– Sombras no Luar

1438 Palavras
O vento da manhã soprava frio e úmido sobre as muralhas do castelo de Eryndor. Lá do alto, Isla observava o horizonte que se perdia entre florestas e montanhas cobertas por névoa. A paz que reinava após a guerra parecia frágil, como uma chama cercada de sombras. Nos últimos dias, ela vinha sentindo a energia da lua pulsar dentro de si de maneira diferente — mais viva, mais intensa, quase selvagem. Às vezes, sonhava com mares prateados, luas gêmeas, e vozes antigas que a chamavam pelo nome. Outras vezes, acordava com o corpo suado e o coração acelerado, como se tivesse corrido por horas. Lucian dizia que era o despertar natural de seu sangue Lunaris, o poder que agora, enfim, começava a se revelar completamente. Mas Isla sentia que havia algo mais. Algo que a observava, que esperava o momento certo para se manifestar. Está inquieta de novo — a voz de Lucian ecoou atrás dela, grave e cálida. Isla se virou. Ele vinha descendo a escadaria de pedra, vestindo calça de couro escuro e uma túnica aberta no peito. O olhar dele, dourado como âmbar ao sol, parecia lê-la por dentro. Não consigo desligar minha mente — respondeu. Há algo errado, Lucian. Desde a lua cheia passada, sinto… uma presença. Lucian parou diante dela e segurou suas mãos. É o poder dentro de você. Está crescendo, e o corpo precisa se adaptar. Não lute contra ele. Aprenda a senti-lo. Ela respirou fundo, tentando absorver aquelas palavras. E se esse poder me consumir? Lucian sorriu de leve. Então eu te trarei de volta. --- No pátio de treinamento, o som do vento era substituído pelo impacto de energia pura. Isla estendeu as mãos e uma onda prateada explodiu à sua frente, quebrando o ar e fazendo o chão vibrar. As faíscas de luz lunar dançavam ao redor, como fragmentos de estrelas. Rowan, o beta de Lucian, observava à distância com os braços cruzados. Impressionante — murmurou. Ela controla a energia bruta com precisão. Lucian, ao lado dele, assentiu. Ainda é instável. Ela não percebe, mas a energia da lua responde às emoções dela. Se ela perder o equilíbrio… o poder pode se voltar contra ela. No centro do pátio, Isla tentava se concentrar. O suor escorria pela testa, o coração disparava. Quando fechava os olhos, via o símbolo lunar brilhar sob sua pele — uma marca prateada em forma de meia-lua, viva e pulsante. Lucian se aproximou. Respire. Sinta a energia correr, mas não a prenda. Ela é parte de você. Isla obedeceu. Inspirou fundo, e o ar ao redor pareceu vibrar. O poder fluiu de suas mãos, girando no ar como uma corrente de prata. Quando ela abriu os olhos, as íris estavam completamente luminosas. Lucian deu um passo atrás, surpreso com a intensidade. Isla… Eu consigo sentir tudo — ela sussurrou. As árvores, o vento, até o pulso do castelo. É como se a lua respirasse através de mim. Lucian estendeu a mão e tocou o rosto dela. Isso é o que você é, minha rainha. A lua feita carne. A conexão entre eles brilhou por um instante — um fio invisível, dourado e prateado, entrelaçando suas almas. A força do vínculo ampliava o poder de Isla, tornando-o mais puro e controlado. Mas então, algo quebrou o equilíbrio. Uma dor aguda atravessou a mente dela, como uma agulha perfurando o crânio. Isla gritou, cambaleando para trás. Lucian a segurou imediatamente. Isla! Ela apertou os olhos, o corpo tremendo. Imagens invadiram sua mente — sombras correndo entre árvores, olhos vermelhos na escuridão, um símbolo queimando no chão: uma lua n***a atravessada por garras. Eles estão vindo — ela sussurrou, arfando. O m*l que a Deusa avisou… está se movendo. Lucian a abraçou com força. Diga o que viu. Um exército nas sombras. E um nome… Isla hesitou, tentando reunir as memórias fragmentadas. “Os Devotos do Eclipse”. Lucian trocou um olhar rápido com Rowan, que se aproximava. Já ouvimos rumores desse nome nas fronteiras do norte — disse o beta. Bandidos, lobos renegados, magos corrompidos. Achávamos que eram apenas histórias para assustar viajantes. Não são histórias — Isla respondeu, erguendo o olhar. Eles querem o poder da lua. Querem me usar. Lucian franziu o cenho, a raiva crescendo dentro dele. Vão ter que passar por mim