Capítulo 22 - Fraqueza

1109 Palavras
O sol já nascia quando FK chegou na mansão. O motor da moto silenciou, mas a raiva dentro dele continuava rugindo. Entrou sem olhar pra ninguém, subiu as escadas com passos firmes e foi direto pro quarto. Tirou a camisa, jogou em qualquer canto e ficou um tempo em frente ao espelho. As cicatrizes espalhadas pelo corpo pareciam mais fundas sob a luz fria. “Eu tô me perdendo nessa porra.” A voz dele saiu baixa, quase um sussurro. Sentou-se na beirada da cama, o olhar fixo no chão. Cada lembrança de Cecília — o jeito dela falar baixo, o olhar assustado, o toque tímido — voltava como um soco. Ele odiava isso. Odiava sentir. Pegou o cigarro no criado-mudo, acendeu e tragou fundo, deixando a fumaça escapar pelos lábios com raiva. — Isso não vai mais acontecer. — murmurou. — Não com ela. Na cabeça, o plano era simples: afastar-se. Cortar qualquer laço, qualquer pensamento, qualquer lembrança. FK já tinha sobrevivido a balas, traições, emboscadas — não ia se deixar abater por uma garota com rosto de anjo e olhos que o desarmavam. No escritório, horas depois, PH entrou com o mesmo jeito de sempre, tentando quebrar o clima. — Tá com uma cara de quem quer matar o mundo, irmão. FK levantou o olhar lentamente. — É melhor o mundo se manter longe de mim hoje. PH riu, mas logo percebeu que não era brincadeira. FK se debruçou sobre os papéis, reorganizando rotas, horários, esquemas — tudo que o fazia manter o controle. Cada decisão tomada com precisão cirúrgica. Cada ordem dada sem emoção. Mas, no fundo, o pensamento insistia em voltar pra mesma imagem: Cecília. Aquela inocência que ele não podia tocar, mas já tinha marcado. Ele fechou os punhos, firme. — Acabou. — disse pra si mesmo, tentando acreditar. — A partir de hoje, ela não existe mais pra mim. --- Já fazia uma semana. Sete dias sem uma palavra. Sem uma ligação. Sem o barulho distante da moto dele ecoando pelas vielas. Cecília tentava seguir a rotina — acordar cedo, ajudar a mãe, pegar o ônibus pro shopping, voltar tarde — mas o corpo parecia sempre cansado e o peito apertado por algo que ela não sabia explicar. Naquela tarde de domingo, o sol batia forte na praça da Rocinha. As crianças corriam entre as barracas, o cheiro de churrasquinho misturava-se ao som do funk saindo das caixas de som. Cecília estava sentada num banco, mexendo distraidamente no copo de suco, enquanto Maia falava sem parar. — Tá diferente, Cê. — disse Maia, mordendo o canudo. — Nem disfarça. — Diferente como? — Cecília respondeu, forçando um sorriso. — Desde aquele churrasco… tu anda longe, calada, parece que tua cabeça tá em outro lugar. Cecília desviou o olhar pro chão. — É só cansaço, Maia. Tô trabalhando muito. — Ah, claro — ironizou a amiga, cruzando os braços. — Então é cansaço que faz uma pessoa olhar pro nada com cara de quem perdeu alguma coisa. Cecília soltou um suspiro. O vento balançava os fios soltos do cabelo e o som do morro parecia distante. — Eu só acho que… talvez ele tenha se arrependido. Maia arqueou a sobrancelha. — Ele quem? Cecília ficou em silêncio, o coração acelerando. Maia sorriu de canto, sabendo que a resposta estava ali, mesmo sem ser dita. — Cê achou mesmo que um cara como ele ia sumir e te avisar antes, Cê? — perguntou com voz mais suave. — Esses caras são assim. Quando percebem que tão sentindo algo, se escondem atrás da própria raiva. — Eu sei… — Cecília murmurou, mexendo no suco. — Mas dói, Maia. Dói de um jeito que eu nem sei explicar. — É normal, amiga. — disse a outra, colocando a mão sobre a dela. — Tu se envolveu, é isso. E como nunca teve nada com ninguém antes, é claro que parece maior do que é. Cecília tentou sorrir, mas a voz falhou. — Eu não quero esquecer ele, Maia… só queria entender por que parece que ele me apagou. Maia a abraçou de leve, como quem tenta segurar o que já tá caindo aos pedaços. E enquanto o sol se escondia atrás dos morros, Cecília sentiu que algo dentro dela também se apagava — devagar, como um fogo que se recusa a morrer. --- A semana começou igual às outras — mas FK não era mais o mesmo. O olhar dele estava ainda mais duro, o semblante ainda mais fechado. Era como se tivesse apagado qualquer traço de humanidade que um dia tentou aparecer. O escritório na boca principal estava em silêncio. Só se ouvia o som do relógio marcando o tempo e o estalar do cigarro entre os dedos dele. Papéis espalhados pela mesa, mapas do morro, planilhas com rotas e contatos. Nada escapava da atenção de FK. — Tem um grupo novo tentando subir pela parte baixa — informou um dos homens, com medo até de respirar. — Dizem que é gente do Pavão. FK levantou o olhar devagar. — E o que você tá fazendo aqui ainda? — perguntou frio. O cara engoliu seco e saiu correndo pra resolver. PH entrou logo depois, com o semblante cansado, observando o amigo em silêncio por alguns segundos. — Tu tá pior do que antes, irmão. Nem dorme mais? FK não respondeu. Continuou escrevendo, a ponta do lápis riscando o papel com força. — Dormir é perda de tempo — murmurou. — O morro não dorme, eu também não. PH encostou na parede, cruzando os braços. — Tu tá se afundando nisso tudo, FK. — Tô me mantendo no controle. — ele rebateu seco. — Isso aqui é o que eu sou. O amigo suspirou, sabendo que insistir era inútil. Desde aquela noite, FK não sorria, não falava mais do que o necessário e não deixava ninguém se aproximar. Nem Juliana. Nem Tiago. Nem mesmo PH, que o conhecia desde moleque. À noite, FK subiu até o terraço da mansão. De lá, via o morro inteiro — as luzes piscando, o barulho distante das vielas, o cheiro de pólvora misturado com fumaça e álcool. Aquele era o império dele. Tudo que construiu com sangue, perda e medo. Mas, pela primeira vez, aquilo parecia vazio. O poder, o respeito, o medo — nada pesava tanto quanto o silêncio que vinha quando ele lembrava do rosto de Cecília. Ele tragou o cigarro devagar, o olhar perdido no horizonte. — Sentimento é fraqueza. — murmurou pra si mesmo. — E fraqueza, aqui, mata. E com esse pensamento, ele apagou o cigarro na própria mão, como quem se pune por sentir. ---
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR