso.
— Ô, menina, cê anda sumida! Senta aqui, vou botar pastel pra tu comer.
— Nem precisava, dona Ivonete... — disse Cecília, mas o cheiro já a fez mudar de ideia.
As três sentaram-se num canto, rindo e conversando.
O assunto, inevitavelmente, virou os meninos do morro.
— E o Tiago, hein, Maia? — provocou Cecília. — Ainda te faz sorrir à toa?
Maia ficou corada. — Cala a boca, Cê! Ele é o irmão do FK, pelo amor de Deus!
— E daí? — respondeu ela, brincando. — O Tiago é diferente.
Ivonete sorriu. — Diferente mesmo. Aquele menino é um anjo no meio do inferno.
Cecília pensou nisso por um instante.
Tiago era o oposto do irmão. Educado, estudioso, sempre ajudando os moradores com o que podia.
Mas o nome “FK” sempre pairava no ar quando ele era mencionado — como uma sombra inevitável.
— E falando nele... — murmurou Maia, abaixando o tom. — Ontem, uns caras passaram aqui perguntando de um tal de “chefe”.
— O FK? — perguntou Ivonete, preocupada.
— É... — respondeu Maia. — PH disse pra eles sumirem antes que alguém ouvisse.
O clima ficou pesado por alguns segundos.
Cecília sentiu um arrepio na nuca.
Aquele nome, só de ser dito, parecia carregar um peso que o morro inteiro respeitava.
— Melhor mudar de assunto. — disse Ivonete, tentando aliviar. — Cê, tu devia sair mais, menina. Sábado vai ter baile na quadra, por que tu não vai com a Maia?
— Eu? — Cecília riu, nervosa. — Deus me livre. Aquelas festas são cheias de confusão.
— Confusão e homem bonito — brincou Maia. — Vai que tu conhece alguém.
— Homem bonito eu já vejo o suficiente no shopping — retrucou Cecília, sorrindo. — Só que lá eles não andam com fuzil.
Todas riram.
Mas no fundo, Cecília sabia que o humor escondia um medo real.
Naquele morro, o perigo podia aparecer em forma de charme.
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Quando o sol se pôs, as duas amigas subiram o morro juntas.
As vielas começaram a escurecer, o som dos baile ecoando de longe.
Cecília olhou pra cima e viu as luzes da quadra dali.
— Sabe quem manda, né? — disse Maia, percebendo o olhar da amiga.
— Sei. — respondeu Cecília, baixinho. — O dono disso tudo.
Maia assentiu. — E o tipo de homem que a gente não deve nem cruzar o olhar.
Cecília ficou em silêncio.
Mas no fundo, sabia que o destino não respeitava regras — e que um simples olhar, às vezes, era tudo o que bastava pra mudar uma vida inteira.
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O som estourava nos alto-falantes da quadra principal da Rocinha.
O batidão de funk fazia o chão vibrar, a fumaça das grelhas subia misturada ao cheiro de cerveja e perfume barato.
A multidão se agitava, dançando, rindo, vivendo cada segundo como se fosse o último — porque ali, realmente podia ser.
Mas quando ele chegou, o tempo pareceu parar.
O carro preto subiu a ladeira escoltado por duas motos.
Assim que estacionou, os olhares se voltaram.
Os homens abaixaram a cabeça.
As mulheres suspiraram — umas de desejo, outras de medo.
FK desceu devagar.
Camisa preta justa, calça jeans escura, correntes de prata no pescoço.
O olhar — cor de mel e vazio — varreu a multidão como uma lâmina.
Ninguém ousava cruzar o caminho dele.
— O chefe chegou. — murmurou um dos seguranças, com respeito.
PH veio logo atrás, rindo, uma garrafa de whisky na mão.
— Bora aproveitar, parceiro. Hoje o baile é nosso.
FK apenas assentiu.
Subiu pro camarote montado na parte de cima da quadra — de lá, via tudo.
A favela inteira parecia pulsar sob seus pés, como se respirasse por ele.
As luzes piscavam em vermelho e azul.
Os MCs gritavam seu nome, exaltando o poder que dominava aquele lugar.
E ele... só observava.
O cigarro entre os dedos, o copo de whisky na outra mão.
O olhar sempre atento, calculando cada movimento, cada olhar que durava tempo demais.
Ele não dançava.
Não sorria.
Não curtia.
Apenas vigiava — como o predador que era.
Até que uma voz feminina o chamou de longe:
— FK!
Juliana.
Roupa justa, salto alto, perfume forte.
Ela se aproximou com aquele sorriso atrevido que fingia coragem.
— Achei que tu nem vinha. — disse, passando a mão no peito dele.
— Eu nunca deixo de aparecer onde me esperam. — respondeu, sem emoção.
Ela riu, mordendo o lábio.
— E eu sempre espero.
FK a olhou de cima a baixo, como quem escolhe uma arma antes do confronto.
— Vamos. — disse apenas.
Ela sabia o que significava.
Pegou na mão dele e desceu com ele pelos corredores laterais até um beco escuro atrás da quadra — um dos muitos lugares que ele usava quando queria fugir dos olhos curiosos.
Ali, a música continuava ecoando ao longe, abafada pelas paredes.
Juliana o beijou com urgência, tentando arrancar dele qualquer reação.
Mas FK não sentia nada.
Apenas movimento, carne, calor.
— Fala alguma coisa... — sussurrou ela, ofegante. — Me diz que sente.
— Cala a boca. — respondeu ele, a voz rouca e fria.
E ela calou.
Não por medo — mas porque sabia que dele, o máximo que receberia era o silêncio.
O momento foi bruto, rápido, sem carinho, sem olhar.
Quando acabou, FK se afastou, ajeitou a camisa e pegou o cigarro de novo.
Juliana ainda tentava recuperar o fôlego.
— Tu vai ficar comigo hoje? — perguntou, esperançosa.
Ele tragou o cigarro, sem olhar pra ela.
— Eu nunca fico.
E saiu.
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Lá fora, o baile continuava.
A multidão gritava o nome dele, os flashes piscavam.
Mas nada daquilo o tocava.
Nenhum som, nenhuma mulher, nenhuma festa conseguia quebrar o gelo dentro dele.
Subiu de volta pro camarote, olhou o morro do alto — seu império.
Tudo ali era dele.
Cada viela, cada esquina, cada olhar submisso.
E ainda assim, dentro dele, o vazio era ensurdecedor.
— Bora, PH. — disse, depois de alguns minutos. — Cansei.
— Já, mano? O baile nem começou direito.
— Já vi o que tinha que ver. — respondeu, descendo as escadas.
Os seguranças abriram caminho.
As pessoas se afastavam instintivamente.
E quando FK passou, o ar pareceu mudar — pesado, denso, como se até o vento respeitasse.
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Do outro lado da favela, Cecília olhou pela janela do quarto.
As luzes da quadra piscavam à distância, e a música subia pela noite quente.
Ela não sabia por quê, mas um arrepio correu por todo o corpo.
Como se algo — ou alguém — tivesse acabado de acordar o destino dela.
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