O novo Recomeço. Parte 2

1548 Palavras
Parte 2 O castelo de Eryndor parecia respirar de novo. As paredes antes marcadas por fogo e aço agora estavam cobertas de tapeçarias e flores brancas. As risadas ecoavam pelos corredores, os servos andavam de cabeça erguida, e os ecos da guerra haviam se transformado em notas de uma nova sinfonia: a do renascimento. Isla caminhava pelos corredores, observando os vitrais que brilhavam sob a luz matinal. Cada cor parecia contar uma história — e cada história, um pedaço de sua alma. Em uma das janelas, o vitral mostrava a Deusa da Lua abençoando o primeiro rei de Eryndor. Isla se deteve ali por um instante, os dedos tocando o vidro. Agora compreendo — sussurrou. A força nunca foi apenas sobre vencer batalhas… mas sobre suportar o peso de continuar viva. Ela seguiu até o salão principal, onde Lucian já a esperava. Sentado na cabeceira da mesa de conselho, ele revisava documentos e relatórios dos guardas. Quando Isla entrou, o brilho em seu olhar suavizou imediatamente. Você acordou cedo — disse ele, abrindo um sorriso contido. Pensei que fosse descansar mais. Ela sentou-se ao lado dele. A energia do castelo não me deixou dormir. É como se tudo estivesse… pulsando. Lucian assentiu, os olhos atentos. Desde o festival, sinto o mesmo. O vínculo está mais forte. Quando você fala, quando sorri… até o ar muda. Isla desviou o olhar, enrubescendo. Lucian… Ele tocou o queixo dela, forçando-a a encará-lo. Não precisa esconder o que sente. Não mais. Aquele olhar — firme, protetor e cheio de um amor contido por tempo demais — a desarmava. Desde a batalha, havia entre eles uma nova calma, uma segurança que não precisavam mais fingir. Há algo que preciso te mostrar — ela disse, levantando-se. Algo que descobri. Lucian a seguiu pelos corredores até o jardim interno, onde uma antiga fonte jorrava água cristalina. Isla estendeu as mãos sobre o líquido, fechando os olhos. Um brilho prateado percorreu seus dedos, e o reflexo da água começou a mudar. A superfície mostrou imagens — antigas, enevoadas — de lobos prateados correndo sob o luar, de sacerdotisas entoando cânticos, e de uma mulher que tinha os mesmos olhos que Isla. Lucian prendeu a respiração. Quem é ela? Minha mãe — Isla respondeu com voz trêmula. Ou melhor… a primeira guardiã do sangue Lunaris. Ela foi a companheira do primeiro rei lobo. A Deusa me mostrou isso na noite passada. Eu… sou descendente direta da linhagem original. Lucian recuou um passo, surpreso. Isso significa que você… é o elo que conecta a lua e o sangue. A origem de toda a magia lunar. Isla assentiu, as lágrimas cintilando em seus olhos. E você, Lucian, é o outro lado do mesmo poder. A Deusa escolheu você para carregar a essência da força terrena — o alfa que equilibra o espírito lunar. É por isso que o vínculo entre nós é mais que amor… é destino. Lucian a encarou em silêncio, o peito subindo e descendo lentamente. Então foi por isso que Damon nunca conseguiu quebrar o elo — murmurou. Porque ele não o entendia. O vínculo não é uma prisão… é um chamado. Isla aproximou-se e colocou a mão sobre o peito dele. Nosso poder é maior quando estamos juntos. A Deusa me mostrou isso. Quando unimos nossas forças, a luz e a terra se tornam uma só. Lucian cobriu a mão dela com a sua. Então que venha o que vier, enfrentaremos juntos. Aquela promessa pairou entre eles como um juramento silencioso. A brisa que soprou naquele instante parecia abençoá-los, e as flores ao redor se abriram, reagindo à energia que emanava de ambos. --- Naquela noite, o salão principal foi aberto para um banquete. Era o primeiro desde a coroação. A música preenchia o ar, as taças tilintavam, e a lua alta se refletia nas janelas. Mas, para Isla, a noite era mais do que uma celebração. Era um rito de passagem — o início de uma nova era. Ela vestia um manto prateado que fluía como água, e uma coroa leve adornava seus cabelos. Quando caminhou até Lucian, sentado no trono ao lado do dela, todos se calaram. Lucian levantou-se e ofereceu a mão. Minha rainha. Meu rei — ela respondeu, sorrindo. Os dois sentaram-se lado a lado, e por um momento o salão inteiro pareceu brilhar. Não pela luz das tochas, mas pela energia que emanava deles. Era como se o próprio reino os observasse — e respirasse em sincronia com seus corações. Durante o banquete, Isla observava as pessoas com atenção. Os soldados sorriam, os aldeões dançavam, as crianças