Capítulo 7 - Baile

1809 Palavras
O sábado chegava quente na Rocinha. Cecília voltava do trabalho cansada, a mochila pesada, mas com o coração batendo mais rápido do que o normal. O dia tinha sido puxado, e ela só queria se jogar na cama e descansar. Quando abriu a porta do apartamento acima do restaurante da dona Ivonete, Maia já estava esperando, toda empolgada, abanando os braços. — Cê não vai acreditar! — gritou ela antes mesmo de Cecília largar a mochila. — Hoje vai ter baile na quadra principal e o MC que tu ama vai fazer show! Cecília suspirou, cansada. — Maia… tô morta. Só queria deitar e não levantar até amanhã. — Que nada! — rebateu Maia, arrastando-a pelo braço. — Vai comigo! Vai ser divertido, você precisa sair um pouco dessa rotina, menina. — Maia, sério… — tentou protestar. — Eu tô muito cansada. — Mas é hoje! Hoje é o dia! — insistiu Maia, sorrindo do jeito dela. — Tu vai se arrepender se não vier! Cecília olhou pra amiga, e o brilho nos olhos dela era contagiante. Suspirou, tentando resistir, mas a animação da Maia era impossível de ignorar. — Tá bom… — cedeu, sorrindo de leve. — Mas só por causa do show do MC. — É isso que eu gosto de ouvir! — Maia pulou, batendo palmas. — Se prepara, vai ser incrível! As duas tomaram banho e se arrumaram. Cecília colocou um vestido simples, mas bonito, ajeitou o cabelo e respirou fundo. O som distante da quadra já chegava até a rua onde moravam: batida forte, gritos, risadas e o cheiro de churrasquinho de beira de rua. — Vai lá com o coração aberto — disse Maia, rindo enquanto caminhavam. — E se vê o FK por lá… ignora. Não vale drama, tá? Cecília engoliu seco, sem comentar. Ela sabia que ele estaria presente. Sempre estava. Mas decidiu que aquela noite seria só dela. Pelo menos até o show começar. Quando chegaram na quadra, o lugar já estava lotado. Luzes piscando, gente dançando, música alta que fazia o peito vibrar. Cecília sentiu uma energia diferente: uma mistura de medo, expectativa e empolgação. Nunca tinha vindo pra festa sozinha antes, e mesmo com o cuidado, algo dentro dela queria se soltar e aproveitar. — Bora dançar um pouco antes do show começar — disse Maia, puxando-a pela mão. — Eu prometo que vai ser divertido! Cecília respirou fundo, permitindo-se sorrir pela primeira vez na noite. Mesmo no meio do caos do morro, mesmo sabendo que o perigo podia estar em qualquer canto, ela sentiu que aquela noite seria só dela e de sua amizade com Maia. E, lá no alto da quadra, entre as luzes e o som do funk, ela não sabia que aquele baile mudaria tudo. --- O baile já estava pegando fogo quando FK chegou. A caminhonete preta subiu a ladeira com os vidros escuros e parou bem na frente da quadra. Dois seguranças desceram antes dele. Quando ele pisou no chão, o som pareceu diminuir por um instante — como se o morro inteiro reconhecesse a presença dele. Camisa preta justa, colar pesado no pescoço, tatuagens subindo pelo braço, o olhar de quem mandava ali e em todos. FK não sorria, não cumprimentava ninguém. Apenas andava — e o povo abria espaço. Era respeito. Ou medo. Talvez os dois. PH já o esperava no camarote, uma garrafa de uísque na mesa e um sorriso debochado no rosto. Ao lado dele, Carla — bonita, cabelo solto, um vestido justo que chamava atenção. — Chegou o homem — disse PH, levantando o copo. — Até que enfim, né, chefe? FK apenas assentiu, pegando o copo que o segurança serviu. Olhou em volta — a quadra estava lotada. Gente dançando, luz piscando, funk explodindo nos alto-falantes. E, como sempre, as mulheres vieram. Duas, três, depois mais. Sorrisos fáceis, perfume forte, vestidos curtos. Elas encostavam, riam, tentavam chamar a atenção dele. Mas FK permanecia impassível — o olhar distante, sem um traço de interesse. Era só carne. E ele já estava farto disso. Enquanto isso, PH e Carla riam juntos no canto, os corpos colados, o clima entre eles evidente. Ela sussurrou algo no ouvido dele e PH soltou uma risada curta, antes de puxá-la pela cintura e beijá-la ali mesmo, no meio do camarote. O beijo foi intenso, meio desajeitado, mas cheio de vontade. FK desviou o olhar. Não se importava — não realmente. Mas aquela cena o lembrou que até os mais fiéis tinham o que perder. Ele voltou a olhar pra pista. E foi aí que viu ela. Cecília. De longe, entre as luzes coloridas e o povo dançando, o rosto dela apareceu rápido — o cabelo solto, o vestido simples, o sorriso tímido. Não era o tipo de mulher que chamava atenção no baile. Mas pra ele… chamou. Sem entender por quê, o olhar dele parou nela. Como se o barulho todo tivesse sumido, e só o batimento dela importasse. Cecília dançava perto da Maia, rindo, tentando relaxar. Mas, em certo momento, ela sentiu algo. Um arrepio. Como se o morro inteiro tivesse parado de respirar. Ergueu o olhar. E o encontrou. Lá em cima, no camarote, FK estava de pé, encostado no vidro, o olhar cravado nela — firme, pesado, indecifrável. Não havia nada de doce naquele olhar. Era ameaça. Era domínio. Mas, de algum jeito estranho, ela