Pré-visualização gratuita 1- Mayara
Duologia do livro Sentença de Desejo, mas não precisa ler o primeiro para entender o segundo.
Mayara narrando
E aí meninas, deixa eu me apresentar pra todas, tenho 25 anos, sou filha do Miguel e da Renata e herdeira do morro do Dendê, sou morena, cabelo preto e meu corpo bem definido do jeitinho que eu gosto, desde novinha, sempre tive no meio dessa vida, cresci vendo o corre do meu coroa o Miguel, e minha coroa a Renata ela sempre com aquela postura de quem não se deixa abalar, aprendi muito com eles, o morro do Dendê é minha casa, minha raiz, sempre estive ali na comunidade, vendo tudo acontecer e ajudando no que dá, o negócio é se manter firme, respeitar quem merece e claro nunca abaixar a cabeça pra quem tenta te derrubar, isso aqui é meu e quem não respeitar, vai ter que ver o que acontece.
Minha mãe era advogada, e sempre quis que eu seguisse o caminho dela mas nunca rolou, sempre curti mais essa aventura que é viver no morro, com o corre a liberdade o cheiro do perigo no ar, meu pai, como ama muito minha mãe, nunca se meteu no meio das ideias dela, mas no final das contas a última palavra sempre era da minha mãe, ela era quem mandava e quem falasse o contrário já era, sempre fui uma menina difícil de lidar, não tinha essa de boa aluna não, na escola, eu dava trabalho mesmo, e se algum menino tentasse tirar onda comigo já sabia, Eu batia sem nem pensar duas vezes, respeito é respeito.
Eu não tinha paciência pra essa parada de ser boazinha, sempre fui muito mais de agir de resolver as coisas do meu jeito, na escola, os meninos me respeitavam porque sabiam que eu não tava nem aí, eu tava ali pra mandar meu recado, e quem não entendia isso, se ferrava, o morro me ensinou a ser assim, não tinha espaço pra ser fraca, minha coroa, por mais que tentasse nunca me entendeu totalmente mas sabia que a vida que eu escolhia era minha e que ninguém ia me mudar, no final cada um no seu corre, ela nos tribunais, eu no meu mundo, onde as regras quem faz sou eu.
Tô aqui na boca resolvendo as paradas, que amanhã é dia de baile e eu quero que tudo saia do meu jeito, não vai ter erro, ninguém vai tirar o brilho do meu evento, é tudo ou nada, o Jorginho, filho da minha tia Melissa e do meu tio Sérgio, é meu sub aqui no morro, ele também não quis seguir o caminho certo da vida e tá suave, ele sabe como as coisas funcionam por aqui, tô trocando ideia com ele sobre os esquemas do baile de amanhã, tem que estar tudo no ponto.
— O esquema tá fechado, Jorginho?, pergunto olhando ele com aquela cara de quem não aceita resposta errada, ele com aquela calma responde:
— Pode deixar prima, já fechei com o pessoal do tráfico e com a galera do som, só falta tu dar o ok final.
Dei risada, porque sei que ele é bom no que faz mas é claro que o baile tem que ser do meu jeito com a minha cara, sem errar em nada, eu não quero bagunça não, Jorginho é firme mas é importante garantir que todo mundo saiba quem tá no comando.
Eu e o Jorginho saímos da boca e fomos almoçar no boteco aqui do morro, o lugar é simples mas a comida é boa e a galera é nossa, é sempre tranquilo, eu paguei o almoço, porque como sempre essa parte é comigo, ele ficou responsável pela torre de cerveja, sempre foi assim desde que éramos pequenos um cuida do outro, sempre dividindo a responsa de um jeito que só a gente entende, a gente sempre foi unido, nunca teve essa de um deixar o outro na mão.
Sentamos ali e comemos, rimos das nossas histórias de infância e é como se o tempo tivesse parado, Naquele momento a gente não tava falando de esquema de baile de dinheiro e nem de problemas, só de como a vida da gente sempre foi assim cada um no seu corre, mas sempre dando a vida um pelo outro, isso é o que importa, a gente sabe que o morro não é fácil, mas com a união que a gente tem, sempre dá pra seguir em frente, qualquer que seja o rolê.
A gente continuou ali trocando ideia e rindo, enquanto a cerveja ia descendo, o Jorginho sempre teve esse jeito de não se preocupar com as paradas, mas eu sei que ele cuida de tudo sem fazer alarde, ele sempre me lembra de como a gente cresceu junto sem um só passo em falso.
— E aí Mayara, quando a gente vai fazer aquele esquema de dar uns rolês pra fora do morro, tu sabe, né a gente tem que expandir, o baile de amanhã é só um começo.
Eu olhei pra ele pensando, e antes de responder, dei uma goleada na cerveja.
— Acho que tá na hora Jorginho, mas sem pressa a gente vai planejando com calma, a gente tem que garantir que tudo teja controlado aqui antes de dar o próximo passo, o baile tem que ser um sucesso e só depois é que vamos pensar em novos planos, aqui no morro o corre é pesado,e qualquer vacilo pode complicar."
Ele deu risada concordando e a conversa foi fluindo entre risos e planos, porque a vida no morro é assim um dia de cada vez, mas com o olhar no futuro e sempre buscando algo maior, a gente sempre teve essa visão e é por isso que estamos tão firmes e unidos, no fundo sabia que o baile de amanhã ia ser só mais um lembrete de como a gente se adapta e faz acontecer, não importa o que.
Subi pra minha casa já começando a sentir o peso do dia, mas a cabeça tava a mil com o baile de amanhã, fui direto pro banho sentindo a água gelada relaxando meu corpo, o dia vai ser longo e eu quero estar novinha em folha pra curtir o baile com tudo, a última coisa que quero é estar cansada e perder o ritmo, então o banho foi mais pra dar aquela relaxada.
Enquanto me enxugava pensei que talvez meus coroas, Miguel e Renata, cole no morro amanhã pra curtir o baile também, eles sempre foram meio reservados, mas sei que quando a vibe tá boa não tem jeito, eles acabam colando pra curtir com a galera, quem sabe até meu pai se solta um pouco mais, já que ele sempre ficou mais na dele, mas a energia do morro tem esse poder de fazer qualquer um entrar na dança.
A noite caiu e eu já tava mentalizando tudo, o baile vai bombar e eu vou ser a dona do rolê, afinal, essa vida no morro não é só sobre correr atrás de grana, é também sobre aproveitar e mostrar quem manda no pedaço, e amanhã, vou mostrar isso com todo o estilo.