brincavam com fitas de seda. O povo de Eryndor voltava a viver. E ainda assim, dentro dela, uma sensação persistente permanecia — um eco distante, um aviso. Quando todos se recolheram, ela e Lucian caminharam pelos jardins iluminados pela lua. Está inquieta — ele disse, entrelaçando os dedos nos dela. Não sei explicar — respondeu. É como se algo me observasse… algo que não pertence mais a este reino. Lucian parou, olhando-a com seriedade. Senti isso também. Há rumores vindos das fronteiras do norte. Caçadores dizem ter visto luzes nas montanhas, figuras encapuzadas… Sombras remanescentes de Damon? — ela perguntou, o tom grave. Lucian assentiu lentamente. Talvez. Mas há algo diferente. Mais antigo. Isla olhou para a lua, e o vento soprou forte, fazendo o manto dela se agitar. A Deusa falou sobre um novo ciclo — murmurou. — Disse que a luz seria testada outra vez. Talvez seja o que ela quis dizer. Lucian aproximou-se, o olhar intenso. Seja o que for, não o enfrentaremos separados. Ela sorriu, tocando o rosto dele. Nunca mais. --- Horas depois, quando o castelo silenciou, Isla estava no quarto real, sentada diante da lareira. A luz do fogo brincava em sua pele, e o som das chamas era o único ruído que preenchia o ambiente. Lucian entrou, vestindo apenas uma túnica simples. Não consegue dormir? — perguntou, a voz rouca. Ela o olhou, um sorriso cansado nos lábios. Acho que agora é você quem me vigia demais. Lucian se aproximou e parou diante dela. Tenho medo de fechar os olhos e descobrir que tudo isso é um sonho. Isla se levantou e o envolveu com os braços. Então sonhe comigo acordado. Lucian segurou o rosto dela com ambas as mãos e encostou a testa na dela. O calor do fogo misturava-se ao calor que emanava deles. A conexão brilhou — uma energia sutil, viva, pulsante. E quando os lábios se tocaram, a luz lunar pareceu atravessar o teto e envolver os dois. O beijo foi lento, profundo, carregado de promessas e memórias. O vínculo queimava sob a pele, e cada toque era uma mistura de ternura e poder. Isla sentia o sangue Lunaris vibrando, respondendo ao toque dele. Lucian sussurrou entre beijos: A cada vez que te toco, sinto que estou tocando a própria lua. Ela sorriu, os olhos marejados. E eu sinto a terra me abraçando… como se você fosse meu chão. O mundo parecia parar ali — entre o som do fogo e o pulsar dos corações. O amor deles não era apenas paixão. Era um feitiço antigo, um elo que transcendera eras e reinos. Mas quando o silêncio os envolveu, Isla ouviu algo distante. Um som metálico, abafado, como um eco vindo de muito longe. Ela se afastou, o corpo tenso. — Lucian… ouviu isso? Ele ergueu a cabeça, os sentidos afiados. Nada. Apenas o vento. — Talvez tenha sido o castelo se movendo — tentou tranquilizá-la. Mas Isla sabia. O som não era físico. Era mental. Uma voz sussurrou em sua mente, fria e cortante como gelo: “Você pode ter vencido uma guerra… mas não pode apagar o que está nas sombras.” Ela recuou, ofegante. Lucian segurou-a pelos ombros. — Isla, o que foi? — Eu… ouvi algo. Uma voz. — Ela levou a mão à cabeça, tentando compreender. — Era como Damon, mas… diferente. Mais antiga. Lucian cerrou o maxilar. — Então é verdade. Há algo vindo. Isla olhou para a lua pela janela — e naquele instante, uma sombra passou sobre ela, apagando brevemente sua luz. O silêncio se tornou pesado. Lucian envolveu-a nos braços, apertando-a contra o peito. — Seja o que for, não deixarei que te tire de mim. Ela fechou os olhos, ouvindo o coração dele. — E eu lutarei para proteger tudo o que amamos. O vínculo brilhou em prata, unindo suas almas mais uma vez. --- Do outro lado das montanhas de Eryndor, a lua também brilhava — mas ali, sua luz parecia manchada. Entre ruínas antigas, uma figura encapuzada caminhava entre pedras e cinzas. Suas mãos seguravam um colar de prata quebrado — o mesmo que um dia pertencera a Damon. — O sangue Lunaris desperta — disse a figura, a voz rouca e velha. — E com ele… o ciclo recomeça. Um vento gelado soprou, e olhos vermelhos se abriram na escuridão. --- De volta ao castelo, Isla dormia em paz nos braços de Lucian. Sonhava com luas duplas e campos dourados. Mas mesmo em sonho, uma sensação persistente pulsava em seu peito: algo antigo estava voltando à vida. E quando a aurora nasceu sobre Eryndor, o vento trouxe consigo um sussurro: “A luz renasceu. E as sombras… também.”
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