Os dias passaram lentos depois daquele domingo.
A rotina de Cecília voltou ao normal: acordar cedo, ajudar a mãe, pegar o ônibus pro shopping, atender clientes, sorrir mesmo cansada.
Mas, às vezes, no meio do dia, ela se pegava distraída, sentindo um arrepio sem motivo.
Como se alguém a observasse — mesmo quando não havia ninguém por perto.
Na Rocinha, o calor parecia mais forte naquela semana.
O ar pesado, o som das motos subindo o morro, os meninos jogando bola nas vielas, tudo seguia o ritmo de sempre.
Mas no alto, as coisas andavam tensas.
FK estava recluso, lidando com movimentações novas, reforçando segurança.
O morro inteiro sentia — quando o chefe ficava em silêncio, era porque algo grande estava por vir.
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Naquela sexta-feira, Cecília saiu do trabalho mais tarde que o normal.
Pegou o ônibus lotado, o cabelo colado na nuca pelo suor.
Quando desceu na subida da Rocinha, o céu já escurecia e o som do restaurante da dona Ivonete vinha forte, cheio de vozes, gargalhadas e cheiro de comida boa.
Empurrou a porta e logo ouviu:
— Olha quem apareceu! — gritou Maia, do balcão. — A trabalhadora do ano!
Cecília riu, tirando a bolsa do ombro. — Tá cheio aqui hoje, hein?
— Sexta é sempre assim. O povo vem matar a fome e esquecer da vida. — respondeu Carla, colocando dois pratos na bandeja. — Senta ali, vou pegar uma coca pra tu.
— E eu quero abraço! — exclamou uma vozinha atrás dela.
Miguel, o filho de PH, correu em direção a Cecília, com os bracinhos abertos.
Ela se abaixou, abraçando-o com carinho.
— Meu Deus, como cê tá grande, menino! — disse, sorrindo. — Vai virar jogador de futebol.
— Eu já sou! — respondeu ele, todo convencido. — O tio Tiago falou!
PH apareceu logo em seguida, rindo.
— Cuidado, Cê. Esse aí tá ficando convencido demais.
— E quem é o culpado? — retrucou ela, brincando. — O pai que só fala que ele é o “cria do morro mais brabo que existe”.
— Mas é mesmo. — respondeu PH, piscando. — Vai ser brabo igual o pai.
— Credo, Deus me livre. — disse Maia, rindo. — A gente já tem FK demais nesse morro.
PH fingiu se ofender. — Ei, não compara, hein? Eu sou um anjo perto daquele desgraçado.
— É mesmo — comentou Carla, voltando do balcão. — Só que com a língua mais afiada.
Todos riram. O ambiente ali tinha algo raro: leveza.
Mesmo com o caos do morro do lado de fora, dentro do restaurante da dona Ivonete havia um pedaço de paz.
Ivonete apareceu da cozinha, suando, com uma colher de p*u na mão.
— Cê, minha filha! Faz tempo que não te vejo por aqui. Senta, vou botar um prato pra tu.
— Não, dona Ivonete, já comi lá no shopping. — respondeu ela, sorrindo. — Só vim ver a bagunça mesmo.
— Ah, então ajuda a cuidar desse pestinha. — disse, apontando pra Miguel. — Ele não para quieto!
Miguel segurou a mão de Cecília e a puxou pra brincar de esconde-esconde entre as mesas vazias.
Ela ria, correndo atrás dele, tropeçando nas cadeiras, enquanto PH fingia reclamar:
— Ô moleque, tu vai derrubar os clientes!
Mas ninguém se importava.
Era aquele tipo de riso que o morro quase nunca via — sincero, despreocupado.
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Depois de um tempo, Cecília sentou de novo com Maia, Carla e PH.
O menino dormia encostado no colo dela, cansado de brincar.
O restaurante começava a esvaziar, e as vozes se tornavam mais baixas.
A noite trazia aquele silêncio cheio de segredos.
— Tu devia vir mais vezes, Cê. — disse Maia, encostada na cadeira. — A gente sente tua falta aqui.
— É, menina. — completou Ivonete, limpando o balcão. — Cê ilumina esse lugar.
Cecília sorriu, tímida. — É só trabalho, dona Ivonete.
— Trabalho demais e alegria de menos. — retrucou Carla. — Tem que sair, se divertir, viver um pouco.
— Viver aqui é arriscado. — respondeu ela, olhando pra janela. — Às vezes acho que a felicidade tem medo desse morro.
PH ficou em silêncio por alguns segundos, observando o rosto dela.
Havia algo diferente naquela menina. Uma calma que ele não via em ninguém dali.
— Cê é diferente, Cê. — disse ele, de repente. — Nesse lugar, todo mundo tem um olhar cansado. Mas o teu ainda brilha.
— É porque eu ainda acredito que dá pra mudar. — respondeu ela, sincera.
PH riu de leve. — Só não deixa o morro apagar isso, viu? Ele apaga tudo que brilha demais.
As palavras dele ficaram no ar, pesadas, como um aviso.
Cecília olhou pro menino dormindo no colo e sentiu o coração apertar.
