O domingo amanheceu claro, com o sol batendo forte nas telhas de zinco e o som distante de uma rádio tocando pagode antigo.
Cecília acordou sem pressa — era o único dia da semana em que podia dormir um pouco mais.
O cheiro de alho e cebola fritando já tomava conta da casa.
A mãe dela, Rute, estava na cozinha, avental amarrado na cintura, preparando o almoço de família.
— Bom dia, mãe. — disse Cecília, ainda sonolenta.
— Bom dia, filha. Dormiu bem?
— Dormi sim. O baile fez um barulho danado ontem, né?
— Fez. Mas pelo menos ninguém morreu, já é alguma coisa. — respondeu Rute, com aquele humor cansado de quem já viu demais.
Na mesa, Carla descascava batatas enquanto Clara reclamava de ressaca.
O pai, João, estava sentado no sofá, camisa aberta e copo de café na mão.
Ainda parecia calmo — o que era raro depois das bebedeiras de sábado.
— Vai pra igreja hoje, Cê? — perguntou Carla, sorrindo.
— Não, hoje não. Tô de folga, quero só ficar de boa. — respondeu Cecília, amarrando o cabelo num coque bagunçado.
— Então ajuda a mãe a pôr a mesa. — disse Rute, batendo com a colher de p*u na panela. — E vê se acorda tua irmã, que o feijão não vai esperar.
Cecília riu, obedeceu, e logo o almoço estava servido: arroz soltinho, feijão preto, farofa, frango frito e salada de tomate.
Simples, mas cheiroso.
O tipo de comida que abraça.
A família se reuniu na mesa estreita, o barulho dos talheres misturado às conversas curtas.
Por um instante, tudo pareceu tranquilo — como se o mundo lá fora não existisse.
Mas a paz sempre durava pouco.
Clara, com o celular na mão, soltou:
— O FK apareceu no baile ontem. Cê precisava ver, Cê! O homem é um absurdo. — disse, rindo, sem perceber o olhar da mãe.
— Cala a boca, menina! — ralhou Rute. — Esse nome nem se fala dentro de casa.
— Que exagero, mãe. — debochou Clara. — Ele nem sabe que a gente existe.
— E é melhor continuar assim. — respondeu João, sério. — Homem nenhum desse tipo traz coisa boa.
O clima pesou por um segundo.
Cecília abaixou os olhos, fingindo estar concentrada no prato.
Ela nunca tinha visto FK, mas o nome dele ecoava pelo morro como uma lenda — e, ao mesmo tempo, uma ameaça.
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Depois do almoço, Carla foi trabalhar no restaurante da Ivonete, e Clara saiu dizendo que ia “dar um rolê”.
Cecília lavou a louça com a mãe e ficou um tempo sentada na janela, observando as crianças correndo na rua.
O domingo era bonito — o tipo de beleza que só o morro sabia ter: viva, barulhenta, colorida.
Logo depois, o celular vibrou. Era mensagem da Maia.
> “Bora tomar um sorvete na praça, Cê? Tô entediada demais aqui.”
Cecília sorriu.
Vestiu um short jeans, uma blusa simples e pegou a bolsa.
Avisou a mãe e saiu, o sol queimando a pele e o vento quente subindo das vielas.
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A praça da Rocinha estava cheia.
Crianças brincando, idosos jogando dominó, música saindo de caixas de som improvisadas.
Maia já a esperava no quiosque do seu Zeca, tomando açaí e rindo de alguma piada do atendente.
— Até que enfim, né? — reclamou ela, fingindo indignação. — Achei que tu tinha dormido de novo.
— Dormir nada, tava ajudando a mãe. — respondeu Cecília, sentando. — Que calor, meu Deus.
— Aqui, toma. — disse Maia, entregando um copo de sorvete de maracujá. — Cortesia do seu Zeca, pra essas duas princesas da favela.
Cecília riu, envergonhada.
— Deixa ele. — respondeu Maia, rindo. — Eu já sou apaixonada, esqueceu?
— O Tiago é um amor mesmo. — disse Cecília, sonhadora. — Ele trata todo mundo bem, sem olhar de cima.
— Pois é. — Maia deu de ombros. — O único da família dele que ainda acredita que dá pra ser bom nesse lugar.
Elas ficaram em silêncio por um momento, observando o movimento ao redor.
Cecília se sentia leve ali — entre risadas, cheiro de pipoca e o barulho do vento passando pelos fios de energia.
Era o tipo de simplicidade que ela queria guardar pra sempre.
Mas o destino, silencioso, já traçava outro caminho.
Enquanto elas riam e falavam da vida, uma caminhonete preta cruzou a rua lentamente.
Vidros escuros.
Motor ligado, mesmo parada.
FK estava lá dentro, observando o movimento da praça, conversando com PH sobre assuntos que ninguém devia ouvir.
O olhar dele passou distraído pelas pessoas... até parar nela.
Uma garota sentada num banco, rindo, o cabelo preso num coque simples, o olhar verde cheio de vida.
Por um instante — só um instante — o mundo pareceu desacelerar.
FK desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido.
Mas dentro dele, algo, muito pequeno e quase imperceptível, incomodou.
Uma sensação antiga.
Algo que ele não queria — nem sabia — sentir.
— Vambora, PH. — disse, frio. — Já vi o que precisava.
O carro arrancou ladeira acima, deixando pra trás o cheiro de gasolina e o som distante da praça.
Cecília nem percebeu.
Mas uma vez o olhar que a encontrou naquela tarde iria persegui-la — e marcá-la — pelo resto da vida.
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O sol já começava a cair quando Cecília e Maia ainda estavam sentadas na praça, rindo e trocando confidências.
O calor da tarde dava lugar a uma brisa leve que trazia o cheiro de pastel do trailer da esquina.
Cecília lambia o restinho do sorvete, distraída, enquanto observava as crianças brincando de pique.
Era um domingo comum, do tipo que ela gostava — sem barulho, sem medo, só paz.
— Tu já pensou em sair daqui um dia, Cê? — perguntou Maia, mexendo o canudo do açaí.
— Já... mas minha mãe precisa de mim, né? E também... — ela olhou em volta — ...a Rocinha é minha casa.
— É... — Maia sorriu de leve. — A gente fala m*l, mas no fim, é daqui que a gente é.
As duas ficaram em silêncio por um tempo, até ouvirem uma voz familiar vindo de trás.
— Achei vocês. —
Tiago apareceu, sorridente, de bermuda e camiseta simples, o cabelo bagunçado pelo vento.
Tinha nas mãos dois picolés, que entregou pra elas.
— Trouxe pra adoçar o dia das minhas meninas.
Maia abriu um sorriso.
— Ai, Tiago, cê é um amor! — disse, levantando pra abraçá-lo.
Cecília apenas riu, aceitando o picolé e tentando disfarçar o constrangimento.
Tiago sempre foi gentil com ela também, mas o olhar dele — e o coração — eram todos da Maia.
— Como foi o treino? — perguntou Maia.
— Cansativo. Mas valeu a pena. Tô quase fechando o estágio na Defensoria. — respondeu ele, orgulhoso.
— Caraca, sério? Que orgulho, Ti! — disse Cecília, sincera.
Ele sorriu pra ela, com aquele jeito leve que era raro ver por ali.
— Valeu, Cê. Tomara que dê certo.
Os três ficaram conversando por alguns minutos, rindo de coisas banais, até que a música começou a tocar mais alto na praça — um pagodinho animado.
Maia levantou, puxou Tiago pela mão.
— Vem, bora dançar.
— Aqui, no meio de todo mundo? — ele riu.
— Claro! O povo quer é ver a gente feliz.
Cecília observou enquanto os dois se aproximavam, rindo, dançando desajeitados, trocando olhares apaixonados.
E então, o inevitável: um beijo.
Longo, doce, cheio de amor verdadeiro.
Ela desviou o olhar.
Não por inveja — mas por sentir aquele aperto estranho no peito.
Um tipo de solidão silenciosa, como se o mundo todo tivesse alguém... menos ela.
Olhou o relógio e fingiu um sorriso.
— Vou indo, gente. Minha mãe deve tá me esperando.
— Já? — perguntou Maia, ainda abraçada ao namorado. — Fica mais um pouco!
— Amanhã eu trabalho cedo. — respondeu, simples. — E cês tão ocupados demais pra lembrar que eu existo.
Falou rindo, mas o tom veio melancólico.
Maia fez uma careta, culpada. — Cê é boba. Te amo, viu?
— Eu também, amiga. —
Cecília se despediu dos dois, deu tchau pro Tiago e começou a subir o morro devagar.
O sol se despedia no horizonte, tingindo o céu de vermelho.
As vielas já começavam a ficar mais silenciosas, e o som distante das motos ecoava lá do alto.
Enquanto caminhava, sentiu aquele mesmo arrepio do dia anterior.
Um frio repentino, mesmo com o calor da tarde.
Olhou pra cima e viu, por um breve instante, a silhueta de uma caminhonete preta parada numa rua mais alta.
Mas achou que era impressão.
Continuou andando, o coração acelerado sem saber por quê.
Lá do alto, FK observava, apoiado na janela escura do carro.
PH falava alguma coisa sobre uma entrega, mas ele m*l ouvia.
Seus olhos estavam fixos naquela menina andando sozinha, o cabelo solto, o corpo pequeno diante da imensidão do morro.
— Tá ouvindo, FK? — perguntou PH. — Cê tá em outro mundo, irmão.
FK acendeu o cigarro, sem tirar o olhar dela.
— Tô vendo algo... diferente.
PH riu. — Ih, já vi esse olhar. Que que foi, chefe? Gostou da mina?
— Cala a boca, PH. — respondeu ele, frio, mas o maxilar travado entregava o incômodo.
A menina sumiu entre as vielas, e o carro arrancou em silêncio.
Mas o olhar dela — doce, distraído, inocente — ficou queimando na mente dele como algo que não devia existir no mundo em que vivia.
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