A festa ainda fervia, mas Cecília já não sentia vontade de ficar.
O som parecia distante, o ar pesado.
Procurou Maia entre as luzes e achou ela colada em Tiago, os dois dançando como se o mundo tivesse parado.
— Maia! — chamou, aproximando-se. — Eu vou indo, tá? Amanhã eu trabalho cedo.
Maia se virou, o rosto corado, o sorriso leve.
— Ah, Cê… eu acho que vou ficar com o Tiago hoje, tá? A gente vai subir pra casa da vó dele depois. Tu se importa?
— Claro que não — Cecília respondeu, mesmo sentindo o coração apertar. — Só se cuida.
Maia sorriu e abraçou a amiga rápido.
— Manda mensagem quando chegar, tá?
Cecília acenou e saiu pela lateral da quadra.
O som do baile ficou pra trás, engolido pela escuridão dos becos.
Ela ajeitou a roupa e respirou fundo. O ar da madrugada era morno, misturado com o cheiro de maresia distante.
As vielas estavam quase vazias. Só o som de motos, o latido de algum cachorro e uma música abafada vindo de longe.
Ela andava rápido, tentando não olhar pros lados.
Até ouvir o ronco de uma moto se aproximando devagar.
O farol cortou a escuridão, ofuscando seus olhos.
Ela parou, o coração acelerado.
A moto parou a poucos metros.
O farol apagou.
E o mundo pareceu prender a respiração.
FK.
Capacete preto, jaqueta, olhar cor de mel brilhando sob a luz fraca de um poste.
Ele ficou ali, parado, o motor ainda ronronando baixo.
— Sobe. — a voz dele veio firme, sem emoção.
— O quê? — ela perguntou, sem acreditar.
— Sobe na moto, Cecília. —
Ela hesitou.
— Eu… eu posso ir andando.
Ele girou o pulso, acelerando só pra o som preencher o beco.
— Não tô pedindo. Tô mandando.
O coração dela batia tão forte que parecia que ia rasgar o peito.
Por algum motivo que nem ela entendeu, subiu.
As mãos tremiam quando seguraram na lateral da moto.
— Segura firme. — ele disse, sem olhar pra trás.
A moto arrancou, cortando as ruas estreitas do morro e descendo em alta velocidade.
O vento batia no rosto dela, o som do motor se misturava ao da respiração presa.
Cecília não sabia pra onde ele a levava.
Mas também não teve coragem de perguntar.
Quando o morro ficou pra trás, ela reconheceu o caminho.
A praia.
O asfalto úmido refletia as luzes dos postes, e o mar esperava lá na frente, escuro, infinito.
FK parou a moto perto da areia e desligou o motor.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Só o som das ondas e o vento cortando o silêncio.
— Por que me trouxe aqui? — ela perguntou, a voz baixa, quase engolida pelo barulho do mar.
Ele tirou o capacete, passou a mão no cabelo e olhou pro horizonte.
— Porque tu vive com medo do morro. Aqui é o único lugar onde ninguém vai te olhar. —
Cecília engoliu seco.
— E você? Por que me olha tanto?
Ele virou o rosto pra ela, o olhar frio como sempre, mas com algo diferente.
— Porque tu não devia estar no meu caminho.
O silêncio caiu pesado.
A lua refletia no mar, o vento levantava o cabelo dela, e o olhar dele não se desviava.
Era perigo.
Era curiosidade.
Era o início de algo que nenhum dos dois sabia nomear.
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O barulho das ondas parecia mais alto agora.
O vento frio fazia o cabelo de Cecília dançar, e a lua refletia no mar como um espelho quebrado.
FK ficou de pé, olhando fixo para o horizonte, os braços cruzados.
Era como se ele fizesse parte da escuridão — imóvel, inquebrável, inalcançável.
Cecília desceu da moto devagar, ainda sentindo o coração acelerado.
Ela olhou em volta, tentando entender por que ele a trouxera até ali.
— Você costuma… trazer gente pra cá? — perguntou, a voz quase um sussurro.
FK deu um meio sorriso frio.
— Não.
— Então… por que eu?
Ele virou o rosto pra ela. O olhar cor de mel, duro como ferro.
— Tu é curiosa demais pra quem mora onde mora. Isso costuma dar problema.
— Eu não sou curiosa — ela rebateu, mesmo sem coragem. — Eu só… não gosto de ter medo.
O vento aumentou, e o cabelo dela voou pra trás.
Ele a observou por um instante longo demais.
— No morro, medo é o que mantém as pessoas vivas.
Ela abaixou o olhar, encolhendo os ombros.
— E você? Tem medo de quê?
A pergunta pairou no ar como uma provocação que ela não teve intenção de fazer.
FK ficou em silêncio. Um silêncio pesado, denso, que parecia crescer com o som das ondas.
Depois de um tempo, ele tirou o cigarro do bolso, acendeu e deu uma tragada lenta.
— Do passado. — respondeu por fim, a voz rouca, baixa. — E de me acostumar com ele.
Cecília o olhou surpresa.
Ele raramente falava mais de uma frase, e cada palavra parecia uma confissão involuntária.
— Você… perdeu alguém? — arriscou perguntar.
O olhar dele se desviou pro mar.
— Todo mundo perde alguém. A diferença é o que a gente faz depois disso.
Ela ficou quieta.
O som do isqueiro se apagando ecoou como um ponto final.
Por alguns segundos, o vento foi a única coisa viva entre eles.
Até que FK falou de novo, sem encará-la:
— Tua amiga, a Maia, devia parar de te deixar andar sozinha. O morro não é lugar pra quem é distraída.
— Eu me viro.
Ele riu baixo, um som quase sem humor.
— Não, não se vira. Tu tem sorte. E sorte acaba.
Cecília deu um passo pra trás.
Aquela mistura de cuidado e ameaça no tom dele fazia o estômago dela revirar.
— Se me trouxe aqui pra me assustar, conseguiu.
FK apagou o cigarro na areia e se virou pra ela, se aproximando um passo — só um.
— Não trouxe pra te assustar. Trouxe pra tu entender. Nem todo mundo que sorri pra ti quer o teu bem.
Ela o olhou nos olhos, sentindo um arrepio percorrer o corpo.
— E você quer?
O silêncio dele foi a resposta.
Nem sim, nem não.
Apenas o olhar fixo, vazio e indecifrável.
Ele deu as costas, caminhou até a moto e jogou o capacete pra ela.
— Sobe.
— Vai me deixar em casa?
— Eu te trouxe até aqui. Não é agora que vou te deixar sozinha.
Ela obedeceu em silêncio.
No caminho de volta, o vento gelado batia no rosto, o coração ainda disparado.
Cecília não sabia se estava mais assustada com o que ele era… ou com o que começava a sentir quando ele estava por perto.
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