Pré-visualização gratuita fragmentos de memória
O relógio da sala de espera marcava quinze minutos para as três, mas Amy parecia alheia à passagem do tempo. Sentada na poltrona de couro marrom, com os braços cruzados sobre o colo, ela fitava o chão, como se cada fissura no carpete contasse histórias que ninguém mais podia ver.
Quando a porta se abriu, o som suave do tilintar da maçaneta fez seu coração disparar. Ela levantou os olhos com um misto de receio e curiosidade. O rosto do terapeuta era calmo, quase neutro, e por um instante Amy desejou que ele não estivesse ali.
— Bom dia, Amy — disse ele, com uma voz tranquila que parecia preencher a sala sem esforço. — Como você se sente hoje?
Amy engoliu em seco e murmurou:
— Eu… não sei.
Ela queria dizer mais, mas as palavras pareciam fugir dela, como se tivessem sido levadas por um vento invisível, anos atrás, no dia que mudou sua vida.
— Não sabe ou não quer? — perguntou o terapeuta, inclinando-se ligeiramente para frente, mas mantendo uma distância respeitosa.
Amy desviou o olhar, sentindo o peso de algo que nunca conseguiu nomear. Seis anos atrás, ela havia desaparecido. Seis anos. E tudo o que restava eram fragmentos, imagens sem rosto, cheiros que surgiam do nada e a sensação constante de que alguém — alguém perigoso — havia passado por sua vida de forma irrevogável.
— Às vezes… — começou ela, hesitando — às vezes eu lembro de coisas. Mas nunca totalmente. Como se alguém tivesse apagado partes de mim.
O terapeuta anotou algo em seu caderno.
— Fragmentos podem ser pistas importantes, Amy. Podemos começar por aí. Sem pressa.
Ela respirou fundo e fechou os olhos. Uma imagem veio à mente: uma porta trancada, sombras dançando pelas paredes, o som de passos que ela não conseguia reconhecer. E, como sempre, o rosto dele estava borrado. Ela não conseguia vê-lo, não conseguia nomeá-lo. Mas sentia-o. Sentia a presença dele em cada medo, cada suspiro, cada noite sem sono.
— E se eu nunca lembrar? — murmurou Amy, quase para si mesma.
O terapeuta ergueu os olhos do caderno.
— Então vamos reconstruir juntas o que podemos, peça por peça. Nenhum medo é pequeno demais para ser ouvido, Amy. Nenhuma lembrança é insignificante.
Ela abriu os olhos. Pela primeira vez, algo dentro dela se moveu. Um fio de esperança misturado à dor. Talvez, naquele pequeno espaço acolhedor, ela pudesse começar a enfrentar aquilo que a assombrava há tanto tempo. Talvez, ali, ela pudesse finalmente olhar para o passado e entender que não estava sozinha.
O terapeuta fechou o caderno e olhou para Amy com um leve sorriso encorajador.
— Hoje, quero que façamos algo simples — disse ele. — Vou pedir que você feche os olhos e tente se lembrar de qualquer detalhe que apareça na sua mente. Pode ser uma cor, um som, um cheiro… qualquer coisa, por menor que seja. Sem pressão. Apenas observe.
Amy hesitou. Uma onda de ansiedade percorreu seu corpo, mas ela confiou naquela voz calma, como uma âncora em meio ao mar revolto de suas lembranças. Fechou os olhos e respirou fundo.
No início, só havia escuridão. Mas aos poucos, fragmentos começaram a surgir, como pequenas fotos rasgadas espalhadas pelo chão da memória.
Uma porta. Pintura descascada. Um cheiro metálico que a fez engasgar.
Um corredor longo, silencioso, exceto pelo eco de passos rápidos que não eram dela.
Um grito abafado, talvez dela, talvez de outra pessoa.
Amy engoliu em seco, sentindo o coração acelerar.
— Eu… eu vejo uma porta — murmurou, a voz trêmula. — Mas… não sei para onde ela leva.
