Capítulo 6 - Beco

1316 Palavras
O relógio marcava quase dez da noite quando Cecília decidiu ir embora do restaurante. A noite estava quente, mas o vento do morro batia leve, levantando os fios soltos do cabelo dela. Maia ficou pra ajudar a mãe na cozinha, e Carla ainda atendia uns clientes. PH não estava — tinha saído há pouco com FK. — Cê vai sozinha, Cê? — perguntou Maia, preocupada, enxugando as mãos. — Vou sim, é pertinho. E o beco tá cheio ainda. — respondeu ela, sorrindo. — Tá, mas me avisa quando chegar, hein? — insistiu a amiga. Cecília acenou, ajeitou a mochila nas costas e saiu. O morro estava vivo — com música, risadas, o barulho distante de motos subindo. Mas ela sentia algo diferente no ar. Não medo. Algo mais sutil… como se estivesse sendo observada. Subiu os becos iluminados por lâmpadas fracas, desviando de gente que conversava nas portas. Cumprimentou conhecidos, devolveu sorrisos tímidos. Por fora, tudo parecia normal. Mas por dentro, o coração batia mais rápido do que devia. Quando chegou em casa, a mãe já estava lavando a louça e o pai, dormindo no sofá. Clara se arrumava pra sair, e Carla ainda não tinha voltado. — Ô, filha — disse Rute, sorrindo cansada. — Chegou tarde hoje, né? — É, fiquei um pouco lá com a Maia e o Miguel. — respondeu ela, tirando os sapatos. — Comeu? — Comi sim. — Mentira. Mas não queria preocupar a mãe. Subiu pro quarto, fechou a porta e respirou fundo. O quarto era pequeno, simples, mas cheio dela: livros empilhados, uma colcha florida, o cheiro suave de sabonete. Lá fora, o som do morro nunca dormia. Mas dentro daquele espaço, tudo era silêncio. Deitou na cama e olhou pro teto, tentando entender por que ainda sentia o coração acelerado. A imagem dele voltava toda hora. FK. O olhar firme, o cigarro, a voz fria dizendo “olha por onde anda”. Era medo — ela sabia. Mas tinha algo mais, algo que deixava a pele arrepiada e o pensamento confuso. “Para com isso, Cecília…”, murmurou pra si mesma, virando pro lado. Fechou os olhos, tentando apagar a imagem, mas o sono veio rápido — e trouxe com ele o que ela menos esperava. No sonho, o restaurante estava vazio. Ela sentava sozinha, e a porta abria devagar. Ele entrava — o mesmo olhar, o mesmo andar pesado, o mesmo silêncio que fazia o ar parar. Aproximava-se sem pressa. A luz da rua batia no rosto dele, revelando o brilho frio dos olhos cor de mel. Ela queria correr, mas o corpo não se movia. Ele se inclinava, o rosto perto demais. Podia sentir o cheiro dele — cigarro, álcool, perigo. Mas a voz… a voz saiu suave, rouca: — Eu disse pra olhar por onde anda. Cecília acordou com o coração disparado, o quarto no escuro e o suor frio na testa. Demorou alguns segundos pra entender que era um sonho. Levantou, foi até a janela e olhou lá pra fora. A Rocinha dormia pela metade — algumas luzes ainda acesas, risadas distantes, motos passando. Ela respirou fundo, tentando se acalmar. Mas o arrepio ainda estava lá. Como se ele estivesse perto, observando. E, lá do alto do morro, dentro do carro preto parado numa viela, FK tragava um cigarro, olhando pro mesmo ponto. Não sabia o porquê, mas algo o fazia estar ali, imóvel, observando as luzes. Dois mundos diferentes, separados por medo e silêncio — mas já ligados por algo que nenhum dos dois entendia. --- A noite já tinha engolido a Rocinha. O ar estava quente, pesado, e o som distante dos bares se misturava com o ronco das motos que subiam os becos. Cecília apertava o passo, o coração acelerado — não gostava de voltar tão tarde, mas o shopping fechou depois da hora por causa de uma vistoria, e o último