clima tenso

998 Palavras
O silêncio entre os três parecia prestes a rachar. — Eu… — Amy tentou novamente, mas a garganta travou. E então— — AMY?! A voz alta, dramática e completamente fora de contexto ecoou pelo café. Clara surgiu como um furacão entre as mesas, seguida por Julia carregando duas sacolas enormes como se estivesse no meio de uma emergência fashion. — Graças a Deus te achamos! — Clara exclamou, segurando o braço de Amy como se ela estivesse prestes a desmaiar. — Você não atende o celular! Amy piscou, confusa. — Eu… Julia entrou no jogo imediatamente. — A gente precisa de você agora. Tipo, agora mesmo. É uma situação crítica. Clara olhou rapidamente para Marcos e depois para Luis Enrique, avaliando a tensão no ar em milésimos de segundo. — Oi, gente — ela disse, com um sorriso exageradamente simpático. — Interrompemos alguma coisa? Marcos manteve a postura educada. — Não exatamente. Luis cruzou os braços, observando tudo com aquele olhar penetrante que parecia enxergar através das encenações. Clara se inclinou discretamente para Amy e sussurrou: — Piscou duas vezes, a gente te sequestra daqui. Amy quase riu, o coração ainda acelerado. Julia entrou entre os dois homens com naturalidade estratégica. — Amy prometeu ajudar a gente a escolher um vestido pra… — ela fez uma pausa dramática — uma ocasião extremamente importante. — Importantíssima — reforçou Clara. Marcos olhou para Amy. — Você não comentou nada sobre isso. Amy finalmente conseguiu falar. — Foi… de última hora. Luis inclinou levemente a cabeça. — Engraçado. Havia um meio sorriso no rosto dele. Ele sabia. Claro que sabia. Clara segurou as mãos de Amy. — Amiga, vamos. É urgente. Amy respirou fundo, aproveitando aquela saída inesperada como quem encontra ar depois de ficar tempo demais submersa. Ela olhou primeiro para Marcos. — Me desculpa. A gente conversa depois? Marcos assentiu, embora a decepção fosse sutilmente visível. — Claro. Eu te ligo. Depois, ela encarou Luis Enrique. O olhar entre eles foi diferente. Mais silencioso. Mais carregado. — A gente se fala — ele disse, baixo. Não era pergunta. Era promessa. Clara já estava puxando Amy pelo braço. — Vamos, vamos, antes que feche! As três praticamente fugiram pela porta do café. Assim que dobraram a esquina, Amy encostou na parede e soltou o ar com força. — Eu ia ter um colapso — ela confessou. Julia abriu um sorriso vitorioso. — A gente percebeu. Clara cruzou os braços. — Você estava no meio de um triângulo amoroso ao vivo. Precisava de reforço tático. Amy levou a mão ao peito, ainda sentindo o coração disparado. — Vocês me salvaram. Clara piscou. — Sempre. Julia inclinou a cabeça. — Mas agora você vai ter que decidir, amiga. Porque hoje o universo praticamente colocou os dois na sua frente ao mesmo tempo. Amy ficou em silêncio. Ela não tinha sido salva de uma escolha. Só tinha ganhado tempo. E, no fundo, ela sabia… O próximo encontro talvez não tivesse resgate. Dentro do café, o silêncio que ficou depois que Amy saiu era quase constrangedor. Marcos voltou a se sentar lentamente, ajeitando o relógio no pulso com precisão quase cirúrgica. Luis Enrique permaneceu de pé por alguns segundos, observando a porta por onde Amy havia desaparecido. Só depois se aproximou da mesa. — Amigas… eficientes — comentou Luis, com um meio sorriso. Marcos apoiou os cotovelos na mesa. — Amigos também costumam ser, quando é necessário. O olhar entre os dois era educado. Controlado. Mas afiado. — Você é médico dela, certo? — perguntou Luis, puxando a cadeira sem pedir permissão. — Sou. — A resposta foi simples. — E me preocupo com o bem-estar dela. — Imagino. Luis encostou-se na cadeira, relaxado demais para ser natural. — Ela parece… confortável com você. Marcos inclinou levemente a cabeça. — Conforto é importante para alguém que passou pelo que ela passou. Luis sustentou o olhar. — Nem tudo se resolve com conforto, doutor. Marcos não desviou. — Nem tudo se resolve com intensidade. A tensão subiu um grau. — Você acha que eu sou intenso demais? — Luis perguntou, quase divertido. — Acho que algumas pessoas confundem intensidade com profundidade. Luis soltou uma leve risada nasal. — E algumas confundem segurança com previsibilidade. Marcos segurou o silêncio por um segundo. — Amy precisa de estabilidade. — Amy precisa se sentir viva — retrucou Luis imediatamente. O ar entre eles parecia vibrar. Marcos apoiou as costas na cadeira. — Você a conhece há pouco tempo. — Tempo não mede o que a gente sente. — Não — Marcos concordou, firme. — Mas mede responsabilidade. Luis estreitou levemente os olhos. — Está insinuando alguma coisa? — Só estou dizendo que pessoas fragilizadas não precisam de tempestades. Luis se inclinou para frente, a voz mais baixa. — Talvez você esteja subestimando a força dela. Marcos respirou fundo. — Eu nunca subestimo Amy. Pela primeira vez, o nome dela soou igual nos dois lábios. Importante. Luis passou a mão pelo queixo, pensativo. — Ela vai escolher. Marcos assentiu. — Vai. — E você está confiante? O médico segurou o olhar dele com calma cirúrgica. — Eu não disputo. Eu permaneço. Luis sorriu de lado. — Eu não permaneço. Eu marco. O silêncio voltou. Não era uma briga. Era um aviso mútuo. Marcos se levantou primeiro. — Espero que, seja qual for o papel que você tenha na vida dela, seja para somar. Luis também se levantou. — Isso depende de quanto espaço você acha que ela tem para sentir. Marcos colocou a carteira sobre a mesa para pagar o café. — Amy merece paz. Luis deu um passo para trás, ajeitando o casaco. — Às vezes, a paz vem depois do fogo. Os dois trocaram um último olhar. Não havia gritos. Não havia ameaça explícita. Mas estava claro. Nenhum dos dois pretendia recuar. E, em algum lugar da cidade, Amy ainda não fazia ideia de que o coração dela acabara de se tornar território de guerra silenciosa.
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