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Do lado de fora, uma moto parou devagar.
Dois homens desceram, olharam pro restaurante e fizeram um sinal rápido pra alguém no beco.
Um carro preto apareceu logo depois, parando em frente à calçada.
O som do motor desligando quebrou a conversa.
PH olhou pela janela, o semblante mudando na hora.
— Ih... — murmurou. — O chefe chegou.
Maia e Carla se entreolharam.
Cecília, sem entender, franziu o cenho. — O quê?
Mas antes que alguém respondesse, a porta abriu.
E ele entrou.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Camisa preta, corrente prateada no pescoço, olhar firme — FK.
O tipo de presença que fazia o coração de qualquer um acelerar, mesmo sem motivo.
PH se levantou na hora.
— E aí, irmão. Não esperava te ver por aqui.
FK apenas assentiu, o olhar passando rapidamente pelas pessoas no salão... até parar nela.
A menina de olhos verdes, com o menino dormindo no colo, rindo segundos antes.
Ela.
Cecília sentiu o estômago revirar.
Não sabia que era, mas o olhar dele a atravessou como um golpe.
Firme, intenso, frio.
FK desviou, pegou o cigarro e falou baixo:
— Preciso trocar uma ideia contigo, PH.
PH assentiu, olhando pra Maia e pras meninas. — Vamo ali fora, rapidinho.
O barulho da porta se fechando ecoou alto demais.
Cecília ficou imóvel, tentando entender por que aquele olhar — aquele homem — tinha feito o coração dela bater daquele jeito.
Do lado de fora, o morro parecia prender a respiração.
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O barulho das motos subindo o beco ecoava pelo morro.
As luzes piscavam em alguns postes, e o ar cheirava a gasolina e fumaça.
FK estava encostado na caminhonete preta, cigarro aceso entre os dedos, observando o movimento do restaurante da dona Ivonete à distância.
Do lado dele, PH falava sem parar.
— O pessoal da boca de baixo tá querendo aumentar o valor do repasse, chefe. Disse que o risco subiu depois da operação da PM ontem.
FK continuava calado, tragando o cigarro devagar.
O olhar dele, no entanto, não tava no beco.
Tava na janela iluminada do restaurante.
Mais especificamente, nela.
Cecília.
A menina ria, distraída, brincando com o filho do PH.
O jeito simples, leve, sem disfarçar quem era.
O tipo de leveza que não existia mais no mundo dele — e que, por algum motivo, incomodava.
PH percebeu o silêncio.
— Tu tá ouvindo, FK?
Ele soltou a fumaça pelo nariz, frio:
— Tô.
— Então? Mando cortar o repasse deles?
FK jogou o cigarro no chão, esmagando a ponta com a bota.
— Manda avisar que se subir o preço, eu desço o caixão.
PH assentiu, sem discutir. Sabia que com ele não tinha conversa duas vezes.
Mas o chefe continuava quieto, os olhos voltando, por reflexo, pra janela.
Viu Cecília ajeitando o cabelo, com aquele jeito tímido, o rosto sereno, como se não fizesse parte do mesmo mundo que ele.
Por um segundo — um único segundo — algo dentro dele se moveu.
Um impulso estranho, irritante.
PH notou.
— Tá olhando o quê aí, chefe? — perguntou, com o tom leve, provocando.
FK virou o rosto na hora, frio:
— Nada que te interesse.
— Sei. — PH riu. — Cê nunca olha pra ninguém assim, mano. Desde quando uma menina mexe contigo?
O olhar de FK gelou.
— Cala a boca, PH.
O tom fez o parceiro se endireitar na hora.
FK se afastou do carro, indo em direção à esquina escura.
Precisava respirar, pensar.
Mas pensar em quê?
Era ridículo.
Ele não sabia — e mesmo se soubesse, não faria diferença.
Era só uma garota comum.
Inocente, demais até. Do tipo que não durava um dia no mundo dele.
E, ainda assim, a lembrança dela espreitava a mente como fumaça.
O toque leve da mochila, o r***o, o susto nos olhos verdes.
E o medo.
Sim, o medo.
Aquele olhar de quem achava que ele podia matá-la ali, no meio do restaurante.
E o pior?
Ele gostou.
Gostou de ver aquele medo.
Mas não do jeito que gostava quando alguém temia o nome dele.
Foi diferente.
Foi… estranho. Quente. Vivo.
— c*****o… — murmurou baixo, irritado consigo mesmo.
Voltou pro carro, a expressão fechada.
PH já o esperava, calado dessa vez.
FK abriu a porta, jogou o cigarro no chão e entrou.
— Vambora. — disse, seco.
— Pra onde? — perguntou PH.
— Pra boca de cima. Tenho coisa pra resolver.
O carro arrancou, o som do motor ecoando pelo morro.
Mas mesmo com o barulho, a mente de FK continuava longe — presa naquela janela iluminada, naquele rosto calmo demais pra existir naquele lugar.
No retrovisor, o restaurante desaparecia aos poucos.
Mas o incômodo ficava.
E, pela primeira vez em muito tempo, FK sentiu algo que não conseguia nomear — e odiou cada segundo disso.
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