O sol já começava a baixar quando Cecília e Maia se sentaram no banco da praça.
O vento leve trazia o cheiro das pipocas e o barulho das crianças brincando no parquinho.
As duas tinham saído do trabalho e parado pra comer um lanche — um daqueles momentos simples que pareciam apagar o peso do dia.
— Tu tá muito calada hoje — disse Maia, mordendo o pastel. — Desde que você saiu do shopping, nem abriu a boca direito.
Cecília sorriu de leve, mexendo no canudo do refrigerante.
— Só tô cansada.
— Cansada ou pensando nele? — provocou Maia, arqueando a sobrancelha.
Cecília desviou o olhar, o rosto corando.
— Tu prometeu que não ia mais tocar nesse assunto.
— Eu prometi nada — respondeu Maia, rindo. — E, sinceramente, eu ainda tô tentando entender o que deu em você. Logo o FK, Cissa. O cara mais fechado, mais perigoso do morro.
Cecília respirou fundo, olhando o movimento da rua.
— Eu sei… mas é diferente quando ele tá comigo. — a voz saiu baixa, quase um sussurro. — Quando eu tô perto dele, parece que o mundo fica… em silêncio, sabe? Eu me sinto segura, mesmo sabendo que não devia.
Maia apoiou o cotovelo no joelho e olhou pra amiga com um misto de carinho e preocupação.
— Segura, Cissa? A gente tá falando do mesmo cara? Aquele que todo mundo tem medo até de cruzar o olhar?
Cecília assentiu devagar.
— Ele é diferente comigo. Eu sei o que dizem dele, mas… comigo ele é calmo. Ele me ouve, me olha como se… como se eu fosse a única pessoa que existe.
Maia suspirou, balançando a cabeça.
— Cissa, presta atenção. Esses caras… eles sabem fazer a gente se sentir especial. É o jeito deles de prender, de dominar. Tu é boa demais pra cair nesse tipo de coisa.
Cecília abaixou o olhar, apertando o copo nas mãos.
— Eu não planejei nada disso, Maia. Só aconteceu.
— Eu sei — respondeu a amiga, a voz agora mais suave. — Mas se protege, tá? Não dá pra confiar em quem vive cercado de arma, dinheiro e sangue.
— Ele pode até te tratar bem, mas o mundo dele é outro, Cissa. E uma hora… esse mundo cobra.
Cecília ficou em silêncio, o olhar perdido no horizonte, o coração dividido entre a razão e o sentimento.
— Eu sei — murmurou. — Mas por mais que eu tente… eu não consigo parar de pensar nele.
Maia suspirou, limpando os dedos num guardanapo.
— Então, pelo menos, promete que vai ter cuidado. Porque se ele te machucar, Cissa… nem eu sei o que vou fazer.
As duas ficaram ali, olhando o céu escurecer aos poucos.
E enquanto a praça se enchia de risadas e luzes, Cecília sabia, no fundo, que nada do que Maia dissesse mudaria o que ela sentia.
Era tarde demais pra voltar atrás.
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As duas ainda estavam rindo da conversa quando a voz familiar de Tiago ecoou por trás do banco:
— Eita, as duas fofocando de novo? — disse ele, se aproximando com um sorriso preguiçoso.
Cecília e Maia se viraram ao mesmo tempo. Tiago usava uma camiseta branca e boné virado pra trás, e ao lado dele vinha um rapaz moreno, alto, com sorriso fácil e olhar curioso.
— A gente não tava fofocando, não — respondeu Maia, rindo. — Só conversando sobre a vida.
— Aham, sei… — brincou Tiago, se abaixando pra beijar a testa da namorada. — Essa aqui é a Cecília, né? A famosa amiga que vive com a Maia desde pirralha.
Cecília sorriu educadamente.
— Sou eu, sim.
— Prazer — disse o amigo, estendendo a mão. — Rafael.
Ela apertou a mão dele, um pouco tímida.
— Prazer também.
— O Rafael é da faculdade — explicou Tiago, sentando-se no banco ao lado das duas. — Moleque é gente boa, tá me ajudando num trabalho.
— Trabalho de direito ou de conquista? — provocou Maia, arqueando a sobrancelha, e todos riram.
Rafael levantou as mãos, fingindo inocência.
— Eu só vim comer um salgado, juro.
A conversa seguiu leve, entre risadas e provocações.
Cecília, que antes estava mergulhada em pensamentos, começou a relaxar. Rafael era simpático, contava histórias engraçadas sobre a faculdade e tirava sorrisos até dela — o que não passava despercebido por Maia.
— Olha só quem tá sorrindo, hein? — cochichou Maia, de canto de boca.
Cecília disfarçou, mordendo o pastel.
— Para com isso, Maia.
— Eu só disse que ele é bonito — respondeu a amiga, rindo. — Não vai me dizer que não percebeu?
Tiago e Rafael riam de uma piada qualquer, e por um momento, Cecília se sentiu leve de novo — como se o mundo fora daquela praça não existisse.
Mas, em algum ponto distante da rua, o ronco grave de uma moto se aproximava.
E, mesmo sem olhar, Cecília sentiu um arrepio subir pela espinha.
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O ronco da moto ecoava pelas vielas estreitas da Rocinha, cortando o som distante das conversas e das músicas que vinham dos bares.
FK pilotava devagar, o olhar atento como sempre — observando tudo, controlando tudo.
Mas, quando passou pela praça principal, algo o fez diminuir a velocidade.
Entre as luzes amareladas e o barulho de gargalhadas, ele viu Cecília.
Ela estava sentada no banco, ao lado de Maia e Tiago, rindo de alguma coisa que um rapaz dizia.
Um riso leve, aberto, desses que FK nunca tinha ouvido dela — e que o atingiu como um soco no estômago.
Ele parou a moto a poucos metros dali, no escuro, o rosto sério, os olhos cor de mel queimando de raiva.
Ficou observando.
O jeito como o tal rapaz falava, como ela abaixava a cabeça rindo, como Tiago parecia à vontade.
Tudo aquilo ferveu dentro dele.
Ela rindo pra outro cara.
Depois de tudo que aconteceu.
A mandíbula dele travou, o punho fechando com força sobre o guidão.
Um dos seguranças de FK, que vinha logo atrás em outra moto, se aproximou.
— Tudo certo, chefe?
FK demorou pra responder. O olhar ainda fixo nela.
— Some daqui. — disse, com a voz baixa, fria.
O segurança não ousou perguntar nada e desapareceu pela viela.
FK ficou ali mais alguns segundos, o coração batendo acelerado — não de amor, mas de raiva.
Ela não podia estar ali, rindo daquele jeito.
Não depois de ter dormido na cama dele.
Não depois de ter olhado pra ele como se o mundo inteiro coubesse nos olhos dela.
Pisou fundo no acelerador, o motor rugindo alto enquanto ele arrancava dali.
O vento batendo forte no rosto não era o bastante pra apagar o que ele sentia.
O ódio.
O ciúme.
O medo de perder o controle — coisa que ele nunca permitiu na vida.
E, pela primeira vez em muito tempo, FK percebeu que não mandava mais em tudo.
Pelo menos, não nela.
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