Capítulo 4 - Domingo de Paz

1594 Palavras
O domingo amanheceu claro, com o sol batendo forte nas telhas de zinco e o som distante de uma rádio tocando pagode antigo. Cecília acordou sem pressa — era o único dia da semana em que podia dormir um pouco mais. O cheiro de alho e cebola fritando já tomava conta da casa. A mãe dela, Rute, estava na cozinha, avental amarrado na cintura, preparando o almoço de família. — Bom dia, mãe. — disse Cecília, ainda sonolenta. — Bom dia, filha. Dormiu bem? — Dormi sim. O baile fez um barulho danado ontem, né? — Fez. Mas pelo menos ninguém morreu, já é alguma coisa. — respondeu Rute, com aquele humor cansado de quem já viu demais. Na mesa, Carla descascava batatas enquanto Clara reclamava de ressaca. O pai, João, estava sentado no sofá, camisa aberta e copo de café na mão. Ainda parecia calmo — o que era raro depois das bebedeiras de sábado. — Vai pra igreja hoje, Cê? — perguntou Carla, sorrindo. — Não, hoje não. Tô de folga, quero só ficar de boa. — respondeu Cecília, amarrando o cabelo num coque bagunçado. — Então ajuda a mãe a pôr a mesa. — disse Rute, batendo com a colher de p*u na panela. — E vê se acorda tua irmã, que o feijão não vai esperar. Cecília riu, obedeceu, e logo o almoço estava servido: arroz soltinho, feijão preto, farofa, frango frito e salada de tomate. Simples, mas cheiroso. O tipo de comida que abraça. A família se reuniu na mesa estreita, o barulho dos talheres misturado às conversas curtas. Por um instante, tudo pareceu tranquilo — como se o mundo lá fora não existisse. Mas a paz sempre durava pouco. Clara, com o celular na mão, soltou: — O FK apareceu no baile ontem. Cê precisava ver, Cê! O homem é um absurdo. — disse, rindo, sem perceber o olhar da mãe. — Cala a boca, menina! — ralhou Rute. — Esse nome nem se fala dentro de casa. — Que exagero, mãe. — debochou Clara. — Ele nem sabe que a gente existe. — E é melhor continuar assim. — respondeu João, sério. — Homem nenhum desse tipo traz coisa boa. O clima pesou por um segundo. Cecília abaixou os olhos, fingindo estar concentrada no prato. Ela nunca tinha visto FK, mas o nome dele ecoava pelo morro como uma lenda — e, ao mesmo tempo, uma ameaça. --- Depois do almoço, Carla foi trabalhar no restaurante da Ivonete, e Clara saiu dizendo que ia “dar um rolê”. Cecília lavou a louça com a mãe e ficou um tempo sentada na janela, observando as crianças correndo na rua. O domingo era bonito — o tipo de beleza que só o morro sabia ter: viva, barulhenta, colorida. Logo depois, o celular vibrou. Era mensagem da Maia. > “Bora tomar um sorvete na praça, Cê? Tô entediada demais aqui.” Cecília sorriu. Vestiu um short jeans, uma blusa simples e pegou a bolsa. Avisou a mãe e saiu, o sol queimando a pele e o vento quente subindo das vielas. --- A praça da Rocinha estava cheia. Crianças brincando, idosos jogando dominó, música saindo de caixas de som improvisadas. Maia já a esperava no quiosque do seu Zeca, tomando açaí e rindo de alguma piada do atendente. — Até que enfim, né? — reclamou ela, fingindo indignação. — Achei que tu tinha dormido de novo. — Dormir nada, tava ajudando a mãe. — respondeu Cecília, sentando. — Que calor, meu Deus. — Aqui, toma. — disse Maia, entregando um copo de sorvete de maracujá. — Cortesia do seu Zeca, pra essas duas princesas da favela. Cecília riu, envergonhada. — Deixa ele. — respondeu Maia, rindo. — Eu já sou apaixonada, esqueceu? — O Tiago é um amor mesmo. — disse Cecília, sonhadora. — Ele trata todo mundo bem, sem olhar de cima. — Pois é. — Maia deu de ombros. — O único da família dele que ainda acredita que dá pra ser bom nesse lugar. Elas ficaram em silêncio por um momento, observando o movimento ao redor. Cecília se sentia leve ali — entre risadas, cheiro de pipoca e o barulho do vento passando pelos fios de energia. Era o tipo de simplicidade que ela queria guardar pra sempre. Mas o destino, silencioso, já traçava outro caminho. Enquanto elas riam e falavam da vida, uma caminhonete preta cruzou a rua lentamente. Vidros escuros. Motor ligado, mesmo parada. FK estava lá dentro, observando o movimento da praça, conversando com PH sobre assuntos que ninguém devia ouvir. O olhar dele passou distraído pelas pessoas... até parar nela. Uma garota sentada num banco, rindo, o cabelo preso num coque simples, o olhar verde cheio de vida. Por um instante — só um instante — o mundo