A noite estava silenciosa demais.
Nem o som dos carros no asfalto chegava até o quarto de Cecília.
Ela se revirava na cama, inquieta, o lençol embolado entre as pernas, o corpo suado mesmo com o vento frio que entrava pela janela.
No sonho, ela o via.
FK.
O olhar dele — intenso, firme, aquele olhar que parecia atravessar a alma.
Ele se aproximava devagar, e ela sentia o coração bater descompassado.
Podia sentir o toque das mãos dele, o cheiro de cigarro e perfume misturados, o calor do corpo.
Mas, de repente, o cenário mudava.
O rosto dele ficava distante, frio, o olhar sem vida.
Ele se afastava.
E o som das motos, dos tiros, e do morro em caos tomava conta de tudo.
Cecília acordou num sobressalto.
O peito subindo e descendo rápido, o coração disparado.
Passou a mão pelo rosto suado e olhou pro teto, tentando se convencer de que era só um sonho.
Mas não era só isso.
Era falta.
Era saudade.
Era o eco de algo que ela não queria sentir — e não conseguia esquecer.
Levantou-se, foi até a janela e olhou o morro iluminado por luzes dispersas.
Lá embaixo, a Rocinha seguia viva, barulhenta, caótica.
Mas dentro dela, tudo parecia em silêncio.
— Preciso esquecer ele… — sussurrou pra si mesma, apertando o tecido da cortina entre os dedos.
Só que o coração não obedecia.
Cada lembrança vinha com força: o som da voz dele, o toque, o jeito que o mundo parecia parar quando ele a olhava.
E o pior de tudo era saber que ele estava ali, em algum ponto do morro, respirando o mesmo ar — mas distante como se fosse de outro mundo.
Deitou-se de novo, virando pro lado, o travesseiro contra o peito.
Mas o sono não veio.
Porque quando fechava os olhos, ele ainda estava lá.
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O cheiro de comida caseira se espalhava pelo ar.
O restaurante da dona Ivonete estava cheio, como sempre — gente conversando alto, risadas, crianças correndo entre as mesas.
O som do morro ali dentro era mais suave, misturado ao tilintar de talheres e ao barulho da panela no fogo.
Cecília entrou devagar, cumprimentando uma das garçonetes e logo avistou Maia e Carla sentadas no canto, com Miguel no colo risonho da tia.
O menino gargalhava alto, brincando com os cabelos de Carla, enquanto ela tentava comer com a outra mão.
— Olha quem resolveu dar as caras! — disse Maia, acenando com o copo de suco. — Achei que tu tinha sumido, Cê.
Cecília sorriu, tentando disfarçar o cansaço. — Tava só trabalhando demais, Maia. Essas trocas de turno acabam comigo.
Carla olhou pra ela com doçura. — Tu tá pálida, mulher. Come alguma coisa antes que desmaie.
— Já vou pedir — respondeu, sentando-se.
Miguel estendeu os bracinhos pra Cecília, que não resistiu e o pegou no colo.
— Você tá cada dia mais lindo, sabia? — disse ela, beijando a bochecha dele.
O garoto riu, se aconchegando contra o peito dela.
— É o xodó da casa — comentou Carla, sorrindo. — O PH mima tanto esse menino que daqui a pouco ele vira patrão aqui no restaurante.
— Falando em PH — disse Maia, abaixando o tom de voz —, ele comentou que o FK anda impossível esses dias.
Cecília congelou por um segundo, mas tentou manter o tom leve. — Como assim?
— Mais frio do que o normal — explicou Maia. — Disseram que ele não fala com quase ninguém, só trabalha, e o clima na boca tá pesado.
Carla suspirou, balançando a cabeça. — Também, né? O morro todo anda comentando umas coisas… melhor nem repetir.
Cecília desviou o olhar, apertando Miguel no colo.
— É, melhor não mesmo — murmurou, tentando disfarçar o aperto no peito.
O tempo passou entre risadas e conversas simples.
