– O Presságio das Sombras

1531 Palavras
Mais um amanhecer em Eryndor que nasceu frio e silencioso. Uma névoa espessa cobria o vale, escondendo as torres e as muralhas sob um manto pálido. O castelo, apesar de imponente, parecia contido — como se respirasse junto com o reino, aguardando algo que todos sabiam que viria, mas ninguém ousava nomear. Na varanda mais alta, Isla observava o sol nascer. As mãos, apoiadas na pedra fria, tremiam levemente. Desde a noite anterior, os sussurros em sua mente não haviam cessado. Vozes antigas, carregadas de dor e advertência, ecoavam em um idioma que ela não compreendia — mas o significado, ela sentia. A guerra ainda não havia terminado. Lucian surgiu ao seu lado, o olhar cansado, mas alerta. Desde a revelação no templo, ele não dormia direito. As notícias de atividades nas fronteiras já chegavam em ondas, e o rei passava mais tempo na sala de guerra do que nos próprios aposentos. Você ouviu de novo, não é? — ele perguntou, analisando o rosto dela. Isla assentiu, sem desviar o olhar do horizonte. As vozes… são mais fortes quando a lua se põe. Dizem que as sombras caminham sob a terra. Que o sangue do eclipse desperta o que foi selado. Lucian pousou a mão sobre a dela, o toque firme. Então precisamos entender o que está vindo antes que chegue até nós. Ele a fitou em silêncio por um momento. Os olhos de Lucian eram de um dourado quente, mas havia algo diferente neles — uma preocupação que ele tentava esconder. Rowan enviou batedores para o norte. Se Damon está vivo, ele não se esconderá por muito tempo — disse, afastando-se um pouco. Mas o que me preocupa são os símbolos que encontramos perto do Rio Frial. Isla o olhou. Os símbolos? Lucian se virou para ela, cruzando os braços. Marcas no chão. Desenhos em cinzas e ossos, como rituais antigos. Rowan disse que o cheiro era de sangue queimado. Um arrepio percorreu a espinha de Isla. Ela já tinha visto algo assim antes — não neste mundo, mas nas visões. São selos de invocação — murmurou, sentindo a energia densa no ar. Feitos com magia lunar corrompida. Damon não teria poder suficiente para isso sozinho… alguém o ajuda. Lucian se aproximou, o tom baixo. Você acha que essa força… é o que a Deusa mencionou? Sim. Aquele que caiu. — Isla fechou os olhos, buscando as lembranças do sonho. Um ser antigo, banido antes da criação dos reinos lunares. Ele era um dos filhos da Deusa… mas traiu o pacto da luz. Lucian a observou, silencioso. O vento passou por eles, frio como um presságio. E agora ele tenta voltar — completou ela. --- No salão de guerra, mapas se espalhavam pela grande mesa de pedra. Marcas de tinta vermelha e prata delineavam fronteiras, fortalezas e possíveis rotas inimigas. Rowan, o beta de Lucian, se inclinava sobre o mapa, os olhos atentos. Os Devotos do Eclipse têm se movido rápido — disse ele, apontando para os pontos marcados. Três aldeias abandonadas, duas atacadas. Não deixam sobreviventes, apenas símbolos queimados. Lucian analisou em silêncio, a mandíbula tensa. Estão se aproximando das florestas do oeste. Querem testar nossa vigilância. Isla se aproximou. Não querem apenas atacar. Querem me provocar. Rowan a olhou, surpreso. Provocar? O Eclipse não busca destruição — explicou ela, a voz calma, mas firme. Quer equilíbrio pelo caos. Eles acreditam que, se o sangue Lunaris cair, a lua deixará de brilhar e o mundo será livre da luz. Lucian cerrou os punhos. Livre da luz… para viver na sombra. Isla assentiu. E Damon é apenas a lâmina. Há uma mão muito mais antiga segurando-a. O salão ficou em silêncio. A respiração de cada um parecia ecoar entre as paredes. Precisamos reunir o conselho dos clãs aliados — Lucian declarou, quebrando o silêncio. A Rainha do Leste, o Lorde do Sul, e o Guardião das Montanhas. Se o Eclipse quer guerra, não enfrentará apenas Eryndor. Rowan assentiu. Enviarei os mensageiros agora mesmo. Lucian olhou para Isla. Enquanto isso, quero que treine com os sacerdotes lunares. Precisamos que você aprenda a canalizar o poder do vínculo. Isla hesitou. E se eu perder o controle? Então eu te trarei de volta — respondeu Lucian, repetindo as palavras de dias atrás, mas com um peso novo. Ela sorriu, mesmo que o coração ainda estivesse apertado. Você sempre diz isso. E sempre cumpro. --- Naquela noite, o céu parecia vivo. A lua crescente brilhava com um tom estranho, quase avermelhado, como se o próprio firmamento sangrasse. Isla estava no templo, cercada por velas e runas de prata. Os sacerdotes lunares, envoltos em mantos brancos, murmuravam cânticos antigos. Ela sentia o poder correr por suas veias como fogo líquido. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou a energia da lua entrar. Mas ao invés de luz, algo diferente a envolveu: frio. Um frio que não vinha do vento, mas de dentro. As vozes voltaram, mais nítidas agora. “Filha da Lua… ele está acordando.” O chão sob seus pés se abriu em sombras. A escuridão formou uma espiral, e Isla viu — como se estivesse diante dela ... Damon, ajoelhado em meio a um altar de pedra n***a. As veias pulsavam sob sua pele, e uma figura encapuzada colocava as mãos sobre sua cabeça. A voz daquela criatura era profunda, quase sem som, mas carregada de autoridade. “Tua alma me pertence, lobo caído. A Deusa tomou o que era meu, e tu serás o instrumento de minha vingança.” Isla tentou se mover, mas estava presa na visão. Damon ergueu o rosto, os olhos agora completamente vermelhos. “Eryndor arderá… e ela, a filha prateada, chorará sob a sombra da lua.” Não! — Isla gritou, tentando romper o feitiço. Mas o poder a puxou de volta. A visão se desfez, e ela caiu de joelhos no templo, o coração disparado. Os sacerdotes correram até ela. Majestade! Eu vi… — ela ofegou. Eu vi Damon. E aquele… ser. Ele está despertando. --- Lucian a encontrou minutos depois, ainda tremendo. Ele a abraçou sem hesitar, a preocupação estampada no rosto. O que aconteceu? Ele está reunindo os Devotos — ela respondeu, a voz rouca. Damon não é mais apenas um inimigo. Ele é um hospedeiro. Lucian a segurou pelos ombros. E esse ser… o que quer? Isla ergueu o olhar, os olhos ainda brilhando com resquícios de poder. Quer a lua. Quer o meu sangue. O rei respirou fundo, sentindo o peso daquelas palavras. Então não teremos escolha. A guerra vai começar mais cedo do que esperávamos. --- O alarme soou ao amanhecer. O som do sino cortou o silêncio como uma lâmina. Rowan irrompeu no salão, coberto de poeira. Ataque na fronteira oeste! Os Devotos cruzaram o Rio Frial! Lucian ergueu-se de imediato, o instinto guerreiro despertando. Quantos? Estimamos mais de duzentos, Majestade. Mas o que preocupa… é que eles não são apenas lobos. Há humanos entre eles. Magos. Isla se aproximou, o coração acelerado. Magos do Eclipse. Lucian pegou sua espada, de lâmina prateada e empunhadura dourada. Preparem as tropas. Defendam o posto avançado. Ela o segurou pelo braço. Eu vou com você. Lucian a olhou, hesitando. Isla… Eu sou a Rainha Lunaris. O poder da lua está em mim. E se essa guerra é contra a luz… então é comigo. Ele a observou por um instante — e viu ali não a mulher que um dia fora quebrada, mas a força viva de um novo amanhecer. Então assentiu. Que a Deusa caminhe conosco. --- O campo de batalha ardia sob a luz cinzenta do amanhecer. As forças de Eryndor marchavam, os estandartes prateados tremulando contra o vento. Do outro lado do rio, figuras encapuzadas surgiam da névoa, seus olhos brilhando como brasas. O primeiro impacto foi ensurdecedor. As flechas cruzaram o ar, seguidas por rugidos e faíscas de energia escura. Isla ergueu as mãos, e um escudo de luz lunar cobriu as linhas da frente. A magia do Eclipse atingia o escudo e se dissipava em estalos. Lucian liderava os guerreiros na linha principal, a espada cortando as sombras como fogo. Eryndor nunca cairá! — rugiu. O ar se encheu de cheiro de ferro e cinza. Isla sentia o poder pulsar em seu corpo, respondendo ao vínculo. Quando o perigo se aproximava de Lucian, o escudo dela se tornava mais forte. Quando ele avançava, ela sentia o impulso como se fosse dela mesma. Mas algo mudou. No meio do caos, uma figura encapuzada ergueu as mãos — e o símbolo da lua n***a apareceu no céu, coberto de sangue. O eclipse começou a se formar. Isla gritou. Não! A energia do eclipse desceu como uma onda, quebrando os escudos e lançando os guerreiros ao chão. Lucian cambaleou, o corpo tomado por dor. Isla correu até ele, ajoelhando-se ao lado. Lucian! Ele abriu os olhos, a respiração pesada. Eles querem você… E não vão me ter. — Ela se levantou, a aura prateada emanando em ondas. O céu escureceu completamente. A lua se tornou n***a. E do meio da névoa, uma risada ecoou — a voz que Isla ouvira em suas visões. “O eclipse começou.” A guerra havia retornado.
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