pareceu desacelerar. FK desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido. Mas dentro dele, algo, muito pequeno e quase imperceptível, incomodou. Uma sensação antiga. Algo que ele não queria — nem sabia — sentir. — Vambora, PH. — disse, frio. — Já vi o que precisava. O carro arrancou ladeira acima, deixando pra trás o cheiro de gasolina e o som distante da praça. Cecília nem percebeu. Mas uma vez o olhar que a encontrou naquela tarde iria persegui-la — e marcá-la — pelo resto da vida. --- O sol já começava a cair quando Cecília e Maia ainda estavam sentadas na praça, rindo e trocando confidências. O calor da tarde dava lugar a uma brisa leve que trazia o cheiro de pastel do trailer da esquina. Cecília lambia o restinho do sorvete, distraída, enquanto observava as crianças brincando de pique. Era um domingo comum, do tipo que ela gostava — sem barulho, sem medo, só paz. — Tu já pensou em sair daqui um dia, Cê? — perguntou Maia, mexendo o canudo do açaí. — Já... mas minha mãe precisa de mim, né? E também... — ela olhou em volta — ...a Rocinha é minha casa. — É... — Maia sorriu de leve. — A gente fala m*l, mas no fim, é daqui que a gente é. As duas ficaram em silêncio por um tempo, até ouvirem uma voz familiar vindo de trás. — Achei vocês. — Tiago apareceu, sorridente, de bermuda e camiseta simples, o cabelo bagunçado pelo vento. Tinha nas mãos dois picolés, que entregou pra elas. — Trouxe pra adoçar o dia das minhas meninas. Maia abriu um sorriso. — Ai, Tiago, cê é um amor! — disse, levantando pra abraçá-lo. Cecília apenas riu, aceitando o picolé e tentando disfarçar o constrangimento. Tiago sempre foi gentil com ela também, mas o olhar dele — e o coração — eram todos da Maia. — Como foi o treino? — perguntou Maia. — Cansativo. Mas valeu a pena. Tô quase fechando o estágio na Defensoria. — respondeu ele, orgulhoso. — Caraca, sério? Que orgulho, Ti! — disse Cecília, sincera. Ele sorriu pra ela, com aquele jeito leve que era raro ver por ali. — Valeu, Cê. Tomara que dê certo. Os três ficaram conversando por alguns minutos, rindo de coisas banais, até que a música começou a tocar mais alto na praça — um pagodinho animado. Maia levantou, puxou Tiago pela mão. — Vem, bora dançar. — Aqui, no meio de todo mundo? — ele riu. — Claro! O povo quer é ver a gente feliz. Cecília observou enquanto os dois se aproximavam, rindo, dançando desajeitados, trocando olhares apaixonados. E então, o inevitável: um beijo. Longo, doce, cheio de amor verdadeiro. Ela desviou o olhar. Não por inveja — mas por sentir aquele aperto estranho no peito. Um tipo de solidão silenciosa, como se o mundo todo tivesse alguém... menos ela. Olhou o relógio e fingiu um sorriso. — Vou indo, gente. Minha mãe deve tá me esperando. — Já? — perguntou Maia, ainda abraçada ao namorado. — Fica mais um pouco! — Amanhã eu trabalho cedo. — respondeu, simples. — E cês tão ocupados demais pra lembrar que eu existo. Falou rindo, mas o tom veio melancólico. Maia fez uma careta, culpada. — Cê é boba. Te amo, viu? — Eu também, amiga. — Cecília se despediu dos dois, deu tchau pro Tiago e começou a subir o morro devagar. O sol se despedia no horizonte, tingindo o céu de vermelho. As vielas já começavam a ficar mais silenciosas, e o som distante das motos ecoava lá do alto. Enquanto caminhava, sentiu aquele mesmo arrepio do dia anterior. Um frio repentino, mesmo com o calor da tarde. Olhou pra cima e viu, por um breve instante, a silhueta de uma caminhonete preta parada numa rua mais alta. Mas achou que era impressão. Continuou andando, o coração acelerado sem saber por quê. Lá do alto, FK observava, apoiado na janela escura do carro. PH falava alguma coisa sobre uma entrega, mas ele m*l ouvia. Seus olhos estavam fixos naquela menina andando sozinha, o cabelo solto, o corpo pequeno diante da imensidão do morro. — Tá ouvindo, FK? — perguntou PH. — Cê tá em outro mundo, irmão. FK acendeu o cigarro, sem tirar o olhar dela. — Tô vendo algo... diferente. PH riu. — Ih, já vi esse olhar. Que que foi, chefe? Gostou da mina? — Cala a boca, PH. — respondeu ele, frio, mas o maxilar travado entregava o incômodo. A menina sumiu entre as vielas, e o carro arrancou em silêncio. Mas o olhar dela — doce, distraído, inocente — ficou queimando na mente dele como algo que não devia existir no mundo em que vivia. ---
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