O vento da manhã soprava frio e úmido sobre as muralhas do castelo de Eryndor. Lá do alto, Isla observava o horizonte que se perdia entre florestas e montanhas cobertas por névoa. A paz que reinava após a guerra parecia frágil, como uma chama cercada de sombras.
Nos últimos dias, ela vinha sentindo a energia da lua pulsar dentro de si de maneira diferente — mais viva, mais intensa, quase selvagem. Às vezes, sonhava com mares prateados, luas gêmeas, e vozes antigas que a chamavam pelo nome. Outras vezes, acordava com o corpo suado e o coração acelerado, como se tivesse corrido por horas.
Lucian dizia que era o despertar natural de seu sangue Lunaris, o poder que agora, enfim, começava a se revelar completamente. Mas Isla sentia que havia algo mais. Algo que a observava, que esperava o momento certo para se manifestar.
Está inquieta de novo — a voz de Lucian ecoou atrás dela, grave e cálida.
Isla se virou. Ele vinha descendo a escadaria de pedra, vestindo calça de couro escuro e uma túnica aberta no peito. O olhar dele, dourado como âmbar ao sol, parecia lê-la por dentro.
Não consigo desligar minha mente — respondeu. Há algo errado, Lucian. Desde a lua cheia passada, sinto… uma presença.
Lucian parou diante dela e segurou suas mãos.
É o poder dentro de você. Está crescendo, e o corpo precisa se adaptar. Não lute contra ele. Aprenda a senti-lo.
Ela respirou fundo, tentando absorver aquelas palavras.
E se esse poder me consumir?
Lucian sorriu de leve.
Então eu te trarei de volta.
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No pátio de treinamento, o som do vento era substituído pelo impacto de energia pura. Isla estendeu as mãos e uma onda prateada explodiu à sua frente, quebrando o ar e fazendo o chão vibrar. As faíscas de luz lunar dançavam ao redor, como fragmentos de estrelas.
Rowan, o beta de Lucian, observava à distância com os braços cruzados.
Impressionante — murmurou. Ela controla a energia bruta com precisão.
Lucian, ao lado dele, assentiu.
Ainda é instável. Ela não percebe, mas a energia da lua responde às emoções dela. Se ela perder o equilíbrio… o poder pode se voltar contra ela.
No centro do pátio, Isla tentava se concentrar. O suor escorria pela testa, o coração disparava. Quando fechava os olhos, via o símbolo lunar brilhar sob sua pele — uma marca prateada em forma de meia-lua, viva e pulsante.
Lucian se aproximou.
Respire. Sinta a energia correr, mas não a prenda. Ela é parte de você.
Isla obedeceu. Inspirou fundo, e o ar ao redor pareceu vibrar. O poder fluiu de suas mãos, girando no ar como uma corrente de prata. Quando ela abriu os olhos, as íris estavam completamente luminosas.
Lucian deu um passo atrás, surpreso com a intensidade.
Isla…
Eu consigo sentir tudo — ela sussurrou. As árvores, o vento, até o pulso do castelo. É como se a lua respirasse através de mim.
Lucian estendeu a mão e tocou o rosto dela.
Isso é o que você é, minha rainha. A lua feita carne.
A conexão entre eles brilhou por um instante — um fio invisível, dourado e prateado, entrelaçando suas almas. A força do vínculo ampliava o poder de Isla, tornando-o mais puro e controlado.
Mas então, algo quebrou o equilíbrio. Uma dor aguda atravessou a mente dela, como uma agulha perfurando o crânio. Isla gritou, cambaleando para trás.
Lucian a segurou imediatamente.
Isla!
Ela apertou os olhos, o corpo tremendo. Imagens invadiram sua mente — sombras correndo entre árvores, olhos vermelhos na escuridão, um símbolo queimando no chão: uma lua n***a atravessada por garras.
Eles estão vindo — ela sussurrou, arfando. O m*l que a Deusa avisou… está se movendo.
Lucian a abraçou com força.
Diga o que viu.
Um exército nas sombras. E um nome… Isla hesitou, tentando reunir as memórias fragmentadas. “Os Devotos do Eclipse”.
Lucian trocou um olhar rápido com Rowan, que se aproximava.
Já ouvimos rumores desse nome nas fronteiras do norte — disse o beta. Bandidos, lobos renegados, magos corrompidos. Achávamos que eram apenas histórias para assustar viajantes.
Não são histórias — Isla respondeu, erguendo o olhar. Eles querem o poder da lua. Querem me usar.
Lucian franziu o cenho, a raiva crescendo dentro dele. Vão ter que passar por mim primeiro.
