O sol já nascia quando FK chegou na mansão.
O motor da moto silenciou, mas a raiva dentro dele continuava rugindo. Entrou sem olhar pra ninguém, subiu as escadas com passos firmes e foi direto pro quarto.
Tirou a camisa, jogou em qualquer canto e ficou um tempo em frente ao espelho.
As cicatrizes espalhadas pelo corpo pareciam mais fundas sob a luz fria.
“Eu tô me perdendo nessa porra.”
A voz dele saiu baixa, quase um sussurro.
Sentou-se na beirada da cama, o olhar fixo no chão. Cada lembrança de Cecília — o jeito dela falar baixo, o olhar assustado, o toque tímido — voltava como um soco.
Ele odiava isso.
Odiava sentir.
Pegou o cigarro no criado-mudo, acendeu e tragou fundo, deixando a fumaça escapar pelos lábios com raiva.
— Isso não vai mais acontecer. — murmurou. — Não com ela.
Na cabeça, o plano era simples: afastar-se.
Cortar qualquer laço, qualquer pensamento, qualquer lembrança.
FK já tinha sobrevivido a balas, traições, emboscadas — não ia se deixar abater por uma garota com rosto de anjo e olhos que o desarmavam.
No escritório, horas depois, PH entrou com o mesmo jeito de sempre, tentando quebrar o clima.
— Tá com uma cara de quem quer matar o mundo, irmão.
FK levantou o olhar lentamente.
— É melhor o mundo se manter longe de mim hoje.
PH riu, mas logo percebeu que não era brincadeira.
FK se debruçou sobre os papéis, reorganizando rotas, horários, esquemas — tudo que o fazia manter o controle.
Cada decisão tomada com precisão cirúrgica. Cada ordem dada sem emoção.
Mas, no fundo, o pensamento insistia em voltar pra mesma imagem:
Cecília.
Aquela inocência que ele não podia tocar, mas já tinha marcado.
Ele fechou os punhos, firme.
— Acabou. — disse pra si mesmo, tentando acreditar. — A partir de hoje, ela não existe mais pra mim.
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Já fazia uma semana.
Sete dias sem uma palavra.
Sem uma ligação.
Sem o barulho distante da moto dele ecoando pelas vielas.
Cecília tentava seguir a rotina — acordar cedo, ajudar a mãe, pegar o ônibus pro shopping, voltar tarde — mas o corpo parecia sempre cansado e o peito apertado por algo que ela não sabia explicar.
Naquela tarde de domingo, o sol batia forte na praça da Rocinha. As crianças corriam entre as barracas, o cheiro de churrasquinho misturava-se ao som do funk saindo das caixas de som. Cecília estava sentada num banco, mexendo distraidamente no copo de suco, enquanto Maia falava sem parar.
— Tá diferente, Cê. — disse Maia, mordendo o canudo. — Nem disfarça.
— Diferente como? — Cecília respondeu, forçando um sorriso.
— Desde aquele churrasco… tu anda longe, calada, parece que tua cabeça tá em outro lugar.
Cecília desviou o olhar pro chão.
— É só cansaço, Maia. Tô trabalhando muito.
— Ah, claro — ironizou a amiga, cruzando os braços. — Então é cansaço que faz uma pessoa olhar pro nada com cara de quem perdeu alguma coisa.
Cecília soltou um suspiro.
O vento balançava os fios soltos do cabelo e o som do morro parecia distante.
— Eu só acho que… talvez ele tenha se arrependido.
Maia arqueou a sobrancelha. — Ele quem?
Cecília ficou em silêncio, o coração acelerando.
Maia sorriu de canto, sabendo que a resposta estava ali, mesmo sem ser dita.
— Cê achou mesmo que um cara como ele ia sumir e te avisar antes, Cê? — perguntou com voz mais suave. — Esses caras são assim. Quando percebem que tão sentindo algo, se escondem atrás da própria raiva.
— Eu sei… — Cecília murmurou, mexendo no suco. — Mas dói, Maia. Dói de um jeito que eu nem sei explicar.
— É normal, amiga. — disse a outra, colocando a mão sobre a dela. — Tu se envolveu, é isso. E como nunca teve nada com ninguém antes, é claro que parece maior do que é.
Cecília tentou sorrir, mas a voz falhou.
— Eu não quero esquecer ele, Maia… só queria entender por que parece que ele me apagou.
Maia a abraçou de leve, como quem tenta segurar o que já tá caindo aos pedaços.
E enquanto o sol se escondia atrás dos morros, Cecília sentiu que algo dentro dela também se apagava — devagar, como um fogo que se recusa a morrer.
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A semana começou igual às outras — mas FK não era mais o mesmo.
O olhar dele estava ainda mais duro, o semblante ainda mais fechado.
Era como se tivesse apagado qualquer traço de humanidade que um dia tentou aparecer.
O escritório na boca principal estava em silêncio. Só se ouvia o som do relógio marcando o tempo e o estalar do cigarro entre os dedos dele.
Papéis espalhados pela mesa, mapas do morro, planilhas com rotas e contatos.
Nada escapava da atenção de FK.
— Tem um grupo novo tentando subir pela parte baixa — informou um dos homens, com medo até de respirar. — Dizem que é gente do Pavão.
FK levantou o olhar devagar.
— E o que você tá fazendo aqui ainda? — perguntou frio.
O cara engoliu seco e saiu correndo pra resolver.
PH entrou logo depois, com o semblante cansado, observando o amigo em silêncio por alguns segundos.
— Tu tá pior do que antes, irmão. Nem dorme mais?
FK não respondeu. Continuou escrevendo, a ponta do lápis riscando o papel com força.
— Dormir é perda de tempo — murmurou. — O morro não dorme, eu também não.
PH encostou na parede, cruzando os braços.
— Tu tá se afundando nisso tudo, FK.
— Tô me mantendo no controle. — ele rebateu seco. — Isso aqui é o que eu sou.
O amigo suspirou, sabendo que insistir era inútil.
Desde aquela noite, FK não sorria, não falava mais do que o necessário e não deixava ninguém se aproximar.
Nem Juliana. Nem Tiago.
Nem mesmo PH, que o conhecia desde moleque.
À noite, FK subiu até o terraço da mansão.
De lá, via o morro inteiro — as luzes piscando, o barulho distante das vielas, o cheiro de pólvora misturado com fumaça e álcool.
Aquele era o império dele.
Tudo que construiu com sangue, perda e medo.
Mas, pela primeira vez, aquilo parecia vazio.
O poder, o respeito, o medo — nada pesava tanto quanto o silêncio que vinha quando ele lembrava do rosto de Cecília.
Ele tragou o cigarro devagar, o olhar perdido no horizonte.
— Sentimento é fraqueza. — murmurou pra si mesmo. — E fraqueza, aqui, mata.
E com esse pensamento, ele apagou o cigarro na própria mão, como quem se pune por sentir.
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