Capítulo 5 - Entre Risadas e Sombras

1606 Palavras
Os dias passaram lentos depois daquele domingo. A rotina de Cecília voltou ao normal: acordar cedo, ajudar a mãe, pegar o ônibus pro shopping, atender clientes, sorrir mesmo cansada. Mas, às vezes, no meio do dia, ela se pegava distraída, sentindo um arrepio sem motivo. Como se alguém a observasse — mesmo quando não havia ninguém por perto. Na Rocinha, o calor parecia mais forte naquela semana. O ar pesado, o som das motos subindo o morro, os meninos jogando bola nas vielas, tudo seguia o ritmo de sempre. Mas no alto, as coisas andavam tensas. FK estava recluso, lidando com movimentações novas, reforçando segurança. O morro inteiro sentia — quando o chefe ficava em silêncio, era porque algo grande estava por vir. --- Naquela sexta-feira, Cecília saiu do trabalho mais tarde que o normal. Pegou o ônibus lotado, o cabelo colado na nuca pelo suor. Quando desceu na subida da Rocinha, o céu já escurecia e o som do restaurante da dona Ivonete vinha forte, cheio de vozes, gargalhadas e cheiro de comida boa. Empurrou a porta e logo ouviu: — Olha quem apareceu! — gritou Maia, do balcão. — A trabalhadora do ano! Cecília riu, tirando a bolsa do ombro. — Tá cheio aqui hoje, hein? — Sexta é sempre assim. O povo vem matar a fome e esquecer da vida. — respondeu Carla, colocando dois pratos na bandeja. — Senta ali, vou pegar uma coca pra tu. — E eu quero abraço! — exclamou uma vozinha atrás dela. Miguel, o filho de PH, correu em direção a Cecília, com os bracinhos abertos. Ela se abaixou, abraçando-o com carinho. — Meu Deus, como cê tá grande, menino! — disse, sorrindo. — Vai virar jogador de futebol. — Eu já sou! — respondeu ele, todo convencido. — O tio Tiago falou! PH apareceu logo em seguida, rindo. — Cuidado, Cê. Esse aí tá ficando convencido demais. — E quem é o culpado? — retrucou ela, brincando. — O pai que só fala que ele é o “cria do morro mais brabo que existe”. — Mas é mesmo. — respondeu PH, piscando. — Vai ser brabo igual o pai. — Credo, Deus me livre. — disse Maia, rindo. — A gente já tem FK demais nesse morro. PH fingiu se ofender. — Ei, não compara, hein? Eu sou um anjo perto daquele desgraçado. — É mesmo — comentou Carla, voltando do balcão. — Só que com a língua mais afiada. Todos riram. O ambiente ali tinha algo raro: leveza. Mesmo com o caos do morro do lado de fora, dentro do restaurante da dona Ivonete havia um pedaço de paz. Ivonete apareceu da cozinha, suando, com uma colher de p*u na mão. — Cê, minha filha! Faz tempo que não te vejo por aqui. Senta, vou botar um prato pra tu. — Não, dona Ivonete, já comi lá no shopping. — respondeu ela, sorrindo. — Só vim ver a bagunça mesmo. — Ah, então ajuda a cuidar desse pestinha. — disse, apontando pra Miguel. — Ele não para quieto! Miguel segurou a mão de Cecília e a puxou pra brincar de esconde-esconde entre as mesas vazias. Ela ria, correndo atrás dele, tropeçando nas cadeiras, enquanto PH fingia reclamar: — Ô moleque, tu vai derrubar os clientes! Mas ninguém se importava. Era aquele tipo de riso que o morro quase nunca via — sincero, despreocupado. --- Depois de um tempo, Cecília sentou de novo com Maia, Carla e PH. O menino dormia encostado no colo dela, cansado de brincar. O restaurante começava a esvaziar, e as vozes se tornavam mais baixas. A noite trazia aquele silêncio cheio de segredos. — Tu devia vir mais vezes, Cê. — disse Maia, encostada na cadeira. — A gente sente tua falta aqui. — É, menina. — completou Ivonete, limpando o balcão. — Cê ilumina esse lugar. Cecília sorriu, tímida. — É só trabalho, dona Ivonete. — Trabalho demais e alegria de menos. — retrucou Carla. — Tem que sair, se divertir, viver um pouco. — Viver aqui é arriscado. — respondeu ela, olhando pra janela. — Às vezes acho que a felicidade tem medo desse morro. PH ficou em silêncio por alguns segundos, observando o rosto dela. Havia algo diferente naquela menina. Uma calma que ele não via em ninguém dali. — Cê é diferente, Cê. — disse ele, de repente. — Nesse lugar, todo mundo tem um olhar cansado. Mas o teu ainda brilha. — É porque eu ainda acredito que dá pra mudar. — respondeu ela, sincera. PH riu de leve. — Só não deixa o morro apagar isso, viu? Ele apaga tudo que brilha demais. As palavras dele ficaram no ar, pesadas, como um aviso. Cecília olhou pro menino dormindo no colo e sentiu o coração apertar. --- Do lado de fora, uma moto parou devagar. Dois homens desceram, olharam