O ônibus desceu o morro já no começo da noite, o céu pintado num tom avermelhado e pesado.
Cecília vinha cansada, o corpo doendo depois de um turno longo no shopping.
Tudo o que ela queria era tomar um banho e dormir.
Mas assim que empurrou o portão e entrou em casa, sentiu o ar diferente.
Tinha algo no ambiente.
Algo que cheirava a confusão.
Carla estava sentada no sofá, folheando uma revista velha.
Clara, de braços cruzados, encostada na parede, com o olhar ferino.
— Finalmente resolveu aparecer — disse Clara, a voz carregada de ironia. — Ou será que veio direto da casa dele?
Cecília parou, o coração disparando.
— Do que você tá falando?
Clara deu um sorriso torto.
— Ah, não se faz de sonsa, não. A Juliana passou aqui mais cedo. Disse que viu você saindo da casa do FK… esses dias de manhã.
O sangue sumiu do rosto de Cecília.
Ela sentiu as pernas vacilarem, mas manteve o tom firme.
— E desde quando você dá ouvidos pra essa mulher?
— Desde que ela falou o que todo mundo já comenta. — Clara avançou um passo, os olhos brilhando de raiva. — Que o chefão da boca agora tem dona. E que a santinha do morro é mais esperta do que parece.
Cecília fechou os punhos, a voz embargada.
— Você tá passando dos limites.
— Eu? — Clara riu alto, amarga. — Eu só tô dizendo a verdade. Cê sempre foi a queridinha da mamãe, a quietinha, a certinha. E agora que tá com o FK, acha que é melhor do que eu, né?
Cecília piscou, confusa e ferida.
— Eu não acho nada disso, Clara.
Mas a irmã não ouviu.
A raiva dela já tinha virado veneno.
— Cê teve o que eu sempre quis! — gritou Clara, a voz quebrando. — Queria ver se ele olhava pra mim do jeito que olhou pra você naquela festa!
O silêncio que veio depois cortou o ar.
Carla se levantou, assustada.
— Gente, para com isso…
Cecília respirou fundo, lutando pra segurar as lágrimas.
— Eu não escolhi nada disso, Clara.
E saiu andando pro quarto antes que a dor virasse grito.
Trancou a porta, encostou a testa na parede e deixou as lágrimas caírem devagar.
Porque, no fundo, sabia que Juliana não ia parar por ali.
E que, cedo ou tarde, o morro inteiro saberia o que ela e FK tinham feito naquela noite.
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Cecília estava sentada na mureta da praça, mexendo distraidamente no canudo do copo de suco.
O sol de fim de tarde deixava o céu em tons alaranjados, e o burburinho das crianças brincando soava distante.
Ao lado dela, Maia mastigava um pastel, observando a amiga com atenção.
— Tu tá pálida, Cê. — disse, limpando os dedos num guardanapo. — Aconteceu alguma coisa?
Cecília respirou fundo, a voz baixa.
— Aconteceu. A Juliana foi lá em casa. Disse pra minha irmã que me viu saindo da casa do FK…
— Eita. — Maia arregalou os olhos, engolindo seco. — A Clara surtou, né?
Cecília deu um riso sem graça.
— Disse um monte. Disse que eu me acho melhor do que ela, que queria estar no meu lugar. Eu… eu nem sei o que responder.
Maia balançou a cabeça, apoiando o cotovelo no joelho.
— Clara sempre foi explosiva, tu sabe. Mas relaxa, amiga, isso não vai se espalhar.
— Como você pode ter tanta certeza? — Cecília perguntou, aflita.
Maia deu um meio sorriso cheio de malícia.
— Porque a Juliana não é burra. Ela pode ser barraqueira, mas não vai jogar merda no ventilador.
— Por quê?
— Porque se o povo souber que o FK “trocou” ela por outra, ela perde a pose. — Maia explicou, dando um gole no refrigerante. — Ela gosta de aparecer, mas não de se queimar.
Cecília abaixou o olhar, pensativa.
— Mesmo assim… tenho medo.
Maia passou o braço por cima dos ombros da amiga, apertando de leve.
— Tu não fez nada errado, Cê. E outra… o FK não é qualquer um. Se ele quiser, cala a boca de todo mundo.
Cecília mordeu o lábio, o coração batendo rápido só de ouvir o nome dele.
— Eu não quero confusão.
— Confusão já tem, amiga. — Maia suspirou, olhando o horizonte. — Agora o que tu tem que decidir é se vai fugir dela ou encarar de cabeça erguida.
Cecília ficou em silêncio por um tempo, olhando o sol se esconder atrás dos barracos coloridos do morro.
Sabia que Maia tinha razão.
Mas encarar o que vinha pela frente exigiria mais coragem do que ela imaginava ter.
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A noite caía devagar sobre o morro, e o vento frio fazia Cecília apertar os braços contra o corpo enquanto descia uma viela estreita, voltando pra casa. As luzes fracas dos postes piscavam, e o som distante de um baile ecoava em alguma laje próxima.
Ela ainda pensava nas palavras de Maia — “encarar de cabeça erguida” — quando um farol de moto iluminou o beco.
O coração dela acelerou antes mesmo de ver o rosto.
A moto parou bem à frente dela.
FK tirou o capacete, o olhar queimando — uma mistura de tensão e raiva contida.
— Tá ficando esperta demais pra andar por aí sozinha, não tá, Cecília? — a voz dele soou seca, carregada de ironia.
— Só tô voltando pra casa, FK. — respondeu, tentando manter a calma.
Ele deu um passo pra perto, o olhar duro. — Vi tu rindo lá na praça… com o Tiago. E aquele outro moleque.
Cecília franziu a testa, surpresa. — Você tava lá?
— Eu vejo tudo o que me interessa. — ele rebateu, aproximando-se mais. — E não gostei do que vi.
— Você não tem o direito de... — ela começou, mas ele já estava perto demais.
De repente, FK segurou o rosto dela com firmeza e a beijou.
O beijo foi intenso, desesperado — um turbilhão de ciúme, desejo e raiva misturados.
Cecília tentou resistir, mas as mãos dele a puxaram com força, e o corpo respondeu antes da mente.
Quando ele se afastou, ofegante, ela o empurrou.
— Você não pode fazer isso comigo, FK! — gritou, a voz trêmula. — Não pode me beijar quando quer e me tratar como se eu fosse um erro depois.
O olhar dele escureceu.
— E quem disse que tu é um erro? — respondeu baixo, o maxilar travado. — Eu só não gosto de dividir o que é meu.
Cecília sentiu o peito apertar.
— Eu não sou sua, FK.
O silêncio entre eles foi denso, quase sufocante.
Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante, tentando conter o impulso que crescia dentro dele.
— Vai pra casa, Cecília. — murmurou, por fim. — Antes que eu perca a cabeça de vez.
Sem mais uma palavra, ele subiu na moto e foi embora, deixando o cheiro da gasolina e o coração dela completamente em ruínas.
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