Eu desisto

3190 Palavras
  Sarah Montserrat   Eu estava a ponto de deixar minha racionalidade de lado e atacar o juiz com minhas unhas até arrancar seus olhos e esfregá-los na p***a do caderninho.   — Isso não é uma prova. Pelo menos, não uma prova que necessite de outra audiência — Connor ergueu os ombros como quem diz “estou cagando e andando” e fez sinal para eu sair de sua sala.   — Meu paciente era atormentado! Olha isso, precisamos descobrir o que houve!   Connor coçou a barba branca e seus olhos escuros me fitaram.   — Ache mais provas e eu posso pensar no seu caso.   Bufei, engolindo o “babaca filho da p**a” que iria sair.   — Se o detento confessar o que realmente aconteceu, tem como reduzir a pena?   — Não. Não posso acreditar no que um assassino diz — ele balançou a cabeça negativamente — preciso de testemunhas, provas de verdade, não isto — ele bateu o indicador no caderno — isso aqui não vai tirar seu paciente da cadeia.   Eu estava engolindo todos os xingamentos e a vontade de bater com muita força em Connor, mas parecia que uma hora eu iria explodir de raiva e esganá-lo. A única opção que me resta agora é falar com Justin e ver se consigo arrancar algo dele, eu preciso que ele fale o que houve.   — Quero a cópia da gravação da audiência — falei, batendo os dedos na mesa. Tem a gravação no YouTube, mas é péssima.   O juiz riu para si, ele acha que eu estou de brincadeira. Quando eu tiver tudo que prove que meu paciente é mais sensato do que ele, eu vou rir.   — Eu não posso.   Suas palavras foram tão falsas que meu estômago se contorceu e o instinto “mate o velho” voltou.   — Só um minuto — peguei meu emblema do tribunal de justiça e documentos que o parlamento liberou para mim — se você ler o terceiro parágrafo, diz que eu posso exigir quaisquer materiais para o parlamento, pois pode haver erros na pena, pode haver também omissão e é preciso de análises profundas em casos como este. Vamos, lá, excelência — falei com ironia — dê—me.   Parece que ninguém costuma afrontar o homem, ele está quase explodindo de raiva.   — Minha secretária vai ligar pra você quando puder vir buscar.   Sorri com sua relutância ao dizer, assentindo.   — Obrigada, Vossa Senhoria — me levantei, pegando minhas coisas — Até mais ver.   Saí de lá, com mais uma dor de cabeça das grandes.   Onde eu vou encontrar testemunhas? Meu Deus…   (...)   Justin Bieber     Já tinha uns bons dias que a Sarah não aparecia por aqui, comecei a achar que ela nunca mais viria, seria uma merda, quero vê-la.   Para o meu alívio, ela me surpreendeu com um “E aí!” enquanto eu estava limpando o encanamento externo do pátio, a céu aberto.   — Agora é turista? — brinquei, jogando um pouco de água sobre a base suja que estava esfregando.   — Digamos que eu te dei uma folga — Sarah agachou e se sentou ao meu lado, sem se importar de sujar a roupa ou com o mau cheiro — quer ajuda? — perguntou.   Quando eu ia falar que não, ela já estava com um par de luvas de borracha nas mãos. Pegou tão rápido do cesto de produtos de limpeza que eu ao menos notei.   — Não precisa, Sarah, obrigado… vai se sujar — não adiantou falar. Minha psicóloga já havia apanhado outras buchas e sabão.   — Imagina — ela riu, umedecendo uma parte e jogando sabão.   Definitivamente, essa é a mulher mais fascinante do mundo. Que tipo de pessoa se submete a isso? Sarah, claro. Ela é rara, muito rara.   — O que tem feito? — perguntei, percebendo que nunca tinha questionado isso antes.   Surpresa e sorridente, ela engoliu um suspiro.   — Tenho ido até a clínica onde eu trabalho com frequência, conheci seus avós e sua mãe.   Meu coração vazou do peito e pareceu ter entrado entre meus pulmões, obrigando-me a parar de respirar.   — Bom… eles estão me apoiando muito. Com toda determinação de seus avós e do seu pai, há uma pequena esperança de que você vá sair daqui.   Relutante, voltei ao meu trabalho.   — Você quer sair daqui? — Sarah usou as costas das mãos para virar meu rosto para ela, encontrei seu olhar e a fitei por um tempo.   Levantei-me e fui para outro canto do pátio, pegando a mangueira.   Ela percebeu o meu silêncio e se calou, indo pegar uma vassoura.   Nós ficamos longos minutos ali, percebi que ela tentava puxar assunto às vezes, mas quando ia falar, ela desistia.   