Parte 2
O castelo de Eryndor parecia respirar de novo. As paredes antes marcadas por fogo e aço agora estavam cobertas de tapeçarias e flores brancas. As risadas ecoavam pelos corredores, os servos andavam de cabeça erguida, e os ecos da guerra haviam se transformado em notas de uma nova sinfonia: a do renascimento.
Isla caminhava pelos corredores, observando os vitrais que brilhavam sob a luz matinal. Cada cor parecia contar uma história — e cada história, um pedaço de sua alma. Em uma das janelas, o vitral mostrava a Deusa da Lua abençoando o primeiro rei de Eryndor. Isla se deteve ali por um instante, os dedos tocando o vidro.
Agora compreendo — sussurrou. A força nunca foi apenas sobre vencer batalhas… mas sobre suportar o peso de continuar viva.
Ela seguiu até o salão principal, onde Lucian já a esperava. Sentado na cabeceira da mesa de conselho, ele revisava documentos e relatórios dos guardas. Quando Isla entrou, o brilho em seu olhar suavizou imediatamente.
Você acordou cedo — disse ele, abrindo um sorriso contido. Pensei que fosse descansar mais.
Ela sentou-se ao lado dele.
A energia do castelo não me deixou dormir. É como se tudo estivesse… pulsando.
Lucian assentiu, os olhos atentos.
Desde o festival, sinto o mesmo. O vínculo está mais forte. Quando você fala, quando sorri… até o ar muda.
Isla desviou o olhar, enrubescendo. Lucian…
Ele tocou o queixo dela, forçando-a a encará-lo.
Não precisa esconder o que sente. Não mais.
Aquele olhar — firme, protetor e cheio de um amor contido por tempo demais — a desarmava. Desde a batalha, havia entre eles uma nova calma, uma segurança que não precisavam mais fingir.
Há algo que preciso te mostrar — ela disse, levantando-se. Algo que descobri.
Lucian a seguiu pelos corredores até o jardim interno, onde uma antiga fonte jorrava água cristalina. Isla estendeu as mãos sobre o líquido, fechando os olhos. Um brilho prateado percorreu seus dedos, e o reflexo da água começou a mudar.
A superfície mostrou imagens — antigas, enevoadas — de lobos prateados correndo sob o luar, de sacerdotisas entoando cânticos, e de uma mulher que tinha os mesmos olhos que Isla.
Lucian prendeu a respiração.
Quem é ela?
Minha mãe — Isla respondeu com voz trêmula. Ou melhor… a primeira guardiã do sangue Lunaris. Ela foi a companheira do primeiro rei lobo. A Deusa me mostrou isso na noite passada. Eu… sou descendente direta da linhagem original.
Lucian recuou um passo, surpreso.
Isso significa que você… é o elo que conecta a lua e o sangue. A origem de toda a magia lunar.
Isla assentiu, as lágrimas cintilando em seus olhos.
E você, Lucian, é o outro lado do mesmo poder. A Deusa escolheu você para carregar a essência da força terrena — o alfa que equilibra o espírito lunar. É por isso que o vínculo entre nós é mais que amor… é destino.
Lucian a encarou em silêncio, o peito subindo e descendo lentamente.
Então foi por isso que Damon nunca conseguiu quebrar o elo — murmurou. Porque ele não o entendia. O vínculo não é uma prisão… é um chamado.
Isla aproximou-se e colocou a mão sobre o peito dele.
Nosso poder é maior quando estamos juntos. A Deusa me mostrou isso. Quando unimos nossas forças, a luz e a terra se tornam uma só.
Lucian cobriu a mão dela com a sua.
Então que venha o que vier, enfrentaremos juntos.
Aquela promessa pairou entre eles como um juramento silencioso. A brisa que soprou naquele instante parecia abençoá-los, e as flores ao redor se abriram, reagindo à energia que emanava de ambos.
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Naquela noite, o salão principal foi aberto para um banquete. Era o primeiro desde a coroação. A música preenchia o ar, as taças tilintavam, e a lua alta se refletia nas janelas.
Mas, para Isla, a noite era mais do que uma celebração. Era um rito de passagem — o início de uma nova era.
Ela vestia um manto prateado que fluía como água, e uma coroa leve adornava seus cabelos. Quando caminhou até Lucian, sentado no trono ao lado do dela, todos se calaram.
Lucian levantou-se e ofereceu a mão.
Minha rainha.
Meu rei — ela respondeu, sorrindo.
Os dois sentaram-se lado a lado, e por um momento o salão inteiro pareceu brilhar. Não pela luz das tochas, mas pela energia que emanava deles. Era como se o próprio reino os observasse — e respirasse em sincronia com seus corações.
Durante o banquete, Isla observava as pessoas com atenção. Os soldados sorriam, os aldeões dançavam, as crianças brincavam com fitas de seda. O povo de Eryndor voltava a viver. E ainda assim, dentro dela, uma sensação persistente permanecia — um eco distante, um aviso.
