Capítulo 23 - Respiro Suave

1297 Palavras
A noite estava silenciosa demais. Nem o som dos carros no asfalto chegava até o quarto de Cecília. Ela se revirava na cama, inquieta, o lençol embolado entre as pernas, o corpo suado mesmo com o vento frio que entrava pela janela. No sonho, ela o via. FK. O olhar dele — intenso, firme, aquele olhar que parecia atravessar a alma. Ele se aproximava devagar, e ela sentia o coração bater descompassado. Podia sentir o toque das mãos dele, o cheiro de cigarro e perfume misturados, o calor do corpo. Mas, de repente, o cenário mudava. O rosto dele ficava distante, frio, o olhar sem vida. Ele se afastava. E o som das motos, dos tiros, e do morro em caos tomava conta de tudo. Cecília acordou num sobressalto. O peito subindo e descendo rápido, o coração disparado. Passou a mão pelo rosto suado e olhou pro teto, tentando se convencer de que era só um sonho. Mas não era só isso. Era falta. Era saudade. Era o eco de algo que ela não queria sentir — e não conseguia esquecer. Levantou-se, foi até a janela e olhou o morro iluminado por luzes dispersas. Lá embaixo, a Rocinha seguia viva, barulhenta, caótica. Mas dentro dela, tudo parecia em silêncio. — Preciso esquecer ele… — sussurrou pra si mesma, apertando o tecido da cortina entre os dedos. Só que o coração não obedecia. Cada lembrança vinha com força: o som da voz dele, o toque, o jeito que o mundo parecia parar quando ele a olhava. E o pior de tudo era saber que ele estava ali, em algum ponto do morro, respirando o mesmo ar — mas distante como se fosse de outro mundo. Deitou-se de novo, virando pro lado, o travesseiro contra o peito. Mas o sono não veio. Porque quando fechava os olhos, ele ainda estava lá. --- O cheiro de comida caseira se espalhava pelo ar. O restaurante da dona Ivonete estava cheio, como sempre — gente conversando alto, risadas, crianças correndo entre as mesas. O som do morro ali dentro era mais suave, misturado ao tilintar de talheres e ao barulho da panela no fogo. Cecília entrou devagar, cumprimentando uma das garçonetes e logo avistou Maia e Carla sentadas no canto, com Miguel no colo risonho da tia. O menino gargalhava alto, brincando com os cabelos de Carla, enquanto ela tentava comer com a outra mão. — Olha quem resolveu dar as caras! — disse Maia, acenando com o copo de suco. — Achei que tu tinha sumido, Cê. Cecília sorriu, tentando disfarçar o cansaço. — Tava só trabalhando demais, Maia. Essas trocas de turno acabam comigo. Carla olhou pra ela com doçura. — Tu tá pálida, mulher. Come alguma coisa antes que desmaie. — Já vou pedir — respondeu, sentando-se. Miguel estendeu os bracinhos pra Cecília, que não resistiu e o pegou no colo. — Você tá cada dia mais lindo, sabia? — disse ela, beijando a bochecha dele. O garoto riu, se aconchegando contra o peito dela. — É o xodó da casa — comentou Carla, sorrindo. — O PH mima tanto esse menino que daqui a pouco ele vira patrão aqui no restaurante. — Falando em PH — disse Maia, abaixando o tom de voz —, ele comentou que o FK anda impossível esses dias. Cecília congelou por um segundo, mas tentou manter o tom leve. — Como assim? — Mais frio do que o normal — explicou Maia. — Disseram que ele não fala com quase ninguém, só trabalha, e o clima na boca tá pesado. Carla suspirou, balançando a cabeça. — Também, né? O morro todo anda comentando umas coisas… melhor nem repetir. Cecília desviou o olhar, apertando Miguel no colo. — É, melhor não mesmo — murmurou, tentando disfarçar o aperto no peito. O tempo passou entre risadas e conversas