não conseguiu desviar. — Cê tá pálida, Cê. Que foi? — perguntou Maia, preocupada. Cecília piscou, tentando disfarçar. — Nada… só… calor. Mas sabia que não era isso. Sabia que era ele. FK tragou o cigarro, sem quebrar o contato visual. Do camarote, ele observava cada movimento dela — o jeito que desviava o olhar, a maneira como o vestido grudava na pele suada, a hesitação de quem não pertencia àquele lugar, mas estava ali mesmo assim. O coração dela batia descompassado. O dele, impassível. Mas havia algo novo — um incômodo estranho, como se a pureza dela o desafiasse. E FK odiava ser desafiado. A batida do funk subiu, o MC favorito dela entrou no palco e o baile inteiro vibrou. Mas pra Cecília, o som parecia distante. O mundo girava, a música batia, a multidão gritava — e, mesmo cercada de gente, ela se sentia presa no olhar dele. E lá de cima, FK sabia: aquela menina que ele devia ignorar estava começando a se tornar um problema. --- O baile já tinha virado um mar de gente. O som do funk fazia o chão tremer, as luzes piscavam num ritmo quase hipnótico. Cecília tentava se misturar à multidão, mas o olhar dele ainda ardia na pele — como se ainda sentisse o peso daqueles olhos sobre ela, mesmo sem vê-lo. — Ai, olha quem chegou! — gritou Maia, animada, acenando pra alguém. Tiago vinha subindo pela lateral da quadra, bonito, sorriso fácil, com aquela calma que contrastava com o caos à volta. Assim que viu a namorada, ele abriu os braços. Maia correu até ele, e os dois se abraçaram, rindo. — Demorou, hein? — ela disse, puxando ele pela camisa. — Tava resolvendo umas parada da faculdade. Mas agora tô aqui. Eles começaram a dançar juntos, colados, o olhar cheio de carinho e desejo. Cecília sorriu, mas sentiu o peito apertar. De repente, o mundo ao redor pareceu pequeno demais pra ela. Resolveu se afastar um pouco. — Vou buscar uma bebida — disse pra Maia, mas a amiga já estava perdida no olhar do Tiago. Cecília caminhou entre as pessoas, desviando dos corpos, sentindo o calor aumentar a cada passo. Parou no balcão improvisado e pediu uma água. — Oi, princesa… — uma voz masculina surgiu ao lado dela. Um rapaz alto, tatuado, sorriso atrevido. — Tá sozinha? — Não — respondeu curto, sem olhar. — Tá difícil acreditar — ele insistiu, chegando mais perto. Ela ignorou, pegou a garrafa e se virou, mas ele ainda segurou o braço dela de leve. — Cê é bonita demais pra tá sozinha num baile desses… Antes que ela respondesse, uma figura passou por trás do rapaz, e ele soltou o braço dela imediatamente, sumindo sem dizer mais nada. Cecília nem viu quem era. Só sentiu um arrepio subir pela espinha. Virou o rosto e viu, mais adiante, Clara, sua irmã, dançando com um dos caras da boca, rindo alto, o corpo colado no dele. Aquilo a fez revirar os olhos — a irmã parecia não saber o perigo que rondava. Suspirou fundo e decidiu ir ao banheiro antes de ir embora. O corredor lateral era estreito e m*l iluminado, o som abafado, o chão vibrando com o peso do som lá fora. Ela lavou as mãos, ajeitou o cabelo no espelho rachado e respirou fundo antes de sair. Mas, ao abrir a porta, bateu de frente com alguém. O corpo dela chocou-se contra o dele com força — firme, sólido, quente. A garrafa de água caiu no chão. Ela ergueu o olhar. E o tempo parou. FK. O olhar dele estava ali, de novo — frio, impenetrável, cor de mel sob a luz vermelha piscando. O cheiro de cigarro, o perfume caro, a presença que tomava todo o ar do corredor. — Sempre se mete nos lugares errados, né? — ele disse baixo, a voz rouca. Cecília sentiu o coração disparar. — Eu… eu não sabia que o banheiro era… — — Ninguém te perguntou nada. — Ele deu um passo pra frente, e ela recuou até encostar na parede. A música vibrava distante, mas ali o mundo parecia mudo. FK acendeu um cigarro, tragou devagar, sem desviar o olhar dela. — Tá sozinha? — perguntou, o tom frio, mas o olhar… o olhar dizia outra coisa. — Não… tô com a Maia… e o Tiago. Ele soltou a fumaça, observando-a com calma. — Tiago, é? — repetiu, como se saboreasse o nome. — Teu namorado? — É… é seu irmão. — O olhar de FK mudou — um brilho rápido, quase imperceptível, passou pelos olhos. — Entendi. — O silêncio que veio depois parecia mais pesado que a batida do som lá fora. Ele se inclinou um pouco, o rosto próximo o suficiente pra ela sentir o calor da respiração dele. — Se fosse esperta, não andava por aqui sozinha. Cecília engoliu seco, o corpo inteiro tenso. — Eu já tava indo embora… Ele olhou pra ela por um momento que pareceu uma eternidade, depois se endireitou e deu um passo pra trás. — Vai. Ela passou por ele com o coração disparado, tentando não olhar pra trás. Mas, quando chegou ao fim do corredor, não resistiu — virou o rosto discretamente. FK ainda estava lá, encostado na parede, tragando o cigarro e observando-a sair. Os olhos dele queimavam. Mas o que queimava mais era a dúvida: por que ele não conseguiu simplesmente deixar ela passar desde o início. ---
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