Capítulo 8 - O Mar Não Guarda Segredos

1128 Palavras
A festa ainda fervia, mas Cecília já não sentia vontade de ficar. O som parecia distante, o ar pesado. Procurou Maia entre as luzes e achou ela colada em Tiago, os dois dançando como se o mundo tivesse parado. — Maia! — chamou, aproximando-se. — Eu vou indo, tá? Amanhã eu trabalho cedo. Maia se virou, o rosto corado, o sorriso leve. — Ah, Cê… eu acho que vou ficar com o Tiago hoje, tá? A gente vai subir pra casa da vó dele depois. Tu se importa? — Claro que não — Cecília respondeu, mesmo sentindo o coração apertar. — Só se cuida. Maia sorriu e abraçou a amiga rápido. — Manda mensagem quando chegar, tá? Cecília acenou e saiu pela lateral da quadra. O som do baile ficou pra trás, engolido pela escuridão dos becos. Ela ajeitou a roupa e respirou fundo. O ar da madrugada era morno, misturado com o cheiro de maresia distante. As vielas estavam quase vazias. Só o som de motos, o latido de algum cachorro e uma música abafada vindo de longe. Ela andava rápido, tentando não olhar pros lados. Até ouvir o ronco de uma moto se aproximando devagar. O farol cortou a escuridão, ofuscando seus olhos. Ela parou, o coração acelerado. A moto parou a poucos metros. O farol apagou. E o mundo pareceu prender a respiração. FK. Capacete preto, jaqueta, olhar cor de mel brilhando sob a luz fraca de um poste. Ele ficou ali, parado, o motor ainda ronronando baixo. — Sobe. — a voz dele veio firme, sem emoção. — O quê? — ela perguntou, sem acreditar. — Sobe na moto, Cecília. — Ela hesitou. — Eu… eu posso ir andando. Ele girou o pulso, acelerando só pra o som preencher o beco. — Não tô pedindo. Tô mandando. O coração dela batia tão forte que parecia que ia rasgar o peito. Por algum motivo que nem ela entendeu, subiu. As mãos tremiam quando seguraram na lateral da moto. — Segura firme. — ele disse, sem olhar pra trás. A moto arrancou, cortando as ruas estreitas do morro e descendo em alta velocidade. O vento batia no rosto dela, o som do motor se misturava ao da respiração presa. Cecília não sabia pra onde ele a levava. Mas também não teve coragem de perguntar. Quando o morro ficou pra trás, ela reconheceu o caminho. A praia. O asfalto úmido refletia as luzes dos postes, e o mar esperava lá na frente, escuro, infinito. FK parou a moto perto da areia e desligou o motor. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Só o som das ondas e o vento cortando o silêncio. — Por que me trouxe aqui? — ela perguntou, a voz baixa, quase engolida pelo barulho do mar. Ele tirou o capacete, passou a mão no cabelo e olhou pro horizonte. — Porque tu vive com medo do morro. Aqui é o único lugar onde ninguém vai te olhar. — Cecília engoliu seco. — E você? Por que me olha tanto? Ele virou o rosto pra ela, o olhar frio como sempre, mas com algo diferente. — Porque tu não devia estar no meu caminho. O silêncio caiu pesado. A lua refletia no mar, o vento levantava o cabelo dela, e o olhar dele não se desviava. Era perigo. Era curiosidade. Era o início de algo que nenhum dos dois sabia nomear. --- O barulho das ondas parecia mais alto agora. O vento frio fazia o cabelo de Cecília dançar, e a lua refletia no mar como um espelho quebrado. FK ficou de pé, olhando fixo para o horizonte, os braços cruzados. Era como se ele fizesse parte da escuridão — imóvel, inquebrável, inalcançável. Cecília desceu da moto devagar, ainda sentindo o coração acelerado. Ela olhou em volta, tentando entender por que ele a trouxera até ali. — Você costuma… trazer gente pra cá? — perguntou, a voz quase um sussurro. FK deu um meio sorriso frio. — Não. — Então… por que eu? Ele virou o rosto pra ela. O olhar cor de mel, duro como ferro. — Tu é curiosa demais pra quem mora onde mora. Isso costuma dar problema. — Eu não sou curiosa — ela rebateu, mesmo sem coragem. — Eu só… não gosto de ter medo. O vento aumentou, e o cabelo dela voou pra trás. Ele a observou por um instante longo demais. — No morro, medo é o que mantém as pessoas vivas. Ela abaixou o olhar, encolhendo os ombros. — E você? Tem medo de quê? A pergunta pairou no ar como uma provocação que ela não teve intenção de fazer. FK ficou em silêncio. Um silêncio pesado, denso, que parecia crescer com o som das ondas. Depois de um tempo, ele tirou o cigarro do bolso, acendeu e deu uma tragada lenta. — Do passado. — respondeu por fim, a voz rouca, baixa. — E de me acostumar com ele. Cecília o olhou surpresa. Ele raramente falava mais de uma frase, e cada palavra parecia uma confissão involuntária. — Você… perdeu alguém? — arriscou perguntar. O olhar dele se desviou pro mar. — Todo mundo perde alguém. A diferença é o que a gente faz depois disso. Ela ficou quieta. O som do isqueiro se apagando ecoou como um ponto final. Por alguns segundos, o vento foi a única coisa viva entre eles. Até que FK falou de novo, sem encará-la: — Tua amiga, a Maia, devia parar de te deixar andar sozinha. O morro não é lugar pra quem é distraída. — Eu me viro. Ele riu baixo, um som quase sem humor. — Não, não se vira. Tu tem sorte. E sorte acaba. Cecília deu um passo pra trás. Aquela mistura de cuidado e ameaça no tom dele fazia o estômago dela revirar. — Se me trouxe aqui pra me assustar, conseguiu. FK apagou o cigarro na areia e se virou pra ela, se aproximando um passo — só um. — Não trouxe pra te assustar. Trouxe pra tu entender. Nem todo mundo que sorri pra ti quer o teu bem. Ela o olhou nos olhos, sentindo um arrepio percorrer o corpo. — E você quer? O silêncio dele foi a resposta. Nem sim, nem não. Apenas o olhar fixo, vazio e indecifrável. Ele deu as costas, caminhou até a moto e jogou o capacete pra ela. — Sobe. — Vai me deixar em casa? — Eu te trouxe até aqui. Não é agora que vou te deixar sozinha. Ela obedeceu em silêncio. No caminho de volta, o vento gelado batia no rosto, o coração ainda disparado. Cecília não sabia se estava mais assustada com o que ele era… ou com o que começava a sentir quando ele estava por perto. ---
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