Capítulo 24 - Veneno do Baile

1244 Palavras
O espelho do quarto de Cecília estava embaçado de tanta correria. Roupas espalhadas pela cama, maquiagem aberta em cima da cômoda, o cheiro doce de perfume e laquê se misturando ao som distante do batidão que já ecoava lá do baile. Carla ajeitava os cachos diante do espelho, dançando ao ritmo da música que vinha do celular. Cecília, mais tímida, sentada na beirada da cama, tentava decidir se o vestido simples de tecido leve era adequado. — Cê, pelo amor de Deus, põe esse vestido vermelho — disse Carla, pegando a peça e segurando contra o corpo da irmã. — Tu vai arrasar! — É muito chamativo, Carla… — E é pra isso mesmo! — retrucou, rindo. — Baile não é missa, mana. Do canto do quarto, Clara observava tudo de braços cruzados, com um olhar provocante. — Pra quê tanto esforço, Cê? — perguntou, debochada. — Vai que o senhor FK nem aparece. Cecília travou por um segundo, tentando disfarçar o incômodo. Carla lançou um olhar atravessado pra irmã mais nova. — Clara, segura essa língua. — Ué, só tô falando — respondeu Clara, erguendo as sobrancelhas. — Todo mundo já ouviu o boato. O clima pesou. Cecília levantou-se devagar, respirando fundo, e foi até o espelho. — Eu não tô me arrumando por ninguém — disse, num tom firme. — Só quero sair um pouco. Carla sorriu orgulhosa. — Isso mesmo, mana. Mostra pra essa linguaruda que tu sabe se divertir. Clara bufou e saiu do quarto batendo a porta, resmungando algo que ninguém entendeu direito. O som de uma buzina curta veio do portão. Carla foi até a janela e sorriu. — A Maia chegou! Segundos depois, Maia apareceu na porta, com o cabelo solto, jeans justo e top brilhante. — Gente, vocês estão lindas! — disse, animada, entrando no quarto. — Bora logo antes que o baile comece de verdade. Carla pegou a bolsa, Cecília respirou fundo e passou o batom com mãos trêmulas. Maia se aproximou, olhando-a com ternura. — Tu tá linda, Cê. — Eu tô nervosa — confessou. — Então vai e dança até esquecer o porquê. As três saíram juntas, rindo e se provocando pelo corredor. A noite lá fora estava quente, viva, e o som do funk se misturava às luzes piscando do morro — o prenúncio de algo que Cecília ainda não sabia se seria o início… ou o fim de tudo. --- O som do funk fazia o chão tremer. As luzes piscavam no ritmo da batida, e o ar da quadra principal da Rocinha era denso, quente, cheio de perfume barato e fumaça de cigarro. Cecília caminhava entre a multidão ao lado de Maia e Carla, tentando se acostumar ao barulho e à confusão. As duas pareciam à vontade — Carla já dançava com um copo na mão, sorrindo pro PH, que a esperava no camarote, enquanto Maia acenava pro Tiago, que aparecia com um sorriso e o olhar apaixonado. Cecília sorriu com timidez. — Eles são lindos juntos — comentou, vendo Tiago abraçar Maia por trás e beijar o pescoço dela. — São — respondeu Carla, rindo. — E tu, mana? Vai ficar aí plantada? Mas Cecília só observava. O corpo dela até queria se soltar, mas o coração parecia pesado, como se algo a puxasse pra dentro de si mesma. Ela se afastou um pouco, procurando ar. Foi até uma das barracas pegar algo pra beber. Enquanto esperava, ouviu os gritos de empolgação da galera — o MC favorito dela subindo no palco. Um sorriso involuntário escapou. Mas o instante de leveza durou pouco. Do alto do camarote principal, ele estava lá. O FK. Camisa preta aberta no peito, cordão grosso, olhar frio. Sentado no trono improvisado de quem dominava tudo aquilo — o baile, o morro, as pessoas. E no colo dele, uma mulher. Ela ria alto, jogando o cabelo pro lado, as mãos percorrendo o pescoço dele, enquanto ele ficava ali — impassível, mas deixando. O contraste entre os dois parecia um golpe em Cecília. O copo tremeu na mão dela. Engoliu seco. O peito doeu, mas ela disfarçou. — Cê, o que foi? — perguntou Maia, voltando pra perto, ofegante de tanto dançar. — Nada — respondeu, forçando um sorriso. — Só tô cansada. Maia olhou na direção do camarote, entendeu sem precisar de palavras e segurou a mão da amiga. — Finge que não viu. — Difícil — murmurou Cecília, desviando o olhar. Lá de cima, FK também a viu. O olhar dele endureceu, e por um breve segundo o semblante frio rachou — um traço de raiva e algo que nem ele sabia nomear. Mas ele não se moveu. Apenas continuou ali, com a mulher rindo no colo, os dedos batendo no copo de uísque enquanto observava Cecília, imóvel no meio da multidão. Ela desviou, virou as costas e se misturou ao povo. Dessa vez, não queria dançar. Queria esquecer que aquele homem conseguia dominá-la mesmo sem dizer uma palavra. --- O copo de cerveja estava gelado nas mãos de Cecília, mas o coração dela queimava. A imagem de FK com outra mulher no colo ainda rodava na cabeça como um disco arranhado, machucando. Carla voltou com mais dois copos, rindo alto. — Bebe, mana. Hoje é pra esquecer dos problemas! — Acho que já bebi o suficiente — respondeu Cecília, a voz meio rouca. — Então bebe mais um pouco — disse Maia, empurrando o copo pra ela. — Só hoje. Cecília hesitou por um segundo, depois virou o copo de uma vez. O gosto amargo queimou a garganta, mas trouxe coragem. A música mudou — um batidão pesado, com letras que falavam de poder e corpo. — Bora dançar! — gritou Carla, puxando as duas pro meio da quadra. Cecília resistiu no início, mas a bebida e a batida começaram a dominar. O corpo dela se soltou, os quadris acompanharam o ritmo, os cabelos pretos caíram sobre os ombros. Ela se mexia com uma mistura de timidez e raiva, uma sensualidade que vinha de um lugar que nem ela sabia existir. Os olhares começaram a surgir. Homens comentavam baixo, outros tentavam se aproximar. Mas ela nem percebia. Lá do camarote, FK viu tudo. A mulher que estava no colo dele falava algo em seu ouvido, mas ele não ouvia nada. Os olhos dele estavam cravados em Cecília — dançando, rindo, girando o corpo no meio da multidão, livre e intoxicante. O maxilar dele travou, o copo de uísque partiu-se em sua mão sem que percebesse. PH, do lado, percebeu. — Que foi, mano? — Nada — respondeu FK, a voz fria, mas o olhar denunciando o contrário. A mulher no colo tentou chamar atenção. Ele empurrou o braço dela com impaciência e se levantou, o olhar fixo em Cecília, que agora dançava encostada em uma parede, de olhos fechados, perdida na música. Cada passo dela parecia um desafio. Cada sorriso, uma provocação. E, mesmo sem ela saber, cada movimento atiçava o lado mais sombrio dele — aquele que não aceitava perder o controle. Cecília, ofegante, abriu os olhos e o viu. Lá em cima. O olhar dele, cortante, queimava. Ela sentiu o estômago revirar, mas não parou de dançar. Pelo contrário — dançou mais. Era como se dissesse, sem palavras: você não manda em mim. Mas FK já estava descendo as escadas do camarote, a passos lentos, firmes, e quem o conhecia de verdade sabia que alguém ia sair machucado naquela noite. ---
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