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Dias se passaram. Isla se dedicou intensamente ao treinamento, sob a orientação de Lucian e dos antigos guardiões do templo lunar. Ela aprendeu a canalizar o poder Lunaris em forma de escudo, a curar ferimentos com a luz da lua e até a projetar energia defensiva contra ataques mentais.
Mas, por mais que dominasse a força, ainda havia algo que a atormentava: o medo.
O medo de perder o controle.
O medo de se tornar uma arma.
Uma noite, enquanto Lucian dormia, Isla levantou-se silenciosamente e caminhou até a sacada. A lua estava cheia, enorme e dourada, como um olho observando o mundo.
Deusa da Lua — murmurou. Por que me escolheu? Eu nunca pedi esse destino.
Um vento frio soprou, e a voz da Deusa ecoou dentro dela, suave e distante:
“Porque o destino não escolhe quem está pronto… ele escolhe quem precisa aprender.”
Isla fechou os olhos, sentindo as lágrimas deslizarem.
Então me ensine a não falhar.
De repente, um clarão cortou o céu. Um trovão rugiu distante, vindo das montanhas do norte. O chão tremeu por um breve instante — e o coração de Isla também.
Ela recuou, alarmada.
Não é apenas uma tempestade…
Lucian acordou com o barulho, vestindo a capa rapidamente.
Eu senti também. O ar mudou.
Eles correram para o salão de vigia, onde Rowan já examinava o mapa das fronteiras.
Nossos batedores enviaram um corvo. Há sinais de movimento nas terras gélidas de Skara. Fogos acesos, ruídos metálicos.
Lucian olhou para Isla.
É o começo.
Isla assentiu, a voz trêmula, mas firme.
Eles estão testando o limite da fronteira.
Lucian apertou a mão dela.
Então precisamos nos preparar antes que o Eclipse se forme.
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Nos dias seguintes, Eryndor se transformou em um campo de preparação. Soldados treinavam incansavelmente, ferreiros moldavam armas sob a lua, e mensageiros cavalgavam entre reinos aliados.
Mas entre tudo isso, Isla continuava a sentir algo ainda mais profundo — uma energia antiga despertando dentro das florestas. Ela a sentia toda vez que a lua nascia. Um sussurro que chamava seu nome, doce e ameaçador.
Naquela noite, sozinha no templo lunar, Isla decidiu enfrentar o que quer que fosse.
Acendeu velas ao redor do altar e ajoelhou-se diante da estátua prateada da Deusa.
Mostre-me — pediu, fechando os olhos. Quero entender o que está vindo.
O silêncio caiu. O ar se tornou denso, e de repente uma névoa prateada surgiu, envolvendo-a. As chamas das velas dançaram em círculos, e a voz da Deusa voltou, mais clara desta vez:
“O eclipse se aproxima. Quando a lua for engolida pela sombra, a verdade será revelada. Aquele que caiu ainda respira nas trevas.”
Isla abriu os olhos, o coração disparando.
Damon…
O nome ecoou pelo templo, e o vento soprou com força, apagando as velas.
Lucian entrou correndo, sentindo a energia no ar.
Isla! O que houve?
Ela se levantou, ofegante.
Damon está vivo. A Deusa confirmou.
O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante.
Lucian se aproximou, os punhos cerrados.
Então é ele quem move as sombras.
Não apenas ele — Isla corrigiu. Há algo maior por trás… algo que o controla.
Lucian tocou o rosto dela, suavizando o olhar.
Seja o que for, não deixarei que te tire de mim.
Isla encostou a testa na dele.
E eu não deixarei que te destrua.
Eles ficaram assim por um momento, respirando juntos, o vínculo entrelaçado em luz e calor. Lá fora, a lua se cobria de nuvens, e o primeiro trovão de uma nova guerra ecoava nas montanhas do norte.
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No horizonte, longe do castelo, nas terras geladas de Skara, Damon observava o céu coberto por nuvens negras. Seu corpo trazia cicatrizes profundas, mas seus olhos — agora vermelhos como sangue — ardiam com ódio e desejo.
Ao seu redor, dezenas de lobos encapuzados se ajoelhavam, com tatuagens negras no peito em forma de meia-lua invertida.
O tempo da Deusa terminou — ele disse, a voz grave e amarga. Agora é a era da sombra.
Um dos guerreiros ergueu a cabeça.
E a Rainha Lunaris?
Damon sorriu, um sorriso frio e doentio.
Ela virá até mim. O vínculo dela com a lua a trará direto ao meu alcance.
O vento uivou, carregando o cheiro de tempestade e sangue.
O Eclipse estava se aproximando.