ônibus demorou. O caminho que ela fazia todos os dias agora parecia outro. As sombras pareciam mais densas, o vento mais frio. A mochila pesava no ombro, e ela tentava não olhar pra trás. Passou por dois garotos fumando na esquina, desviou sem fazer contato visual. “Só mais duas vielas e tô em casa”, pensou. Mas no meio do beco estreito — aquele que cortava caminho pro lado da praça — ela ouviu passos atrás. Pesados. Firmes. Não eram de alguém comum. Ela engoliu seco, apertou o passo. Os passos aceleraram também. O medo veio como um soco. Quando virou pra correr, esbarrou com força em um corpo. O impacto fez a mochila cair no chão. — Tá indo pra onde, princesa? — a voz era grave, rouca, gelada. Cecília travou. Levantou os olhos devagar. E lá estava ele. FK. O mesmo olhar vazio e cor de mel que ela nunca esqueceu. A pele marcada por cicatrizes, a corrente pesada no pescoço, a arma presa à calça, o cheiro de cigarro misturado com perfume caro. Ele estava encostado na parede, o rosto à meia-luz — o tipo de presença que fazia o ar parar. — Eu… eu não vi você, desculpa. — a voz dela saiu fraca, embargada. Ele abaixou o olhar pra mochila caída no chão e depois voltou a encará-la. — Sempre se mete onde não deve, né? — disse baixo, arrastando o tom. Cecília ficou sem reação. As mãos tremiam, o coração parecia bater no ouvido. — Eu só tô voltando do trabalho… — murmurou. Ele deu um passo pra frente. Ela deu um pra trás, encostando na parede. A diferença de tamanho e presença era esmagadora. FK abaixou o cigarro, tragou e soltou a fumaça perto do rosto dela. O olhar dele desceu devagar, dos olhos aos lábios — e parou. Não era desejo, era curiosidade. Algo nele tentava entender por que aquela garota tremia daquele jeito e ainda assim não desviava o olhar. — Trabalha onde? — ele perguntou, a voz rouca. — No shopping… numa loja de roupa. — — Sozinha a essa hora, no beco? Tu é doida, é? — — Eu… não gosto de incomodar ninguém pra me buscar. — respondeu rápido, quase num sussurro. Um canto do lábio dele levantou — não em um sorriso, mas em algo entre deboche e ironia. — Incomodar ninguém… — repetiu baixo, dando outro trago. — Tu mora onde? — Ali em cima… perto do restaurante da dona Ivonete. — Ele assentiu lentamente, olhando em volta, analisando tudo. O silêncio pesou. Só dava pra ouvir o gotejar de uma calha e um funk distante. — Vai, anda. — ele disse enfim. — Eu te acompanho até a esquina. — Não precisa, eu… — Cala a boca e anda. — Ela obedeceu. O som dos passos dele atrás dela era o bastante pra fazer o coração dela pular no peito. Quando chegaram perto da rua principal, ele parou. — Da próxima vez que for sair tarde, pedi pra alguém. Ou não volta. — Ela virou o rosto, nervosa. — Tá… tá bom. Ele deu um passo à frente, tão perto que ela sentiu o calor do corpo dele mesmo sem encostar. O olhar dele cravou no dela — intenso, dominador, frio. Por um segundo, ela achou que ele fosse dizer algo mais. Mas ele apenas se virou e sumiu no beco. Cecília ficou parada ali, sem conseguir se mover, o corpo inteiro tremendo. Sabia que devia se sentir aliviada. Mas o que veio foi outra coisa. Um arrepio que não passava, uma sensação que misturava medo e algo que ela não queria admitir. Lá do alto, FK caminhava devagar, tragando outro cigarro, o olhar distante. Não entendia por que o rosto dela ainda estava preso na mente. Não gostava disso. Não gostava de nada que o fizesse pensar mais do que devia. Mas naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, ele não conseguiu dormir nenhuma hora. ---
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