— Está tudo bem — disse o terapeuta, com a calma de quem entende que a mente dela ainda estava em pedaços. — Apenas descreva o que vê. Qualquer detalhe, mesmo que pareça sem sentido.
Ela respirou fundo e tentou aprofundar o foco. Então outra imagem veio à tona:
Um brilho fraco no chão, como se a luz de uma lâmpada antiga refletisse no metal. Um cheiro de terra molhada. E, por um instante, um vulto atravessou sua visão — rápido, imperceptível, mas suficiente para que seu corpo inteiro tremesse.
— Quem… quem é isso? — perguntou Amy, a voz quase um sussurro.
— Não precisa saber ainda — respondeu o terapeuta. — Apenas observe. Às vezes, a mente nos dá pistas antes de nos dar respostas.
Ela assentiu, tentando manter a calma, mas as imagens continuaram a surgir em flashes desconexos. Um lenço vermelho caindo ao chão. Um som de chave girando. Um corredor que parecia se estender até o infinito.
Amy abriu os olhos, respirando com dificuldade, e olhou para o terapeuta.
— Eu… sinto que ele está aqui — disse, a voz trêmula. — Mas eu não consigo… ver o rosto.
O terapeuta inclinou-se levemente, sem pressa.
— Isso é normal, Amy. Fragmentos, sensações, sombras de memórias… É assim que o processo começa. Nós vamos juntar essas peças devagar. Um passo de cada vez.
Ela sentiu uma mistura de medo e alívio. Medo do que poderia lembrar e alívio por finalmente ter alguém que a guiasse por aquelas sombras. Pela primeira vez em seis anos, sentiu que talvez não precisasse enfrentar o passado sozinha.
naquele mesmo dia, porém, mais tarde...
O céu estava pesado naquela tarde, como se a cidade inteira segurasse a respiração.
Amy saiu da clínica de terapia com os ombros tensos. O nome da clínica brilhava discreto na fachada — Instituto Esperança. Ela respirou fundo. O cheiro de chuva sempre a deixava inquieta. Lembranças que não tinham forma. Sombras sem rosto.
Ela segurava o casaco contra o peito quando esbarrou em alguém na calçada.
Os papéis voaram.
— Desculpa! — os dois disseram ao mesmo tempo.
Amy se abaixou para juntar as folhas espalhadas. Mãos trêmulas. Então, outra mão tocou a dela.
Firme. Quente. Cautelosa.
Ela ergueu os olhos.
E o mundo pareceu desacelerar.
Luis Enrique.
Os traços marcantes, o olhar profundo que carregava algo que ela não soube nomear — culpa? dor? reconhecimento? Ele congelou por uma fração de segundo ao vê-la. Seis anos. Seis anos tentando esquecer aquele rosto assustado iluminado apenas pela luz fraca de um cativeiro. Seis anos tentando convencer a si mesmo de que obedecer ao pai era a única escolha.
E agora ela estava ali.
Livre.
Linda.
Vulnerável.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz mais suave do que pretendia.
Amy sentiu um arrepio inexplicável. Não de medo. Era outra coisa. Como se o corpo dela o reconhecesse antes da mente.
— Estou… sim. Eu só… — ela sorriu, nervosa — sou meio desastrada.
Ele devolveu o sorriso, mas havia tensão em seus olhos.
O vento soprou, levantando uma mecha do cabelo dela. Instintivamente, ele a afastou do rosto de Amy. O toque foi breve demais… mas intenso demais para dois desconhecidos.
Amy prendeu a respiração.
Havia algo nele. Uma familiaridade impossível.
— Eu sou Luis — ele disse, como se aquela apresentação fosse um risco.
Ela hesitou por um segundo.
— Amy.
Quando ela disse o próprio nome, o coração dele disparou. Ouvir aquilo da boca dela — depois de anos repetindo aquele nome em silêncio, arrependido — era quase insuportável.
Um trovão ecoou ao longe.