Como assim ela viu os meus avós? Como viu a minha mãe? Que tipo de mulher é essa? Ela acha que pode invadir minha vida dessa maneira? Não. Não pode, Sarah é capaz de descobrir até meus sonhos, me assusta, me intimida. Eu tenho que contê-la.   — Acho melhor você ir embora — falei, vendo seus olhos correrem por todo local, em seguida, ela negou.   — Preciso te mostrar uma coisa. Preciso de você.   Lembrei dos beijos que trocamos e pensei que poderia ser isso. Ela pode estar afim de me dar uns beijos. É até melhor, pelo menos com a língua atacando a boca dela posso impedi-la de tocar em assuntos pessoais.   — Vou terminar aqui — avisei, só faltava limpar a entrada do bueiro.   — Tudo bem — ela tirou as luvas e me olhou, pegando a bolsa do chão — posso te fazer umas perguntas?   Bufei baixinho. Uma hora eu a acho incrível, outra hora quero esganá-la.   — Não.   Ela suspirou pesado, pegando um rodo e eu liguei a mangueira, limpando o bueiro.   — Quando eu era mais nova, adorava tomar banho nisso aí — Sarah torceu a boca, se encostando num pilar — já me dei m*l injustamente por isso…   — Por que? — perguntei, sem muita importância.   — Eu tinha um vizinho da minha idade na época. Eu devia ter uns dez anos — ela riu ao se lembrar — ele costumava tomar banho de mangueira comigo, era o meu melhor amigo. Um dia, nós estouramos o cano onde a mangueira pegava pressão e adivinha? Ele fugiu e a culpa foi minha. Minha mãe quis me esganar, mas eu não o acusei, ela era meu amigo e eu adorava brincar com ele. Lidei com a culpa sozinha.   Eu posso ser tudo, menos burro.   — O que te faz pensar que essa história patética vai me fazer falar por quê matei o Nicholas?   Sarah me olhou, mas sem se sentir ameaçada. Odeio que ela tenha tanto equilíbrio assim.   — Pelo menos eu já sei que matou ele por um motivo enorme — Sarah cruzou os braços e olhou em volta, me ajudou a limpar todo o local e eu me vi obrigado a ir com ela até a sala de visitas para a tal consulta. Parece que ela conseguiu um lugar para me encher mais o saco.   Assim que chegamos lá — escoltados por Marcus Montgomery —, ele soltou minhas mãos e bateu a porta.   Eu me sentei, Sarah ficou de pé, procurando algo na pasta que ela sempre carrega.   — Não me contou que era compositor — comentou ela, se sentando.   Engoli em seco. Não contei mesmo! Por que eu contaria? Isso está enterrado, é algo meu, ela não tem o direito de se meter assim na minha vida.   — Não me perguntou — respondi, vendo-a ficar desconfortável. Eu estava querendo ver ela mais vezes para poder enfiar minha língua entre seus lábios e imaginar os mesmos no meu p*u de noite, mas essa conversa está tão desagradável que a única coisa que vou pensar é em como eu posso chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.   Sarah enfiou a mão na bolsa e meu coração saiu pela boca quando vi o que ela tinha nas mãos.   — Preciso que me conte, Justin, isso pode te tirar daqui — Sarah se sentou e minha pulsação falhou, o ar que eu estava respirando sumiu de repente — pode te tirar daqui e ajudar sua mãe.   — Onde você achou isso? — perguntei, sem saber de onde a minha voz veio.   — Fui até sua casa, conversei com seus avós… achei isso embaixo do seu travesseiro.   — Você leu? — questionei, erguendo meu olhar.   — Li — disse ela — eu li sim, mas isso não foi o suficiente pro juiz. Ele quer provas maiores do que aconteceu, Justin. Eu preciso saber o que aconteceu com você e com o Nicholas. Preciso de respostas.   — Não vai ter respostas aqui, isso era só uma bobagem.   — Bobagem? — sua inquietação me assustou um pouco — isso aqui é tipo um calendário com eventos maléficos que marcaram a sua vida e te levaram ao assassinato! Não é bobagem, Justin, agressão, ou seja lá o que ele fez, não é bobagem! Desabafa comigo, eu não vou te julgar, eu só preciso saber.   Bati as mãos na mesa, machucando-as por causa das algemas e me levantei.   — Para de cuidar da minha vida! — falei, travando a mandíbula — Você não tem mais o que fazer?! Isso é perseguição! Eu não quero isso, não quero mais você aqui, entendeu? Não quero te ver nunca mais, não preciso de uma vagabunda como você me dando sermões se ao menos sabe cuidar da sua vida! Para mim chega, Sarah, já deu! Deu de consultas, dessas merdas todas. Eu cansei, não quero que você se meta na minha vida, não quero você perto da minha família, não preciso de você!   