simples. Maia falava dos estudos, Carla ria das maluquices de PH, e Cecília apenas observava, sorrindo de leve — tentando acreditar que aquele momento de paz era o suficiente. Mas, por dentro, ela sabia: aquele silêncio do FK doía mais do que qualquer palavra dita. --- Nesse momento, a porta se abriu e Tiago entrou. Trazia aquele sorriso fácil e o olhar firme de sempre. Ele caminhou até a mesa, beijou Maia nos lábios, deixando-a sem graça com as risadinhas das amigas. — Boa tarde, meninas — disse ele, puxando uma cadeira. — Pensei que ia ter que procurar vocês pelo morro inteiro. — A gente veio se esconder da vida — respondeu Maia, ainda corada. — E comer bem — completou Carla, rindo. — Porque só aqui a Ivonete alimenta a alma e o estômago. Tiago pegou um pastel do prato de Maia e mordeu, provocando-a. — Isso é roubo, Tiago! — reclamou ela, batendo de leve no ombro dele. — É amor — respondeu, sorrindo de canto. — Dividir comida é prova de afeto. Todos riram. Mas Cecília, entre risadas e olhares, ficou em silêncio por um instante. Assistiu aos dois trocando carinhos e sentiu um aperto no peito — não de inveja, mas de lembrança. Lembrança do toque, do olhar, do calor que FK deixara nela. Ela desviou o olhar, fingindo interesse na comida, enquanto o coração batia apressado. O resto da tarde seguiu leve — risadas, provocações, histórias antigas. --- O sol já se escondia atrás dos morros, tingindo o céu de laranja e lilás quando Cecília e Carla deixaram o restaurante da dona Ivonete. O ar da tarde estava morno, com cheiro de terra e fumaça subindo das casas — aquele perfume típico do fim de dia no morro. As duas caminhavam lado a lado, subindo as vielas iluminadas por postes piscando. Cecília levava uma sacolinha com doces que Ivonete havia insistido pra ela levar. — Tu andou sumida, mana — disse Carla, ajeitando o cabelo. — Até o Miguel estranhou. Cecília sorriu de canto. — Eu tô bem, só cansada mesmo. — Cansada demais pra viver? — provocou a irmã, rindo. — Tu só trabalha, Cecília. — É o que tem pra hoje — respondeu, meio sem humor. — O trabalho não me decepciona. Carla riu alto, balançando a cabeça. — Tu fala como se fosse uma velha de sessenta anos. — Às vezes eu me sinto uma — retrucou Cecília, tentando acompanhar o ritmo dela na subida. Por um instante, ficaram em silêncio. O som distante de um funk estourava de algum beco mais acima, misturado ao vozerio da noite que começava. Carla olhou de lado, com um sorriso travesso. — Sabe o que tu precisa? — perguntou, segurando o braço da irmã. — Nem vem, Carla. — Um baile. — Ela deu um passo à frente, empolgada. — Sábado vai ter um lá na quadra, e eu já tô me arrumando desde agora. — Carla... — Sem desculpa! Tu vai comigo, ouviu? — insistiu, animada. — Vai dançar, rir, esquecer esse olhar triste que tu anda carregando. Cecília deu uma risada leve, sacudindo a cabeça. — Eu não sei se tô nesse clima, não. — Tu nunca tá, Cê. — Carla fez uma pausa e pegou a mão dela. — Mas às vezes é no meio da bagunça que a gente lembra que tá viva. Cecília respirou fundo, pensativa. O som da música ao longe parecia chamá-la, e uma parte dela — aquela que queria esquecer o nome de FK, o gosto do beijo e o silêncio que ele deixara — quase respondeu ao chamado. — Tá bom, Carla. — Ela sorriu de leve. — Sábado eu vou. Carla gritou de alegria, abraçando a irmã no meio da rua. — Eu sabia! Tu vai ver, vai ser bom pra ti. — Espero que sim — murmurou Cecília, olhando pro alto, como quem fazia um pedido pra noite. ---
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