Naquela manhã tudo havia ficado cinza. O clima do lado de fora estava frio, a chuva caia lentamente, tudo parecia triste. Da mesma forma que Sofia se sentia. Ela via Melissa terminar de arrumar sua pequena mala e embora Melissa estivesse brincando o tempo todo sobre não entender o porquê da mesma não fechar com a mesma facilidade do primeiro dia, nada conseguia arrancar sorrisos de Sofia naquela manhã de quarta feita.
Ela havia tirado uma folga só para que ficasse o tempo todo ao lado de Melissa.
- Você sabe que pode deixar algumas roupas se quiser! - Sofia disse sentada na cama e enrolada nos lençóis.
Elas haviam passado à madrugada transando, não haviam parado nem para um breve cochilo e embora o corpo de ambas pedisse um descanso, ambas se recusavam a fechar os olhos.
Sofia ainda continuava sem roupa enquanto Melissa vestia apenas uma calcinha e uma das blusas da médica, o aquecedor mantinha seus corpos quentes.
- Eu vou deixar sim, não se preocupe com isso. – Melissa sorriu. - K deu sinal de vida?
Tentou mudar de assunto.
- Mandou apenas uma mensagem dizendo que estava tudo bem e que não atendeu porque estava no meio de uma orgia com uma mulher incrível e um garoto gostosão da Inglaterra. - Sofia mencionou e Melissa fez uma careta.
- Karen aparenta ser tão livre que me admira que nunca tenha se apaixonado antes. - Falou enquanto tirava uma peça de roupa que sabia que não iria usar em Miami.
- Ela só aparenta, por que ela já passou por isso antes. - Melissa parou o que estava fazendo para encarar Sofia incrédula. - O quê? Acha que é apenas nós duas que sofremos por amor? – Melissa engoliu em seco, mas sorriu negando com a cabeça.
- É que Karen sempre pareceu autossuficiente que é difícil de imaginar que uma deusa como ela tenha passado por sentimentos tão mundanos. - Brincou.
- E passou... - Sofia disse de forma vaga. - Infelizmente ela passou e foi h******l, talvez tenha sido a pior coisa que tenha acontecido com minha amiga foi ter um coração partido. - Sofia suspirou. - Foram meses naquilo, até que um dia... Ela simplesmente percebeu que não valia à pena e aproveitou as oportunidades que a vida lhe oferecia.
- Karen sempre foi linda, não é à toa que sempre fez sucesso tanto com homens e mulheres. - Melissa tinha um ponto. – Na adolescência, ela parecia um ser superior ao nosso lado e agora eu sempre me sinto intimidada pela presença dela, mas isso não quer dizer que seja r**m; apenas... Meu Deus, tudo o que ela toca ou faz é basicamente humanamente impossível de ser refeito com a mesma perfeição.
- Sim, isso é verdade, mas como eu disse: quando você é fortemente machucado você acaba se tornando inseguro e desconfiado. Não consegue confiar em ninguém e sempre acha que o problema está em você e não nas pessoas... - Sofia pigarreou. - Quando você terminou comigo e disse que eu era bonita, inteligente, incrível e a pessoa mais forte e divertida que você conhecia, eu me quebrei ali mesmo e nem tive noção do que estava acontecendo comigo.
Melissa sentiu uma dor estranha em seu coração. Elas nunca haviam conversado sobre aquela parte do passado por que Melissa não se sentia bem com aquilo e ver a forma que Sofia falava sobre, lhe causou arrepios involuntários.
- O que você quer dizer, amor? – Melissa teve medo.
- Eu me senti insuficiente por que se eu tinha todas aquelas qualidades que você dizia ter e mesmo assim você decidiu ir... Eu me senti insuficiente, Mellz.
- Você não deveria dizer isso!
- Não há problemas em falar sobre isso por que é a verdade e eu precisei superar por que não poderia continuar me sentindo daquela forma. - Ela riu para tranquilizar Melissa. - Eu precisei me ver com outros olhos e tudo bem... Foi dessa forma que Karen talvez tenha se sentindo, embora todos dissessem que ela era linda demais para estar sofrendo por alguém que não lhe merecesse, na mente dela nada fazia sentindo por que a dor te torna dependente do sentimento, da companhia e das emoções. Cada uma de nós precisa de um tempo as vezes e uns tem como válvula de escape o s**o, trabalho, jogos... Qualquer coisa, mas eu me orgulho da pessoa que ela se tornou. Karen montou uma armadura que eu invejei por muitos anos, agora eu vejo o porquê de nunca ter superado você.
Melissa engoliu em seco.
- Por quê?
- Por que o amor não acaba de uma hora para outra ou com o passar dos anos, Mel. Ele fica dentro de você e permanece ali até o momento em que ele é acordado e então as coisas boas surgem. Foi necessário que nós duas passássemos por muitas coisas para estar nesse momento juntas e eu juro por tudo o que é mais sagrado que eu sempre vou ser boa o suficiente para te fazer ficar. - Lá estava a Sofia sensível dos últimos dias.
- Você sempre suficiente para mim. - Melissa se aconchegou nela. - Somos o suficiente uma para a outra e sempre vai ser dessa forma. - Deixou um selinho nos lábios de Sofia. - Agora vamos tomar um banho para comer alguma coisa por que meu voo sai daqui à algumas horas.
Sofia resmungou por Melissa ter lembrado ela daquilo.
O banho foi sem malícia, onde Melissa cuidava de uma Sofia com níveis de carências elevadíssimos. Elas brincaram e sorria o tempo todo, talvez Sofia soubesse que não iria conseguir voltar a dormir naquele quarto pelas próximas noites porque tudo ali gritava o nome de Melissa.
Elas comeram ainda entre riso, onde Hellen contava uma das inúmeras histórias de Sofia sempre se envergonhando em determinado momento do passado e Melissa desejou que aquilo durasse para sempre.
Ela não queria ir e permitir que seu coração ficasse para trás, mas ela não poderia pedir para que Sofia largasse tudo e fosse com ela.
Depois de tudo pronta, Sofia desceu de seu prédio em silêncio. Ela estava segurando firme nas mãos de Melissa e embora tenha cumprimentado o porteiro, ela parecia distante. Quando chegaram em sua vaga, abriu o porta malas e Melissa colocou ali sua mala e a mesma observou Sofia fazer todo o percurso até mesmo abrir a porta do passageiro para Melissa. Deu a volta e se sentou dando ré para sair da vaga e ligar a seta. Logo, estavam na rua e Sofia parecia concentrada no trânsito.
- Você ficou em silêncio de repente. - Melissa disse. - Quer falar sobre esses pensamentos aí? – Sofia olhou para ela rapidamente.
- Eu não queria que você fosse. - Disse de uma vez. - Eu sei que é loucura, mas... Seria tão bom se você ou eu...
Melissa suspirou por que não precisou que Sofia terminasse sua linha de raciocínio para que ela entendesse perfeitamente bem do que ela estava se referindo.
- Eu sei que seria, mas... Lembra que você disse sobre ir com calma? – Melissa perguntou com cuidado. - Veja, não quero que você me interprete m*l, minha maior vontade no momento é ter a força do Superman e voar até Miami, pegar meu SPA no braço e voar para cá junto dele. - Sofia riu e Melissa se sentiu melhor com aquilo. - Você, assim como eu, sabe que para uma empresa como a minha crescer eu preciso estar por perto para que nada saia dos trilhos ou dê errado. Você poderia ir a Cuba para ver como anda as coisas por lá e...
- Você deveria ir comigo, tem parentes lá! - Sofia disse um pouco desesperada.
- Sim, mas a única coisa que temos em comum é o sangue. - Melissa lembrou. - Nada mais do que isso. Então acho que você deveria ver como andam as coisas por lá e ter uma pausa...
- Vou tirar férias e irei até você! - Melissa riu.
- Certo, só me prometa que irá se cuidar? - Melissa tentou mais uma vez.
- Quantas promessas você quer que eu faça? - Sofia perguntou por fim. - Quer dizer, irei me cuidar sim, meu amor... Irei fazer o que você quiser que eu faça.
- Ótimo, me sinto muito melhor ao saber disso!
- i****a! - Sofia riu e logo já estava em silêncio novamente. Mas, infelizmente, haviam chegado ao seu destino. Sofia estacionou seu carro em uma vaga do aeroporto e abriu mais uma vez a porta para Melissa sair.
Elas foram até o painel que mostrava os voos e perceberam que ainda teriam alguns minutinhos às sós. Sentaram nas cadeiras de espera e namoraram mais um pouco. Tiraram inúmeras fotos de diversos tipos apenas para que tivessem mais e mais lembranças daquele instante.
Então houve o primeiro chamado e Sofia fechou os olhos querendo evitar aquele momento. Ela não queria deixar Melissa ir por que permitir aquilo, era fazer com que a saudade voltasse apertar seu peito.
- Chegou a hora, Sofi! - Melissa disse se colocando em pé e Sofia fez o mesmo.
Seus olhos começaram a encher de água e Sofia abraçou Melissa bem apertada começando a soluçar em seu pescoço. Melissa sentiu seu coração quebrar por ter que causar aquilo em Sofia.
- Não chore bebê... – Melissa também começava a chorar. - Nós daremos um jeito e eu prometo que...
- Eu te amo, Mellz... - Sofia sussurrou baixinho no ouvido de Melissa. A mesma sentiu seu corpo tremer e em seu rosto havia um enorme sorriso embora ainda tivesse lágrimas escorrendo pelos seus olhos.
- Eu te amo, Sofi! - Melissa disse com toda a convicção que havia em si. - Me prometa uma coisa?
Sofia fungou.
- O quê?
- Que você vai cuidar do meu coração por que ele está ficando com você! - Sofia abraçou Melissa mais apertado.
- Nunca esqueça o quanto eu amo você! - Sofia relembrou a promessa.
- Nunca esqueça o quanto eu amo você, anjo! – Melissa disse engolindo em seco.
Até que a voz eletrônica lembrou que aquela era a última chamada e que Melissa precisava ir. Com muito custo e com uma enorme tristeza no peito precisou se afastar de Sofia e deixá-la ali chorando e sozinha.
Melissa mandou beijos, limpou suas lágrimas e se segurou para não olhar para trás por que ela sabia que se o fizesse, não iria embora e ela precisava.
Aquela foi à última vez que ela deixaria Sofia, ela prometeu para si mesma por que moveria o céu e o inferno, mas que ela jamais iria deixar Sofia novamente.