Capítulo 20 - Descontrole

1180 Palavras
O escritório cheirava a fumaça e pólvora. O relógio de parede marcava quase meia-noite, e FK estava encostado na mesa, com o olhar perdido nas telas que mostravam as câmeras espalhadas pelo morro. Nada escapava dele. Nem um passo, nem um olhar. Mas, naquela noite, o que o corroía não vinha das ruas. PH entrou, jogando o boné sobre o sofá. — A movimentação tá tranquila, chefe. A boca girou bem hoje. — falou, tentando quebrar o silêncio. — Mas aquele fornecedor lá do Complexo atrasou o pagamento de novo. FK não respondeu. Continuava com o olhar fixo na tela, os olhos cor de mel frios como pedra. PH percebeu a tensão no ar, mas seguiu o relatório. — Eu posso resolver isso amanhã. Dou um susto leve neles, nada demais. O som de vidro se estilhaçando cortou o ambiente. FK havia jogado o copo contra a parede com tanta força que os estilhaços voaram por todo lado. PH arregalou os olhos, erguendo as mãos. — Ô, calma aí, mano. O que foi? — Cê acha que eu quero susto leve? — FK respondeu, a voz grave, controlada, porém carregada de fúria contida. Deu um passo à frente, os músculos do pescoço tensos. — Eu quero resultado, PH. Eu quero tudo rodando sem erro. Entendeu? PH assentiu rápido. — Entendi, chefe. Só não precisa quebrar o escritório todo pra isso, pô. FK respirou fundo, tentando disfarçar o descontrole. Pegou o maço de cigarro, acendeu um, e puxou o ar com força. O silêncio voltou a dominar o espaço, pesado. PH o observava de canto de olho, notando algo estranho — aquela raiva não era só por causa do fornecedor. — Tá tudo bem, chefe? — perguntou, cauteloso. FK soltou a fumaça devagar, sem encará-lo. — Tá tudo sob controle. Mas o olhar dele, frio e distante, dizia o contrário. As veias do braço ainda pulsavam, o maxilar trincado. E, no fundo da mente, a imagem insistente: Cecília sorrindo. Aquele riso leve, o olhar calmo, a presença de outro homem ao lado dela. Não era dele. E isso o consumia. PH percebeu que era melhor não insistir. Deu dois passos pra trás, ajeitando o boné. — Fechou, chefe. Amanhã cedo a gente resolve. FK assentiu, sem olhar. E quando ficou sozinho de novo, esmagou o cigarro no cinzeiro e murmurou, baixo, como se tentasse convencer a si mesmo: — Tá tudo sob controle. Mas ele sabia que não estava. Não quando se tratava dela. --- O escritório estava em silêncio quando Juliana entrou sem bater. O salto alto dela ecoou no piso frio, e FK ergueu o olhar, impaciente. — Que que cê tá fazendo aqui, Juliana? — perguntou, seco, enquanto apagava o cigarro no cinzeiro. Ela deu um sorriso provocante, se aproximando devagar. — Vim matar a saudade. Você anda sumido, FK. Nem parece o mesmo. Ele bufou, virando a cadeira pra frente. — Tô ocupado. Some daqui. Juliana se inclinou sobre a mesa, o perfume doce invadindo o ar. — Ocupado com o quê? Porque comigo você sempre dava um jeito... FK a fitou com os olhos duros, o maxilar travado. Juliana sorriu, achando que ele estava cedendo, e deslizou a mão pelo braço dele. — Eu senti sua falta, bebê. De repente, FK se levantou e a puxou pela cintura, o movimento rápido, instintivo. Ela sorriu, achando que tinha vencido, e encostou os lábios nos dele. O beijo aconteceu — mas durou pouco. Muito pouco. No instante seguinte, FK a empurrou com força, a cadeira atrás caindo no impacto. O olhar dele era puro ódio. — Sai daqui. — disse, com a voz rouca e baixa, o tom que gelava qualquer um. Juliana tropeçou, assustada. — O que foi agora, FK? — tentou rir, mas a voz saiu trêmula. — Tu que me puxou, e agora tá me tratando assim? — Eu disse pra sair. — repetiu ele, o olhar ardendo de fúria. Juliana sentiu o medo e recuou, mas antes de sair, arriscou: — Tá nervosinho demais… é por causa daquela santinha, né? Aquela Cecília? FK deu um passo à frente, e ela entendeu o recado. Saiu apressada, batendo a porta. O silêncio voltou a dominar o escritório. FK respirava fundo, as mãos tremendo de raiva. Passou as duas mãos no rosto e olhou pro reflexo escuro da janela. — Que merda tá acontecendo comigo? — murmurou, baixo, quase sem voz. Mas ele sabia a resposta. Cecília. Era ela que estava bagunçando tudo. --- O relógio marcava quase uma da manhã quando FK desceu do escritório. O morro estava silencioso — o tipo de silêncio que só existia nas madrugadas entre uma guerra e outra. Ele acendeu um cigarro, encostando no muro de frente pra boca principal. O vento trazia o cheiro de gasolina, fumaça e terra molhada. Mas nada acalmava a raiva que fervia por dentro. PH apareceu pouco depois, bocejando, com o celular no bolso e um copo de café na mão. — Tu ainda aqui, chefe? Pensei que já tinha subido pra casa. FK soltou a fumaça devagar, sem olhar pra ele. — Tava resolvendo uns bagulhos. PH se encostou ao lado dele, observando a rua vazia. — Bagulho tipo o que te fez quebrar copo e quase botar Juliana pra fora aos gritos? — perguntou com um meio sorriso. FK virou o rosto, sério. — Cê anda falando demais, PH. — Eu só tô perguntando, pô. — PH deu um gole no café e continuou. — Porque, sei lá, tu anda estranho. Nervoso, sumido, estourando por qualquer coisa. E isso nunca foi teu jeito. O silêncio ficou pesado por alguns segundos. O cigarro queimava entre os dedos de FK, o olhar distante. — Fala logo o que cê quer dizer. — murmurou ele. PH cruzou os braços, encarando o amigo. — Eu quero dizer que… tem mulher no meio. — E pelo que eu tô vendo, não é qualquer uma. FK soltou uma risada curta, sem humor. — Tu acha mesmo que eu ia perder a cabeça por mulher, PH? — Acho. — respondeu ele, direto. — E vou te dizer mais: essa história tá com cara de ser com a Cecília. O cigarro quase caiu da mão de FK. Ele se virou devagar, os olhos cor de mel faiscando. — Cuidado com o que tu fala. PH não recuou. — Relaxa, irmão. Eu não vou sair espalhando nada. Só tô te dando um toque. Eu conheço tuas reações. E o jeito que tu tem olhado praquela menina… não engana ninguém. FK ficou em silêncio, o maxilar trincado. Jogou o cigarro no chão e o esmagou com o tênis. — Cê tá viajando. — disse, baixo, e virou as costas. — E não quero ouvir esse nome de novo. PH ficou parado, o olhar atento. Ele sabia que tinha acertado em cheio. E, quando viu FK subindo a viela com o corpo tenso e os ombros pesados, soube também que aquele sentimento — fosse lá o que fosse — tinha poder o bastante pra derrubar até o homem mais temido do morro. ---
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR