O escritório cheirava a fumaça e pólvora.
O relógio de parede marcava quase meia-noite, e FK estava encostado na mesa, com o olhar perdido nas telas que mostravam as câmeras espalhadas pelo morro.
Nada escapava dele. Nem um passo, nem um olhar.
Mas, naquela noite, o que o corroía não vinha das ruas.
PH entrou, jogando o boné sobre o sofá.
— A movimentação tá tranquila, chefe. A boca girou bem hoje. — falou, tentando quebrar o silêncio. — Mas aquele fornecedor lá do Complexo atrasou o pagamento de novo.
FK não respondeu. Continuava com o olhar fixo na tela, os olhos cor de mel frios como pedra.
PH percebeu a tensão no ar, mas seguiu o relatório.
— Eu posso resolver isso amanhã. Dou um susto leve neles, nada demais.
O som de vidro se estilhaçando cortou o ambiente.
FK havia jogado o copo contra a parede com tanta força que os estilhaços voaram por todo lado.
PH arregalou os olhos, erguendo as mãos.
— Ô, calma aí, mano. O que foi?
— Cê acha que eu quero susto leve? — FK respondeu, a voz grave, controlada, porém carregada de fúria contida.
Deu um passo à frente, os músculos do pescoço tensos. — Eu quero resultado, PH. Eu quero tudo rodando sem erro. Entendeu?
PH assentiu rápido.
— Entendi, chefe. Só não precisa quebrar o escritório todo pra isso, pô.
FK respirou fundo, tentando disfarçar o descontrole.
Pegou o maço de cigarro, acendeu um, e puxou o ar com força.
O silêncio voltou a dominar o espaço, pesado.
PH o observava de canto de olho, notando algo estranho — aquela raiva não era só por causa do fornecedor.
— Tá tudo bem, chefe? — perguntou, cauteloso.
FK soltou a fumaça devagar, sem encará-lo.
— Tá tudo sob controle.
Mas o olhar dele, frio e distante, dizia o contrário.
As veias do braço ainda pulsavam, o maxilar trincado.
E, no fundo da mente, a imagem insistente: Cecília sorrindo.
Aquele riso leve, o olhar calmo, a presença de outro homem ao lado dela.
Não era dele.
E isso o consumia.
PH percebeu que era melhor não insistir.
Deu dois passos pra trás, ajeitando o boné.
— Fechou, chefe. Amanhã cedo a gente resolve.
FK assentiu, sem olhar.
E quando ficou sozinho de novo, esmagou o cigarro no cinzeiro e murmurou, baixo, como se tentasse convencer a si mesmo:
— Tá tudo sob controle.
Mas ele sabia que não estava.
Não quando se tratava dela.
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O escritório estava em silêncio quando Juliana entrou sem bater.
O salto alto dela ecoou no piso frio, e FK ergueu o olhar, impaciente.
— Que que cê tá fazendo aqui, Juliana? — perguntou, seco, enquanto apagava o cigarro no cinzeiro.
Ela deu um sorriso provocante, se aproximando devagar.
— Vim matar a saudade. Você anda sumido, FK. Nem parece o mesmo.
Ele bufou, virando a cadeira pra frente.
— Tô ocupado. Some daqui.
Juliana se inclinou sobre a mesa, o perfume doce invadindo o ar.
— Ocupado com o quê? Porque comigo você sempre dava um jeito...
FK a fitou com os olhos duros, o maxilar travado.
Juliana sorriu, achando que ele estava cedendo, e deslizou a mão pelo braço dele.
— Eu senti sua falta, bebê.
De repente, FK se levantou e a puxou pela cintura, o movimento rápido, instintivo.
Ela sorriu, achando que tinha vencido, e encostou os lábios nos dele.
O beijo aconteceu — mas durou pouco.
Muito pouco.
No instante seguinte, FK a empurrou com força, a cadeira atrás caindo no impacto.
O olhar dele era puro ódio.
— Sai daqui. — disse, com a voz rouca e baixa, o tom que gelava qualquer um.
Juliana tropeçou, assustada.
— O que foi agora, FK? — tentou rir, mas a voz saiu trêmula. — Tu que me puxou, e agora tá me tratando assim?
— Eu disse pra sair. — repetiu ele, o olhar ardendo de fúria.
Juliana sentiu o medo e recuou, mas antes de sair, arriscou:
— Tá nervosinho demais… é por causa daquela santinha, né? Aquela Cecília?
FK deu um passo à frente, e ela entendeu o recado.
Saiu apressada, batendo a porta.
O silêncio voltou a dominar o escritório.
FK respirava fundo, as mãos tremendo de raiva.
Passou as duas mãos no rosto e olhou pro reflexo escuro da janela.
— Que merda tá acontecendo comigo? — murmurou, baixo, quase sem voz.
Mas ele sabia a resposta.
Cecília.
Era ela que estava bagunçando tudo.
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O relógio marcava quase uma da manhã quando FK desceu do escritório.
O morro estava silencioso — o tipo de silêncio que só existia nas madrugadas entre uma guerra e outra.
Ele acendeu um cigarro, encostando no muro de frente pra boca principal.
O vento trazia o cheiro de gasolina, fumaça e terra molhada.
Mas nada acalmava a raiva que fervia por dentro.
PH apareceu pouco depois, bocejando, com o celular no bolso e um copo de café na mão.
— Tu ainda aqui, chefe? Pensei que já tinha subido pra casa.
FK soltou a fumaça devagar, sem olhar pra ele.
— Tava resolvendo uns bagulhos.
PH se encostou ao lado dele, observando a rua vazia.
— Bagulho tipo o que te fez quebrar copo e quase botar Juliana pra fora aos gritos? — perguntou com um meio sorriso.
FK virou o rosto, sério.
— Cê anda falando demais, PH.
— Eu só tô perguntando, pô. — PH deu um gole no café e continuou. — Porque, sei lá, tu anda estranho. Nervoso, sumido, estourando por qualquer coisa. E isso nunca foi teu jeito.
O silêncio ficou pesado por alguns segundos.
O cigarro queimava entre os dedos de FK, o olhar distante.
— Fala logo o que cê quer dizer. — murmurou ele.
PH cruzou os braços, encarando o amigo.
— Eu quero dizer que… tem mulher no meio.
— E pelo que eu tô vendo, não é qualquer uma.
FK soltou uma risada curta, sem humor.
— Tu acha mesmo que eu ia perder a cabeça por mulher, PH?
— Acho. — respondeu ele, direto. — E vou te dizer mais: essa história tá com cara de ser com a Cecília.
O cigarro quase caiu da mão de FK.
Ele se virou devagar, os olhos cor de mel faiscando.
— Cuidado com o que tu fala.
PH não recuou.
— Relaxa, irmão. Eu não vou sair espalhando nada. Só tô te dando um toque. Eu conheço tuas reações. E o jeito que tu tem olhado praquela menina… não engana ninguém.
FK ficou em silêncio, o maxilar trincado.
Jogou o cigarro no chão e o esmagou com o tênis.
— Cê tá viajando. — disse, baixo, e virou as costas. — E não quero ouvir esse nome de novo.
PH ficou parado, o olhar atento.
Ele sabia que tinha acertado em cheio.
E, quando viu FK subindo a viela com o corpo tenso e os ombros pesados, soube também que aquele sentimento — fosse lá o que fosse — tinha poder o bastante pra derrubar até o homem mais temido do morro.
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