Capítulo 21 - Confusão

1175 Palavras
O ônibus desceu o morro já no começo da noite, o céu pintado num tom avermelhado e pesado. Cecília vinha cansada, o corpo doendo depois de um turno longo no shopping. Tudo o que ela queria era tomar um banho e dormir. Mas assim que empurrou o portão e entrou em casa, sentiu o ar diferente. Tinha algo no ambiente. Algo que cheirava a confusão. Carla estava sentada no sofá, folheando uma revista velha. Clara, de braços cruzados, encostada na parede, com o olhar ferino. — Finalmente resolveu aparecer — disse Clara, a voz carregada de ironia. — Ou será que veio direto da casa dele? Cecília parou, o coração disparando. — Do que você tá falando? Clara deu um sorriso torto. — Ah, não se faz de sonsa, não. A Juliana passou aqui mais cedo. Disse que viu você saindo da casa do FK… esses dias de manhã. O sangue sumiu do rosto de Cecília. Ela sentiu as pernas vacilarem, mas manteve o tom firme. — E desde quando você dá ouvidos pra essa mulher? — Desde que ela falou o que todo mundo já comenta. — Clara avançou um passo, os olhos brilhando de raiva. — Que o chefão da boca agora tem dona. E que a santinha do morro é mais esperta do que parece. Cecília fechou os punhos, a voz embargada. — Você tá passando dos limites. — Eu? — Clara riu alto, amarga. — Eu só tô dizendo a verdade. Cê sempre foi a queridinha da mamãe, a quietinha, a certinha. E agora que tá com o FK, acha que é melhor do que eu, né? Cecília piscou, confusa e ferida. — Eu não acho nada disso, Clara. Mas a irmã não ouviu. A raiva dela já tinha virado veneno. — Cê teve o que eu sempre quis! — gritou Clara, a voz quebrando. — Queria ver se ele olhava pra mim do jeito que olhou pra você naquela festa! O silêncio que veio depois cortou o ar. Carla se levantou, assustada. — Gente, para com isso… Cecília respirou fundo, lutando pra segurar as lágrimas. — Eu não escolhi nada disso, Clara. E saiu andando pro quarto antes que a dor virasse grito. Trancou a porta, encostou a testa na parede e deixou as lágrimas caírem devagar. Porque, no fundo, sabia que Juliana não ia parar por ali. E que, cedo ou tarde, o morro inteiro saberia o que ela e FK tinham feito naquela noite. --- Cecília estava sentada na mureta da praça, mexendo distraidamente no canudo do copo de suco. O sol de fim de tarde deixava o céu em tons alaranjados, e o burburinho das crianças brincando soava distante. Ao lado dela, Maia mastigava um pastel, observando a amiga com atenção. — Tu tá pálida, Cê. — disse, limpando os dedos num guardanapo. — Aconteceu alguma coisa? Cecília respirou fundo, a voz baixa. — Aconteceu. A Juliana foi lá em casa. Disse pra minha irmã que me viu saindo da casa do FK… — Eita. — Maia arregalou os olhos, engolindo seco. — A Clara surtou, né? Cecília deu um riso sem graça. — Disse um monte. Disse que eu me acho melhor do que ela, que queria estar no meu lugar. Eu… eu nem sei o que responder. Maia balançou a cabeça, apoiando o cotovelo no joelho. — Clara sempre foi explosiva, tu sabe. Mas relaxa, amiga, isso não vai se espalhar. — Como você pode ter tanta certeza? — Cecília perguntou, aflita. Maia deu um meio sorriso cheio de malícia. — Porque a Juliana não é burra. Ela pode ser barraqueira, mas não vai jogar merda no ventilador. — Por quê? — Porque se o povo souber que o FK “trocou” ela por outra, ela perde a pose. — Maia explicou, dando um gole no refrigerante. — Ela gosta de aparecer, mas não de se queimar. Cecília abaixou o olhar, pensativa. — Mesmo assim… tenho medo. Maia passou o braço por cima dos ombros da amiga, apertando de leve. — Tu não fez nada errado, Cê. E outra… o FK não é qualquer um. Se ele quiser, cala a boca de todo mundo. Cecília mordeu o lábio, o coração batendo rápido só de ouvir o nome dele. — Eu não quero confusão. — Confusão já tem, amiga. — Maia suspirou, olhando o horizonte. — Agora o que tu tem que decidir é se vai fugir dela ou encarar de cabeça erguida. Cecília ficou em silêncio por um tempo, olhando o sol se esconder atrás dos barracos coloridos do morro. Sabia que Maia tinha razão. Mas encarar o que vinha pela frente exigiria mais coragem do que ela imaginava ter. --- A noite caía devagar sobre o morro, e o vento frio fazia Cecília apertar os braços contra o corpo enquanto descia uma viela estreita, voltando pra casa. As luzes fracas dos postes piscavam, e o som distante de um baile ecoava em alguma laje próxima. Ela ainda pensava nas palavras de Maia — “encarar de cabeça erguida” — quando um farol de moto iluminou o beco. O coração dela acelerou antes mesmo de ver o rosto. A moto parou bem à frente dela. FK tirou o capacete, o olhar queimando — uma mistura de tensão e raiva contida. — Tá ficando esperta demais pra andar por aí sozinha, não tá, Cecília? — a voz dele soou seca, carregada de ironia. — Só tô voltando pra casa, FK. — respondeu, tentando manter a calma. Ele deu um passo pra perto, o olhar duro. — Vi tu rindo lá na praça… com o Tiago. E aquele outro moleque. Cecília franziu a testa, surpresa. — Você tava lá? — Eu vejo tudo o que me interessa. — ele rebateu, aproximando-se mais. — E não gostei do que vi. — Você não tem o direito de... — ela começou, mas ele já estava perto demais. De repente, FK segurou o rosto dela com firmeza e a beijou. O beijo foi intenso, desesperado — um turbilhão de ciúme, desejo e raiva misturados. Cecília tentou resistir, mas as mãos dele a puxaram com força, e o corpo respondeu antes da mente. Quando ele se afastou, ofegante, ela o empurrou. — Você não pode fazer isso comigo, FK! — gritou, a voz trêmula. — Não pode me beijar quando quer e me tratar como se eu fosse um erro depois. O olhar dele escureceu. — E quem disse que tu é um erro? — respondeu baixo, o maxilar travado. — Eu só não gosto de dividir o que é meu. Cecília sentiu o peito apertar. — Eu não sou sua, FK. O silêncio entre eles foi denso, quase sufocante. Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante, tentando conter o impulso que crescia dentro dele. — Vai pra casa, Cecília. — murmurou, por fim. — Antes que eu perca a cabeça de vez. Sem mais uma palavra, ele subiu na moto e foi embora, deixando o cheiro da gasolina e o coração dela completamente em ruínas. ---
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