dividida

1234 Palavras
O quarto de Amy estava tomado por risadas naquela noite. Almofadas espalhadas pelo chão, esmaltes abertos, chocolate pela metade. Era uma tentativa das amigas de fazerem algo leve… normal. Mas o assunto, inevitavelmente, virou Amy. — Então vamos falar do verdadeiro príncipe dessa história — disse Clara, jogando-se na cama. — O doutor Marcos. Julia soltou uma gargalhada. — Ah, o médico bonzinho. O homem perfeito. O santo de jaleco branco. Amy, sentada no tapete, revirou os olhos. — Vocês exageram. — Exageramos? — Clara ergueu as sobrancelhas. — Amy, aquele homem olha pra você como se estivesse segurando um cristal raro. — E ele é médico — completou Julia. — Cuida de você com a maior paciência do mundo. Te escuta. Te respeita. Nunca forçou nada. Amy ficou em silêncio por um instante. Era verdade. Marcos tinha sido presença constante desde o início da terapia complementar. Sempre gentil. Sempre atento. Sempre… seguro. — Ele gosta de você. Muito — disse Clara, agora mais séria. — Dá pra ver. Amy suspirou. — Eu sei. — E? — Julia inclinou o corpo para frente. — O que você sente? Amy mordeu o lábio inferior. — Eu me sinto protegida quando estou com ele. Ele me passa calma. É como se tudo fosse organizado, lógico… previsível. Clara trocou um olhar significativo com Julia. — E isso é r**m? Amy hesitou. — Não… mas… — Mas não faz seu coração disparar — completou Julia com um sorriso pequeno. Amy desviou o olhar. — Ele merece alguém inteiro. Alguém que não fique comparando sensações. Clara se aproximou, sentando ao lado dela. — Marcos é o tipo de homem que qualquer mãe aprovaria. Inteligente, gentil, estável… ele claramente está apaixonado por você. — Dá pra ver na forma como ele fala seu nome — acrescentou Julia. — Parece que ele mede cada palavra pra não te machucar. Amy abraçou os joelhos. — Eu tenho medo de magoar ele. — E você não pode escolher alguém só porque ele é perfeito no papel — disse Clara com suavidade. — Amor não é currículo. Julia sorriu de lado. — Mas vamos combinar… se você não quiser, eu quero o doutor bonzinho pra mim. As três riram. Mas no fundo, a tensão era real. Porque Marcos não era apenas “o médico bonzinho”. Ele estava apaixonado. E, sem saber, estava entrando em uma disputa silenciosa pelo coração de uma mulher que ainda tentava entender o próprio. O riso foi diminuindo aos poucos, até que o quarto voltou a ficar em silêncio. Amy ainda estava abraçada aos próprios joelhos, o olhar perdido em algum ponto do chão. Clara percebeu primeiro. — O que você não está dizendo? Amy respirou fundo. O nome veio como um peso doce e perigoso ao mesmo tempo. — Eu estou confusa… por causa do Luis Enrique. Julia e Clara trocaram um olhar imediato. — Eu sabia — murmurou Julia. Amy passou a mão pelo rosto, nervosa. — Quando eu estou com o Marcos, é calmo. Seguro. Eu consigo respirar. Ele me faz sentir cuidada… como se tudo fosse ficar bem. Ela fez uma pausa. — Mas quando eu estou com o Luis… — sua voz ficou mais baixa — é diferente. Clara inclinou a cabeça. — Diferente como? Amy fechou os olhos por um segundo, como se estivesse tentando organizar sentimentos demais. — É intenso. Meu coração dispara. Eu perco o controle do que eu estou sentindo. Ele me olha e parece que vê coisas em mim que nem eu entendo. É como se… — ela hesitou — como se ele tocasse alguma parte minha que ainda está machucada. Julia franziu a testa. — Isso parece perigoso. — Talvez seja — Amy admitiu, quase num sussurro. — Com o Marcos eu me sinto