Quando todos se recolheram, ela e Lucian caminharam pelos jardins iluminados pela lua.
Está inquieta — ele disse, entrelaçando os dedos nos dela.
Não sei explicar — respondeu. É como se algo me observasse… algo que não pertence mais a este reino.
Lucian parou, olhando-a com seriedade.
Senti isso também. Há rumores vindos das fronteiras do norte. Caçadores dizem ter visto luzes nas montanhas, figuras encapuzadas…
Sombras remanescentes de Damon? — ela perguntou, o tom grave.
Lucian assentiu lentamente.
Talvez. Mas há algo diferente. Mais antigo.
Isla olhou para a lua, e o vento soprou forte, fazendo o manto dela se agitar.
A Deusa falou sobre um novo ciclo — murmurou. — Disse que a luz seria testada outra vez. Talvez seja o que ela quis dizer.
Lucian aproximou-se, o olhar intenso.
Seja o que for, não o enfrentaremos separados.
Ela sorriu, tocando o rosto dele.
Nunca mais.
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Horas depois, quando o castelo silenciou, Isla estava no quarto real, sentada diante da lareira. A luz do fogo brincava em sua pele, e o som das chamas era o único ruído que preenchia o ambiente.
Lucian entrou, vestindo apenas uma túnica simples.
Não consegue dormir? — perguntou, a voz rouca.
Ela o olhou, um sorriso cansado nos lábios.
Acho que agora é você quem me vigia demais.
Lucian se aproximou e parou diante dela.
Tenho medo de fechar os olhos e descobrir que tudo isso é um sonho.
Isla se levantou e o envolveu com os braços.
Então sonhe comigo acordado.
Lucian segurou o rosto dela com ambas as mãos e encostou a testa na dela. O calor do fogo misturava-se ao calor que emanava deles. A conexão brilhou — uma energia sutil, viva, pulsante.
E quando os lábios se tocaram, a luz lunar pareceu atravessar o teto e envolver os dois.
O beijo foi lento, profundo, carregado de promessas e memórias. O vínculo queimava sob a pele, e cada toque era uma mistura de ternura e poder. Isla sentia o sangue Lunaris vibrando, respondendo ao toque dele.
Lucian sussurrou entre beijos:
A cada vez que te toco, sinto que estou tocando a própria lua.
Ela sorriu, os olhos marejados.
E eu sinto a terra me abraçando… como se você fosse meu chão.
O mundo parecia parar ali — entre o som do fogo e o pulsar dos corações. O amor deles não era apenas paixão. Era um feitiço antigo, um elo que transcendera eras e reinos.
Mas quando o silêncio os envolveu, Isla ouviu algo distante. Um som metálico, abafado, como um eco vindo de muito longe.
Ela se afastou, o corpo tenso.
— Lucian… ouviu isso?
Ele ergueu a cabeça, os sentidos afiados. Nada. Apenas o vento.
— Talvez tenha sido o castelo se movendo — tentou tranquilizá-la.
Mas Isla sabia. O som não era físico. Era mental.
Uma voz sussurrou em sua mente, fria e cortante como gelo:
“Você pode ter vencido uma guerra… mas não pode apagar o que está nas sombras.”
Ela recuou, ofegante. Lucian segurou-a pelos ombros.
— Isla, o que foi?
— Eu… ouvi algo. Uma voz. — Ela levou a mão à cabeça, tentando compreender. — Era como Damon, mas… diferente. Mais antiga.
Lucian cerrou o maxilar.
— Então é verdade. Há algo vindo.
Isla olhou para a lua pela janela — e naquele instante, uma sombra passou sobre ela, apagando brevemente sua luz.
O silêncio se tornou pesado.
Lucian envolveu-a nos braços, apertando-a contra o peito.
— Seja o que for, não deixarei que te tire de mim.
Ela fechou os olhos, ouvindo o coração dele.
— E eu lutarei para proteger tudo o que amamos.
O vínculo brilhou em prata, unindo suas almas mais uma vez.
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Do outro lado das montanhas de Eryndor, a lua também brilhava — mas ali, sua luz parecia manchada. Entre ruínas antigas, uma figura encapuzada caminhava entre pedras e cinzas.
Suas mãos seguravam um colar de prata quebrado — o mesmo que um dia pertencera a Damon.
— O sangue Lunaris desperta — disse a figura, a voz rouca e velha. — E com ele… o ciclo recomeça.
Um vento gelado soprou, e olhos vermelhos se abriram na escuridão.
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De volta ao castelo, Isla dormia em paz nos braços de Lucian. Sonhava com luas duplas e campos dourados. Mas mesmo em sonho, uma sensação persistente pulsava em seu peito:
algo antigo estava voltando à vida.
E quando a aurora nasceu sobre Eryndor, o vento trouxe consigo um sussurro:
“A luz renasceu. E as sombras… também.”