pro restaurante e fizeram um sinal rápido pra alguém no beco. Um carro preto apareceu logo depois, parando em frente à calçada. O som do motor desligando quebrou a conversa. PH olhou pela janela, o semblante mudando na hora. — Ih... — murmurou. — O chefe chegou. Maia e Carla se entreolharam. Cecília, sem entender, franziu o cenho. — O quê? Mas antes que alguém respondesse, a porta abriu. E ele entrou. O ar pareceu ficar mais pesado. Camisa preta, corrente prateada no pescoço, olhar firme — FK. O tipo de presença que fazia o coração de qualquer um acelerar, mesmo sem motivo. PH se levantou na hora. — E aí, irmão. Não esperava te ver por aqui. FK apenas assentiu, o olhar passando rapidamente pelas pessoas no salão... até parar nela. A menina de olhos verdes, com o menino dormindo no colo, rindo segundos antes. Ela. Cecília sentiu o estômago revirar. Não sabia que era, mas o olhar dele a atravessou como um golpe. Firme, intenso, frio. FK desviou, pegou o cigarro e falou baixo: — Preciso trocar uma ideia contigo, PH. PH assentiu, olhando pra Maia e pras meninas. — Vamo ali fora, rapidinho. O barulho da porta se fechando ecoou alto demais. Cecília ficou imóvel, tentando entender por que aquele olhar — aquele homem — tinha feito o coração dela bater daquele jeito. Do lado de fora, o morro parecia prender a respiração. --- O barulho das motos subindo o beco ecoava pelo morro. As luzes piscavam em alguns postes, e o ar cheirava a gasolina e fumaça. FK estava encostado na caminhonete preta, cigarro aceso entre os dedos, observando o movimento do restaurante da dona Ivonete à distância. Do lado dele, PH falava sem parar. — O pessoal da boca de baixo tá querendo aumentar o valor do repasse, chefe. Disse que o risco subiu depois da operação da PM ontem. FK continuava calado, tragando o cigarro devagar. O olhar dele, no entanto, não tava no beco. Tava na janela iluminada do restaurante. Mais especificamente, nela. Cecília. A menina ria, distraída, brincando com o filho do PH. O jeito simples, leve, sem disfarçar quem era. O tipo de leveza que não existia mais no mundo dele — e que, por algum motivo, incomodava. PH percebeu o silêncio. — Tu tá ouvindo, FK? Ele soltou a fumaça pelo nariz, frio: — Tô. — Então? Mando cortar o repasse deles? FK jogou o cigarro no chão, esmagando a ponta com a bota. — Manda avisar que se subir o preço, eu desço o caixão. PH assentiu, sem discutir. Sabia que com ele não tinha conversa duas vezes. Mas o chefe continuava quieto, os olhos voltando, por reflexo, pra janela. Viu Cecília ajeitando o cabelo, com aquele jeito tímido, o rosto sereno, como se não fizesse parte do mesmo mundo que ele. Por um segundo — um único segundo — algo dentro dele se moveu. Um impulso estranho, irritante. PH notou. — Tá olhando o quê aí, chefe? — perguntou, com o tom leve, provocando. FK virou o rosto na hora, frio: — Nada que te interesse. — Sei. — PH riu. — Cê nunca olha pra ninguém assim, mano. Desde quando uma menina mexe contigo? O olhar de FK gelou. — Cala a boca, PH. O tom fez o parceiro se endireitar na hora. FK se afastou do carro, indo em direção à esquina escura. Precisava respirar, pensar. Mas pensar em quê? Era ridículo. Ele não sabia — e mesmo se soubesse, não faria diferença. Era só uma garota comum. Inocente, demais até. Do tipo que não durava um dia no mundo dele. E, ainda assim, a lembrança dela espreitava a mente como fumaça. O toque leve da mochila, o r***o, o susto nos olhos verdes. E o medo. Sim, o medo. Aquele olhar de quem achava que ele podia matá-la ali, no meio do restaurante. E o pior? Ele gostou. Gostou de ver aquele medo. Mas não do jeito que gostava quando alguém temia o nome dele. Foi diferente. Foi… estranho. Quente. Vivo. — c*****o… — murmurou baixo, irritado consigo mesmo. Voltou pro carro, a expressão fechada. PH já o esperava, calado dessa vez. FK abriu a porta, jogou o cigarro no chão e entrou. — Vambora. — disse, seco. — Pra onde? — perguntou PH. — Pra boca de cima. Tenho coisa pra resolver. O carro arrancou, o som do motor ecoando pelo morro. Mas mesmo com o barulho, a mente de FK continuava longe — presa naquela janela iluminada, naquele rosto calmo demais pra existir naquele lugar. No retrovisor, o restaurante desaparecia aos poucos. Mas o incômodo ficava. E, pela primeira vez em muito tempo, FK sentiu algo que não conseguia nomear — e odiou cada segundo disso. ---
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