A moto parou devagar diante da casa simples onde Cecília morava.
O morro estava silencioso — apenas os grilos, o vento e alguns latidos distantes.
Ela tirou o capacete devagar, o cabelo bagunçado caindo sobre o rosto.
FK ficou quieto, o olhar fixo nela, ainda sem desligar o motor.
Aquela luz fraca do poste desenhava sombras no rosto dele, realçando as cicatrizes e os olhos cor de mel que pareciam ler a alma dela.
— Chegou. — ele disse, a voz baixa.
Cecília hesitou antes de descer da moto.
— Obrigada… por me trazer.
— Agradece a sorte. — respondeu seco, mas sem desviar o olhar.
Ela segurou o capacete junto ao peito.
— Você é sempre assim com todo mundo?
— Assim como?
— Frio. Duro. —
Ele soltou um meio sorriso irônico.
— Isso me mantém vivo.
— Deve ser cansativo. — ela disse, com uma sinceridade que o desarmou por um segundo.
FK a observou em silêncio.
Ninguém falava com ele daquele jeito.
Sem medo aparente. Sem bajulação.
Só… verdade.
— Não tenta entender o que não tem conserto, Cecília. — murmurou, a voz rouca, quase como um aviso.
Ela deu um passo à frente, o olhar firme.
— E se eu não quiser entender… só ver quem você é de verdade?
O ar pareceu parar.
Ele se aproximou um pouco, o cheiro de cigarro e couro misturado ao perfume leve dela.
Os rostos a poucos centímetros.
O coração dela batia tão forte que o som parecia ecoar entre eles.
O olhar dele desceu lentamente até os lábios dela, depois voltou pros olhos.
A respiração de ambos ficou pesada, lenta, quase sincronizada.
FK levantou uma das mãos, como se fosse tocar o rosto dela — mas parou no meio do caminho.
O gesto ficou suspenso, inacabado.
— Não mexe com coisa que pode te destruir. — murmurou, a voz baixa e rouca, o olhar fixo nela.
Cecília respondeu quase num sussurro:
— Talvez eu já esteja mexendo.
Por um segundo, tudo se apagou.
O mundo, o morro, o som.
Só o espaço entre eles existia.
E, então, ele se afastou.
Ligou o motor, desviou o olhar e disse:
— Entra, Cecília.
Ela obedeceu em silêncio, o coração em caos.
Do portão, ainda o viu descendo a viela — o farol da moto se afastando até sumir, engolido pela noite.
E ela soube, sem entender por quê, que nada na vida dela voltaria a ser igual.
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O sol m*l tinha nascido, e o morro já acordava com o barulho dos rádios, das motos e dos passos apressados na viela.
Mas pra Cecília, o tempo parecia andar devagar.
Ela estava sentada à mesa da cozinha, com a xícara de café nas mãos, o olhar perdido.
O pai ainda dormia no quarto, depois de uma noite de cerveja.
A mãe lavava roupa no tanque.
E Clara, como sempre, falava sem parar.
— Menina, tu acredita que ontem eu quase fiquei com o MC? — Clara disse, empolgada. — O cara veio falar comigo no camarote!
— Uhum. — Cecília respondeu, sem prestar atenção.
— Tá surda agora? Tô falando contigo, Cê! —
Ela piscou, voltando pro presente.
— Desculpa, só tô com sono.
Clara bufou, pegando o celular.
— Tu é muito desligada, menina. Por isso ninguém te nota.
Cecília forçou um sorriso, mas o rosto dela ainda guardava o brilho confuso da noite passada.
O vento frio da moto, o barulho do mar, os olhos dele…
A forma como o mundo pareceu parar por alguns segundos.
Mas não podia pensar naquilo.
Não podia pensar nele.
— Cê! — A voz de Maia ecoou do portão. — Acorda, preguiçosa!
Cecília levantou rápido e foi abrir. Maia estava com o cabelo preso e uniforme da faculdade.
— Bora tomar um café comigo no restaurante da minha mãe antes de tu ir pro trabalho! —
— Tô indo. —
As duas seguiram lado a lado pelas vielas. O morro estava vivo — crianças correndo, som saindo das janelas, cheiro de pão quente.
Mas Cecília sentia que tudo parecia… diferente.
Quando chegaram no restaurante, PH estava encostado na porta, falando com um dos rapazes do morro.
Olhou pras duas e assentiu.
— Bom dia, princesas do caos. — ironizou. — Cê, parece que viu fantasma.
Maia riu. — Deve ser sono. Ela saiu ontem, acredita?
— Sério? — PH arqueou uma sobrancelha. — A santinha foi pro baile?
— Foi — respondeu Maia. — Mas nem ficou muito.
Cecília fingiu rir e desviou o olhar, sentando numa das mesas.
— Eu… fui embora cedo mesmo.
— E foi sozinha? — PH perguntou, meio distraído, mexendo no celular.
Cecília travou por um segundo.
As palavras de FK voltaram à mente: “O morro não é lugar pra quem é distraída.”
— Fui sim. — mentiu, engolindo seco.
Maia se aproximou com dois copos de suco.
— Tu tá estranha, sabia? O que houve?
— Nada, só cansada.
Mas não era cansaço.
Era ele.
O olhar dele.
O som da voz dele dizendo seu nome.
Enquanto isso, no alto do morro, FK estava trancado no escritório.