protegida. Com o Luis… eu me sinto viva. O silêncio voltou, mais pesado dessa vez. — E isso te assusta? — perguntou Clara com suavidade. Amy assentiu. — Muito. Porque eu não sei se o que eu sinto é amor ou se é só… intensidade. Eu não sei se estou escolhendo com o coração ou fugindo da tranquilidade porque ela parece fácil demais. Ela engoliu seco. — Eu não quero machucar o Marcos. Ele não merece isso. Mas eu também não consigo ignorar o que eu sinto pelo Luis Enrique. Julia segurou a mão dela. — Você não está errada por sentir. Amy deixou escapar um suspiro trêmulo. — Eu só queria que fosse simples. Mas quando eu penso no Luis… parece que algo dentro de mim reconhece ele. E eu não sei explicar por quê. O quarto ficou em silêncio. E pela primeira vez naquela noite, as amigas não tinham uma resposta pronta. Porque o coração de Amy não estava dividido entre dois homens. Estava dividido entre segurança e paixão. E ela ainda não sabia qual das duas poderia salvá-la. no dia seguinte, ainda bem cedo, Amy vai ao café O café estava tranquilo naquela tarde. Luz suave entrando pelas janelas, o som baixo de xícaras se tocando e conversas discretas ao fundo. Amy entrou distraída, segurando o celular. Tinha combinado de encontrar Marcos ali para conversar depois da sessão. Precisava organizar a cabeça. Ela respirou fundo. Precisava ser honesta. Quando levantou os olhos para procurar por ele, viu primeiro o jaleco dobrado sobre a cadeira. Marcos estava sentado perto da janela, elegante, atento à porta como se estivesse esperando exatamente aquele momento. Ele sorriu ao vê-la. Um sorriso calmo. Seguro. Amy começou a caminhar até ele. E então… parou. Do outro lado do salão, encostado no balcão, estava Luis Enrique. Sem aviso. Sem preparação. Ele a viu no mesmo instante. O olhar dele mudou. Primeiro surpresa. Depois algo mais intenso — como se o ar tivesse ficado pesado demais. Amy sentiu o coração disparar. Marcos se levantou ao notar a hesitação dela. — Amy? — ele chamou, gentil. Luis deu um passo à frente quase no mesmo tempo. O mundo pareceu encolher. Amy ficou no meio dos dois. — Você marcou comigo hoje — disse Marcos, sem perceber a tensão crescente. — Eu… — Amy começou, mas a voz falhou. Luis se aproximou o suficiente para que o perfume dele a envolvesse. — Não sabia que você vinha aqui — ele disse, a voz baixa, mas firme. Marcos finalmente percebeu. O olhar dele deslizou para Luis. Avaliador. Contido. — Amigo seu? — perguntou Marcos. Amy sentiu o peso da pergunta como se fosse uma escolha pública. — É… — ela hesitou — Luis Enrique. Luis estendeu a mão. — Prazer. Marcos apertou com firmeza. — Marcos. O silêncio entre os dois homens era educado demais. Controlado demais. Amy podia sentir. Marcos era estabilidade. Postura. Cuidado. Luis era intensidade contida. Algo imprevisível pulsando sob a superfície. — Amy, você quer sentar? — Marcos perguntou, gentil como sempre. Luis manteve o olhar nela. — Ou prefere conversar comigo um instante? Era quase um desafio silencioso. O coração de Amy batia tão forte que ela tinha medo de que os dois ouvissem. Ela olhou para Marcos. Depois para Luis. Segurança. Paixão. Calma. Tempestade. — Eu… — sua voz saiu fraca. Os dois esperavam. O café parecia ter ficado pequeno demais para os três. E naquele instante, Amy percebeu que não estava apenas encontrando dois homens no mesmo lugar. Estava sendo obrigada a encarar o próprio coração. E ele ainda não tinha escolhido um lado.
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