triângulo amoroso

1102 Palavras
🌙 Amy No quarto, a luz do abajur criava sombras suaves nas paredes. Amy estava sentada na cama, abraçando o travesseiro contra o peito, como se tentasse conter o próprio coração. Ela fechou os olhos… e viu os dois. Marcos, com aquele olhar paciente, seguro, quase curativo. A voz dele era sempre firme, como se cada palavra tivesse sido escolhida para não ferir. Luis Enrique… era diferente. Quando pensava nele, não havia calma. Havia calor. Havia algo que queimava baixo, constante, impossível de ignorar. — O que está acontecendo comigo? — sussurrou para o quarto vazio. Ela queria paz. Mas também queria sentir. E o pior era que, quando lembrava do encontro no café, não conseguia esquecer o modo como Luis a olhou — como se ela fosse a única coisa importante ali. Nem o modo como Marcos a observou — como se estivesse pronto para segurá-la se ela caísse. Amy levou a mão ao peito. Seu coração não estava dividido por capricho. Estava dividido porque os dois despertavam partes diferentes dela. E ela ainda não sabia qual dessas partes precisava vencer. 🌒 Luis Enrique Na varanda do apartamento, Luis apoiava os braços na grade, olhando a cidade iluminada. Ele estava irritado. Não com Amy. Com a situação. Com Marcos. Com o fato de que, pela primeira vez, ele não tinha controle. — Um médico — murmurou para si mesmo. Marcos representava tudo o que ele não era: estabilidade, confiança, aprovação social. O tipo de homem que qualquer pessoa diria ser “a escolha certa”. Luis fechou os olhos. Mas quando Amy estava perto dele… ela tremia. E não de medo. Ele lembrava do jeito como ela o olhava, como se estivesse descobrindo algo novo dentro de si. — Ela sente também — disse em voz baixa. Ele sabia. Mas sentir não era suficiente. Ela precisava escolher. E ele precisava provar que não era apenas intensidade passageira. Pela primeira vez, Luis não queria vencer. Queria merecer. 🌑 Marcos Marcos estava em seu consultório, já depois do expediente. A mesa organizada, os prontuários alinhados. Mas sua mente estava longe da ordem habitual. Ele lembrava do olhar de Amy no café. Confuso. Vulnerável. Dividido. Ele sempre soube que ela precisava de cuidado. Sabia que seu papel era oferecer estabilidade. Ser chão firme. Mas hoje, pela primeira vez, percebeu algo diferente. Ela não o olhava com a mesma urgência que olhava o outro. Marcos passou a mão pelo rosto, pensativo. — Intensidade não é amor — murmurou para si. Mas e se fosse? Ele não era homem de competir. Nunca foi. Mas também não era homem de desistir. Amy merecia alguém que permanecesse quando o fogo diminuísse. E ele estava disposto a ser esse alguém. Mesmo que, no fundo, temesse que ela escolhesse as chamas. Na mesma cidade. Na mesma noite. Três corações acordados. Um querendo segurança. Outro querendo redenção. E uma mulher tentando descobrir se amor era abrigo… …ou incêndio. O escritório era imponente demais para ser confortável. Madeira escura, cortinas pesadas, diplomas e fotografias antigas nas paredes — uma sala construída para impor respeito. Ou medo. Luis Enrique entrou sem bater. O pai estava atrás da mesa, mais pálido do que de costume, mas ainda carregando aquela postura rígida que parecia inabalável. — Você pediu para falar comigo — disse Luis, frio. O homem não respondeu de imediato. Fechou uma pasta com calma calculada. — Vou passar por uma cirurgia na próxima semana. Luis não demonstrou surpresa. — E? O pai levantou os olhos, irritado com o tom. — Não é um procedimento simples. Ficarei afastado por meses. Silêncio. — Preciso que você assuma os negócios da família. A frase caiu como uma ordem, não como um pedido. Luis soltou uma risada curta, sem humor. — Precisa? — Você é meu filho. — Isso nunca foi relevante antes. O ar ficou pesado. O pai se levantou lentamente, apoiando as mãos na mesa. — Independentemente do que aconteceu no passado, você carrega meu sobrenome. Isso significa responsabilidade. Luis deu um passo à frente. — “O que aconteceu no passado”? — repetiu, a voz mais baixa, mais perigosa. — Você quer mesmo reduzir a isso? O homem sustentou o olhar. — Foi uma decisão estratégica. — Foi um sequestro. A palavra ecoou pela sala. O pai endureceu o maxilar. — Você executou. Luis sentiu o sangue ferver. — Porque você mandou. O silêncio que se seguiu não era vazio. Era carregado de tudo o que nunca tinha sido resolvido. — Você era jovem — disse o pai, com frieza clínica. — Ingênuo o suficiente para acreditar que poderia sair limpo. — Eu acreditava em você. A frase saiu antes que ele pudesse conter. O pai desviou o olhar por um segundo. Um único segundo. — Não estamos aqui para discutir isso — retomou ele, recuperando a postura. — A empresa não pode parar. Preciso que você assuma enquanto me recupero. Luis respirou fundo. — E o que você acha que eu sou? Seu substituto temporário? Seu herdeiro obediente? — Você é o único capaz. — Ou o único que você consegue manipular? O pai caminhou até a frente da mesa. — Você quer redenção? Construa algo maior do que seus erros. Luis travou o maxilar. — Não use essa palavra. — Você acha que eu não sei? — o pai continuou. — A garota. Amy. O nome pairou no ar como uma ameaça silenciosa. Os olhos de Luis escureceram. — Não a envolva nisso. — Ela já está envolvida. Você a colocou nisso. A tensão subiu como eletricidade. — Se eu assumir — disse Luis, controlando cada sílaba — as coisas serão do meu jeito. O pai arqueou levemente a sobrancelha. — Você ainda pensa que tem escolha? Luis se aproximou o suficiente para que ficassem frente a frente. — Eu sempre tenho escolha. O silêncio entre eles era uma batalha antiga. Por fim, o pai voltou para trás da mesa. — A cirurgia é em cinco dias. Os contratos estarão prontos. Pense como quiser, mas a empresa será sua responsabilidade. Luis não respondeu. Virou-se em direção à porta. — Você queria que eu fosse forte — disse ele, antes de sair. — Só nunca gostou quando eu parei de ser obediente. A porta se fechou com firmeza. Dentro do escritório, o pai permaneceu imóvel. Do lado de fora, Luis respirava como se tivesse acabado de sair de um campo de guerra. Assumir os negócios significava poder. Mas também significava estar mais perto do homem que destruiu sua vida. E talvez… Mais perto da verdade que ainda poderia destruir Amy.
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