O rádio chiava com as vozes dos homens nas bocas de fumo, mas ele m*l ouvia.
Tinha uma pilha de dinheiro sobre a mesa, uma pistola desmontada ao lado — e a mente longe.
PH entrou sem bater.
— Acorda, chefe. — disse, jogando uma pasta sobre a mesa. — Os caras do asfalto tão querendo fechar aquele esquema de carga ainda hoje.
FK levantou o olhar, o semblante impassível.
— Faz o que tem que ser feito.
PH franziu a testa.
— Tu tá estranho.
— Tô igual sempre.
PH riu de canto. — Igual não. Te conheço há tempo demais pra não sacar quando alguma coisa te tira do eixo.
FK ignorou, acendendo um cigarro.
Mas a fumaça parecia trazer de volta a lembrança da praia, o olhar dela, o jeito como o coração dele — aquele músculo que ele jurava morto — tinha errado o ritmo por um segundo.
Ele tragou fundo e disse, mais pra si mesmo do que pra PH:
— Era pra eu nem ter olhado pra ela.
PH riu baixo. — “Ela”? Quem, a Juliana?
FK respondeu seco:
— Não.
E o silêncio voltou, pesado.
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O restaurante de dona Ivonete estava lotado.
Era fim de tarde, e o cheiro de feijão com bacon se misturava ao som de risadas, talheres e conversas altas.
Cecília estava atrás do balcão, ajudando Carla a servir os pedidos enquanto esperava a Maia sair da faculdade.
— Cê, pega mais suco pra mesa três! — Carla pediu, sem nem olhar pra trás.
— Tô indo! — respondeu, equilibrando a bandeja.
O movimento era tanto que ela m*l conseguia respirar.
Mas ainda assim, era o tipo de bagunça boa — gente feliz, música baixinha tocando, o cheiro da comida da Ivonete dominando o ar.
Até que a porta se abriu.
O barulho das conversas pareceu diminuir por um instante.
Homens armados entraram primeiro, discretos, mas todo mundo reconhecia.
E, logo depois, ele.
FK.
blusa preta, olhar firme, expressão fria.
PH veio logo atrás, falando baixo com ele.
Aquele tipo de presença que fazia o ambiente mudar de temperatura.
Quem tava rindo ficou calado. Quem tava em pé, sentou.
Cecília travou. O coração disparou.
Não esperava vê-lo ali — e, principalmente, não esperava a sensação que aquilo traria.
Um frio na barriga, uma mistura de medo e de algo que ela não conseguia nomear.
Ele caminhou até uma mesa no canto, perto da janela. PH sentou do outro lado.
O barulho do restaurante voltou aos poucos, como se todo mundo tentasse fingir normalidade.
Cecília tentou fazer o mesmo.
Pegou uma bandeja, serviu o pedido de outra mesa, mas as mãos tremiam levemente.
Quando passou o olhar pela mesa dele, FK já estava olhando.
Direto. Fixo.
Sem disfarçar.
Por um instante, o tempo parou.
Ela desviou rápido, engolindo seco, e foi até a cozinha.
— Carla… é o FK ali fora. — sussurrou.
— E daí? — Carla deu uma risadinha. — Relaxa, o cara vem aqui direto com o PH. É cliente da casa.
Cecília respirou fundo e voltou pro salão.
Mas cada passo parecia pesado.
PH levantou a mão, chamando:
— Cê, traz dois pratos do dia e um refrigerante pra mim. Pro chefe, um suco de laranja. —
— Pode deixar. — respondeu, sem encará-los.
Minutos depois, ela voltou com a bandeja.
Colocou o refrigerante na frente de PH, depois o suco diante de FK.
Ele a observava em silêncio, os olhos cor de mel fixos, como se enxergassem o que ela tentava esconder.
— Obrigada. — murmurou, sem coragem de encarar.
— Cecília. — a voz dele a fez parar. Baixa, rouca.
Ela levantou o olhar devagar.
— Da próxima vez que andar sozinha de noite… me avisa antes. —
PH ergueu a sobrancelha, curioso. — Como é que é?
FK manteve o olhar nela. — Só um aviso. Pro morro não te engolir de surpresa.
Cecília sentiu as pernas fraquejarem.
— Eu… não costumo andar sozinha.
— Costuma, sim. — ele rebateu, sem tirar os olhos dela. — E eu não gosto disso.
PH olhou de um pro outro, desconfiado.
— Que papo é esse, mano? Tu virou segurança de menina agora?
FK soltou um meio sorriso, sem humor. — Só tô dizendo.
Cecília abaixou o olhar, nervosa. — Eu já tava indo, desculpa. —
E saiu rápido, o coração batendo forte.
PH esperou ela se afastar e riu.
— Fala sério, chefe. Desde quando tu se importa com alguma menina do morro?
FK não respondeu.
Pegou o suco, bebeu um gole e ficou olhando pro copo, como se procurasse ali alguma explicação pro que tava sentindo.
PH riu de novo. — Tá diferente, hein. Deve ser uma tal Cecília…
FK levantou o olhar devagar, a expressão voltando ao normal — fria, dura, inabalável.
— Fala mais uma vez ,e tu vai terminar o almoço sem língua.
O silêncio voltou.
E só o som distante do rádio de Ivonete preencheu o ar.
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