primeiro. --- Dias se passaram. Isla se dedicou intensamente ao treinamento, sob a orientação de Lucian e dos antigos guardiões do templo lunar. Ela aprendeu a canalizar o poder Lunaris em forma de escudo, a curar ferimentos com a luz da lua e até a projetar energia defensiva contra ataques mentais. Mas, por mais que dominasse a força, ainda havia algo que a atormentava: o medo. O medo de perder o controle. O medo de se tornar uma arma. Uma noite, enquanto Lucian dormia, Isla levantou-se silenciosamente e caminhou até a sacada. A lua estava cheia, enorme e dourada, como um olho observando o mundo. Deusa da Lua — murmurou. Por que me escolheu? Eu nunca pedi esse destino. Um vento frio soprou, e a voz da Deusa ecoou dentro dela, suave e distante: “Porque o destino não escolhe quem está pronto… ele escolhe quem precisa aprender.” Isla fechou os olhos, sentindo as lágrimas deslizarem. Então me ensine a não falhar. De repente, um clarão cortou o céu. Um trovão rugiu distante, vindo das montanhas do norte. O chão tremeu por um breve instante — e o coração de Isla também. Ela recuou, alarmada. Não é apenas uma tempestade… Lucian acordou com o barulho, vestindo a capa rapidamente. Eu senti também. O ar mudou. Eles correram para o salão de vigia, onde Rowan já examinava o mapa das fronteiras. Nossos batedores enviaram um corvo. Há sinais de movimento nas terras gélidas de Skara. Fogos acesos, ruídos metálicos. Lucian olhou para Isla. É o começo. Isla assentiu, a voz trêmula, mas firme. Eles estão testando o limite da fronteira. Lucian apertou a mão dela. Então precisamos nos preparar antes que o Eclipse se forme. --- Nos dias seguintes, Eryndor se transformou em um campo de preparação. Soldados treinavam incansavelmente, ferreiros moldavam armas sob a lua, e mensageiros cavalgavam entre reinos aliados. Mas entre tudo isso, Isla continuava a sentir algo ainda mais profundo — uma energia antiga despertando dentro das florestas. Ela a sentia toda vez que a lua nascia. Um sussurro que chamava seu nome, doce e ameaçador. Naquela noite, sozinha no templo lunar, Isla decidiu enfrentar o que quer que fosse. Acendeu velas ao redor do altar e ajoelhou-se diante da estátua prateada da Deusa. Mostre-me — pediu, fechando os olhos. Quero entender o que está vindo. O silêncio caiu. O ar se tornou denso, e de repente uma névoa prateada surgiu, envolvendo-a. As chamas das velas dançaram em círculos, e a voz da Deusa voltou, mais clara desta vez: “O eclipse se aproxima. Quando a lua for engolida pela sombra, a verdade será revelada. Aquele que caiu ainda respira nas trevas.” Isla abriu os olhos, o coração disparando. Damon… O nome ecoou pelo templo, e o vento soprou com força, apagando as velas. Lucian entrou correndo, sentindo a energia no ar. Isla! O que houve? Ela se levantou, ofegante. Damon está vivo. A Deusa confirmou. O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Lucian se aproximou, os punhos cerrados. Então é ele quem move as sombras. Não apenas ele — Isla corrigiu. Há algo maior por trás… algo que o controla. Lucian tocou o rosto dela, suavizando o olhar. Seja o que for, não deixarei que te tire de mim. Isla encostou a testa na dele. E eu não deixarei que te destrua. Eles ficaram assim por um momento, respirando juntos, o vínculo entrelaçado em luz e calor. Lá fora, a lua se cobria de nuvens, e o primeiro trovão de uma nova guerra ecoava nas montanhas do norte. --- No horizonte, longe do castelo, nas terras geladas de Skara, Damon observava o céu coberto por nuvens negras. Seu corpo trazia cicatrizes profundas, mas seus olhos — agora vermelhos como sangue — ardiam com ódio e desejo. Ao seu redor, dezenas de lobos encapuzados se ajoelhavam, com tatuagens negras no peito em forma de meia-lua invertida. O tempo da Deusa terminou — ele disse, a voz grave e amarga. Agora é a era da sombra. Um dos guerreiros ergueu a cabeça. E a Rainha Lunaris? Damon sorriu, um sorriso frio e doentio. Ela virá até mim. O vínculo dela com a lua a trará direto ao meu alcance. O vento uivou, carregando o cheiro de tempestade e sangue. O Eclipse estava se aproximando.
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