Maia falava dos estudos, Carla ria das maluquices de PH, e Cecília apenas observava, sorrindo de leve — tentando acreditar que aquele momento de paz era o suficiente.
Mas, por dentro, ela sabia: aquele silêncio do FK doía mais do que qualquer palavra dita.
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Nesse momento, a porta se abriu e Tiago entrou.
Trazia aquele sorriso fácil e o olhar firme de sempre.
Ele caminhou até a mesa, beijou Maia nos lábios, deixando-a sem graça com as risadinhas das amigas.
— Boa tarde, meninas — disse ele, puxando uma cadeira. — Pensei que ia ter que procurar vocês pelo morro inteiro.
— A gente veio se esconder da vida — respondeu Maia, ainda corada.
— E comer bem — completou Carla, rindo. — Porque só aqui a Ivonete alimenta a alma e o estômago.
Tiago pegou um pastel do prato de Maia e mordeu, provocando-a.
— Isso é roubo, Tiago! — reclamou ela, batendo de leve no ombro dele.
— É amor — respondeu, sorrindo de canto. — Dividir comida é prova de afeto.
Todos riram.
Mas Cecília, entre risadas e olhares, ficou em silêncio por um instante.
Assistiu aos dois trocando carinhos e sentiu um aperto no peito — não de inveja, mas de lembrança.
Lembrança do toque, do olhar, do calor que FK deixara nela.
Ela desviou o olhar, fingindo interesse na comida, enquanto o coração batia apressado.
O resto da tarde seguiu leve — risadas, provocações, histórias antigas.
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O sol já se escondia atrás dos morros, tingindo o céu de laranja e lilás quando Cecília e Carla deixaram o restaurante da dona Ivonete.
O ar da tarde estava morno, com cheiro de terra e fumaça subindo das casas — aquele perfume típico do fim de dia no morro.
As duas caminhavam lado a lado, subindo as vielas iluminadas por postes piscando.
Cecília levava uma sacolinha com doces que Ivonete havia insistido pra ela levar.
— Tu andou sumida, mana — disse Carla, ajeitando o cabelo. — Até o Miguel estranhou.
Cecília sorriu de canto. — Eu tô bem, só cansada mesmo.
— Cansada demais pra viver? — provocou a irmã, rindo. — Tu só trabalha, Cecília.
— É o que tem pra hoje — respondeu, meio sem humor. — O trabalho não me decepciona.
Carla riu alto, balançando a cabeça. — Tu fala como se fosse uma velha de sessenta anos.
— Às vezes eu me sinto uma — retrucou Cecília, tentando acompanhar o ritmo dela na subida.
Por um instante, ficaram em silêncio. O som distante de um funk estourava de algum beco mais acima, misturado ao vozerio da noite que começava.
Carla olhou de lado, com um sorriso travesso.
— Sabe o que tu precisa? — perguntou, segurando o braço da irmã.
— Nem vem, Carla.
— Um baile. — Ela deu um passo à frente, empolgada. — Sábado vai ter um lá na quadra, e eu já tô me arrumando desde agora.
— Carla...
— Sem desculpa! Tu vai comigo, ouviu? — insistiu, animada. — Vai dançar, rir, esquecer esse olhar triste que tu anda carregando.
Cecília deu uma risada leve, sacudindo a cabeça. — Eu não sei se tô nesse clima, não.
— Tu nunca tá, Cê. — Carla fez uma pausa e pegou a mão dela. — Mas às vezes é no meio da bagunça que a gente lembra que tá viva.
Cecília respirou fundo, pensativa.
O som da música ao longe parecia chamá-la, e uma parte dela — aquela que queria esquecer o nome de FK, o gosto do beijo e o silêncio que ele deixara — quase respondeu ao chamado.
— Tá bom, Carla. — Ela sorriu de leve. — Sábado eu vou.
Carla gritou de alegria, abraçando a irmã no meio da rua. — Eu sabia! Tu vai ver, vai ser bom pra ti.
— Espero que sim — murmurou Cecília, olhando pro alto, como quem fazia um pedido pra noite.
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