A chuva começou a cair.
Sem pensar, ele tirou o próprio casaco e colocou sobre os ombros dela.
— Você vai pegar uma gripe — murmurou.
Amy riu baixinho.
— E você?
— Eu aguento.
Os dois ficaram ali, parados sob a chuva fina que começava a cair, como se o destino tivesse decidido congelar aquele momento.
Ela não sabia por que queria continuar ali. Ele sabia exatamente por que deveria ir embora.
Mas não conseguiu.
— Posso… te pagar um café? — ele perguntou, tentando parecer casual. — Como pedido oficial de desculpas pelo acidente na calçada.
Amy inclinou a cabeça, estudando aquele homem misterioso que fazia seu coração bater mais rápido sem motivo algum.
Talvez fosse loucura. Talvez fosse destino.
— Pode.
E foi assim que começou.
Não com lembranças. Não com verdades.
Mas com um olhar que dizia tudo o que ainda não podia ser dito.
no dia seguinte, ainda bem cedo.
O sol da tarde entrava pelas janelas da cafeteria, espalhando um brilho dourado sobre as mesas de madeira. Amy mexia distraidamente no seu café, tentando acalmar o coração que insistia em bater rápido, mesmo sem motivo aparente. Havia algo no ar, uma sensação de expectativa que ela não conseguia explicar.
Então ele entrou. Luis Enrique. Cada passo dele parecia medir o espaço, o ambiente. Os olhos dele se encontraram com os dela, e por um segundo, a cafeteria desapareceu. A respiração de Amy ficou mais pesada; algo no olhar de Luis Enrique a fez estremecer, uma mistura de curiosidade, desejo e uma familiaridade que não podia entender.
Ele se aproximou com um sorriso lento, enigmático, e perguntou:
— Posso me sentar aqui?
Amy engoliu em seco, sentindo o calor subir ao rosto. Algo nela dizia “não”, e outra parte dizia “sim” com intensidade quase perigosa.
— Claro… — murmurou, a voz falhando levemente.
Quando ele se sentou, a proximidade deles era quase insuportável. O aroma dele, uma mistura de perfume e algo indefinível, invadiu seus sentidos. Seus joelhos quase se tocaram sob a mesa, e Amy sentiu um formigamento que ia além do simples nervosismo.
— Você gosta de poesia? — perguntou Luis Enrique, notando o livro que ela segurava.
— Sim… — respondeu Amy, a voz mais baixa do que pretendia —. Às vezes, as palavras dizem coisas que a gente não consegue.
Ele inclinou-se levemente, aproximando-se sem invadir, e falou com um tom que parecia sussurrar só para ela:
— Eu também procuro palavras que… consigam dizer o que sentimos sem precisarmos admitir.
Amy sentiu um arrepio percorrer a espinha, e quando suas mãos se tocaram levemente ao mesmo tempo que ela mostrava uma página favorita, o contato enviou uma onda elétrica através de ambos. O mundo parecia sumir, deixando apenas o calor da presença dele perto dela.
Ela o encarou, tentando decifrar aquele magnetismo.
— É… estranho — disse Amy, quase sem fôlego —, mas você me parece familiar.
Luis Enrique engoliu em seco, sentindo a culpa apertar seu peito, mas também a tentação de se aproximar mais.
— Talvez algumas conexões não precisem de explicação imediata — disse ele, com um sorriso que queimava por dentro.
O olhar deles se encontrou, carregado de desejo contido, um convite silencioso que nenhum dos dois poderia ignorar. Havia química, tensão, e uma promessa implícita: algo poderoso estava começando, e o passado sombrio ainda estava à espreita, pronto para explodir no momento certo.
Amy sorriu nervosamente, incapaz de desviar os olhos. Luis Enrique respirou fundo, consciente de cada batida do coração dela, e do próprio, sentindo que, por mais que tentasse, o segredo que carregava podia transformar essa faísca em fogo… um fogo que ninguém poderia controlar.