Quando eu terminei meu discurso, ela já estava com as coisas guardadas, pronta para ir embora.   — Você pode não precisar de mim, mas sua mãe precisa de você.   Essa frase fez tudo o que eu falei parar de fazer sentido. Sarah saiu de lá, sem ao menos olhar na minha cara.   (...)     Sabe o que é pior do que lavar banheiros? É lavar banheiros com um monte de homens nus. Não, não só nus, mas sim, fazendo uma orgia entre eles. Essa é a pior parte.   Quando eu entrei aqui, me assustei no início quando ouvia vários gemidos. Já me chamaram para essas festinhas gays que eles fazem durante o banho. Estourei a cara do filho da p**a. Agora eu agradeço por ter meu chuveiro gelado na solitária, aqui tem cheiro de sêmen e suor, é horrível, simplesmente horrível.   Passei pela cabine dezesseis, evitando olhar lá dentro. De todas as orgias aqui, a dessa cabine é sempre a pior — graças à Deus que a Sarah não lavou o banheiro comigo com esses imundos aqui.   Coloquei sabonetes para os rapazes e quis sair rápido, mas uma mão grossa me puxou e apertou minha b***a. Tremi de repulsa e me virei, olhando com nojo o cara de joelhos com dois pintos na boca. Ele me apalpou e estava sinalizando que queria mais um.   Uma sensação correu pelo sangue, aquela que eu tanto abomino. Não me contive e peguei a primeira coisa que vi: uma lâmina de barbear, enfiando nos olhos dele. O grito estridente e agudo chamou atenção de todos, soltei a lâmina e olhei em volta. Meu coração estava tropeçando no meu peito.   Marcus entrou correndo e olhou o detento, ele já havia soltado os pênis e estava com a mão nos olhos, que sangrava mais que tudo. Não sei como enfiei nos dois, foi rápido demais.   — Não toca em mim — silabei, jogando a lâmina no chão, sentindo um corte na minha mão também — nunca mais toque em mim, nunca mais!   Nessa altura, Marcus já havia me algemado e estava me empurrando para fora. O meu corpo não parou de tremer, não de medo, mas de repulsa.   Fui jogado dentro da cela, já havia uma bandeja com comida em cima da cama, mas por mais que eu estivesse com fome eu não consegui comer.   Tomei banho e tentei comer de novo, mas o resultado foi um enjoo que me fez correr até vaso sanitário e vomitar. Foi como um flashback.   (...) Sarah Montserrat   Na quinta-feira, eu estava num nível de nervos e preocupação que eu nunca havia sentido antes. Eu estava preocupada com Justin, desesperada ao reler o caderno em buscas de respostas e totalmente perdida ao assistir o DVD do julgamento que foi disponibilizado pra mim. Nikkei apareceu em casa por volta das dez da noite, quando saía da faculdade.   — Ei, ei! — ele ergueu meu rosto enquanto estávamos no sofá. Madeline estava ninando a Sun e o DVD se repetia na televisão — o que foi? Você está agitada, fala comigo.   Pausei a cena em que Justin dizia “Sim, meritíssimo” e o olhei.   — Eu estava crente que iria desvendar esse caso, já tem quase dois meses e nada. Ele não se abre, não quer se abrir, eu preciso de respostas, testemunhas, preciso de provas… eu não estou conseguindo nada, Trevor — respirei o mais fundo que pude e soltei o ar lentamente — droga…   — Eu vou te ajudar, certo? Se é importante para você eu vou ajudar — Nikkei falou e me ofereceu um abraço hospedeiro. Me juntei a ele, arrastando minhas pernas preguiçosamente — Você está cansada, com os olhos fundos… não fique assim.   Não pude evitar aquele suspiro de derrota, que veio do fundo da garganta.   — Você vai conseguir. Eu posso ir com você no presídio, exigir fichas ou qualquer coisa que te ajude.   Engoli um soluço e assenti.   — Ele é tão… difícil — falei, tomando a liberdade de deitar em seu colo — o Justin às vezes me deixa com medo, sabe? Ele me deixa intimidada, mesmo quando eu faço esforço para manter minha pose. Às vezes eu acho que ele vai me bater.   Nicholas não respondeu, ele apenas me olhou e torceu a boca. Claro que tem chances do detento me bater. Justin provavelmente tem algum transtorno psíquico, e parece ser muito bravo.   — Eu já vou indo, Sah — Madeline disse, carregando uma bolsa e desenhos que a Sun fez pra ela — descansa, amiga, você está péssima — assenti e me levantei, a abraçando — tenho certeza que está em boas mãos — e então, Madeline olhou para o Trevor, me lançando um sorriso depravado. Dei uma risada baixa e a acompanhei até a porta, voltando para o sofá.   — Quer uma massagem? — sugeriu Nikkei e eu fiz que sim rapidamente.   — Por favor, faça isso e eu jurarei amor eterno a você — brinquei, ouvindo ele rir.   Ele espalmou minha nuca e deixou a mão ali, passando os polegares em movimentos circulares. Relaxei os músculos, sem me importar em estar só de pijama. A Sun não viu o Trevor chegar, ela já estava na cama morrendo de sono, Madeline sempre a faz dormir e fica babando nela, assim é melhor, não preciso da minha filha acordada agora e perguntando por que tem um p*u duro nas minhas costas. Bem, ela não falaria isso.   A massagem estava cada vez melhor. Com certeza a tensão estava indo embora, bom, pelo menos por hoje. Me apoiei em seu peito e ele desceu as mãos pelos meus braços.   — Você é mais forte do que imagina, Sarah, não precisa pensar em desistir.   Esse é o ponto, eu estava evitando em pensar em desistir, mas de verdade, se eu não tiver sucesso nas próximas consultas eu vou ter que passar o caso. Eu nunca lidei com esse tipo de situação, é uma das minhas primeiras experiências, como psicóloga jurídica, eu nunca havia atuado em algo que exigisse tanta cautela e dedicação, sempre foi peixe pequeno.   — Acha que eu devo ir lá amanhã?   Nikkei tombou a cabeça e ergueu meu queixo, dando um selinho no meu lábio inferior.   — Acho.   (...)   Ao invés do “Death Bieber’s Note” ( como chamo o caderninho) eu levei lápis e muitas folhas. O tempo não tem ajudado esses últimos dias. Na sexta passada, quando saí com Trevor o tempo estava bom, mas essa semana só tem sido chicotadas de vento e pancadas de chuvas. Ontário não era assim.   Entrei no presídio com um pouco de medo, mas Trevor disse que ia dar um jeito de passar aqui ontem de noite.   Passei pelos corredores de sempre e avistei o Yale. Ele fez pouco caso quando me viu, segui até a solitária sabendo que tinha um segurança na minha cola.   — Hoje o humor deles não está dos melhores — avisou o rapaz.   — O que te faz pensar assim? — perguntei, vendo ele pegar o molho de chaves do bolso e selecionar cada uma delas.   — Viu Montgomery por aqui? — questionou e eu neguei — então, ele está sem uma parte do polegar e muito machucado. Sem contar o rapaz do banheiro…   — O que aconteceu? — perguntei, reticente.   — Justin quase cegou um presidiário ontem com lâmina de barbear.   Meu coração disparou e ele abriu a cela. Minha consciência gritou um “Não entre!”, mas eu já estava lá dentro.   Encontrei um par de olhos castanhos me fitando. Recuei mentalmente para trás.   — Bom dia — sorri abertamente, engolindo as inseguranças — Hoje eu trouxe papel e lápis, caso você precise se expressar através da música.   — Vai embora.   Ignorei e me sentei ao seu lado.   — Muito vento, não? — comentei, sentindo seu olhar arder sobre mim.   Justin pegou os papéis e amassou, me olhando com tanta raiva que eu me afastei um pouco. Ele quebrou os lápis ao meio e jogou no chão.   — Entenda — Justin respirou fundo e suas narinas dilataram, percebi sua veia do pescoço mais grossa que o normal e comecei a respirar de maneira entrecortada, me levantando — Eu não quero você aqui. Não quero sair daqui, não sou seu amigo e não te dou permissão para se meter na minha vida! —   se levantou por sua vez, me deixando contra a parede — não quero saber se você era uma p**a, não quero saber de banho de mangueira e não quero ver meus pais!   Movi meu lábio para dizer algo, mas nada saiu.   — Eu quero que você se f**a!! — ele gritou tão alto que o segurança deu batidas na porta, perguntando se estava tudo bem — vá para o inferno! — Justin socou a parede ao meu lado e eu fechei os olhos com força.   — Eu só quero te ajudar e…   E eu estava no chão, com os olhos cheios de lágrimas sem conseguir abrir o olho esquerdo. Sem conseguir me mover de tanta dor, sem acreditar no que ele havia feito.   Um soco? Um maldito soco por tentar ajudar!   Eu não queria desistir, mas agora eu tenho.   — Não fique perto de mim — foi seu ultimato. Bieber se sentou em sua cama e ficou me olhando.   A dor no olho parecia ter travado meu corpo, eu queria fugir dali e nunca mais voltar.   Não queria mais voltar a vê-lo.
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