O caminho de volta pra casa da Rosa pareceu mais curto do que a subida, mas o coração de Elisa ainda batia acelerado, martelando contra as costelas. Dudu caminhava alguns passos à frente, com a mão perto da cintura, o olhar varrendo cada beco, cada janela, enquanto ela segurava João no colo, apertado contra o peito. O menino já tinha parado de chorar, distraído com o pirulito que o Lobão deu, mas ainda fungava de vez em quando, assustado.
O morro já estava voltando à rotina, como se nada tivesse acontecido. Algumas pessoas conversavam nas portas baixinho, comentando a correria. Crianças brincavam novamente no campinho de terra, correndo atrás da bola. As janelas que fecharam com pressa agora estavam entreabertas de novo. Mas Elisa ainda sentia o eco dos tiros dentro de si, vibrando nos ossos. O corpo não desarmava.
— Já tá tranquila? — perguntou Dudu, sem olhar pra trás, a voz grossa, mas não rude.
— Tô… — Elisa respondeu, mesmo sem ter certeza, mesmo com a voz falhando — Obrigada por… trazer a gente.
Ao chegarem na casa de Rosa, no portão baixo da varanda, ele apenas assentiu com a cabeça. Não sorriu. Não precisava.
— Qualquer coisa, grita — disse — Tem dois lá em cima agora. 24 horas. Fica tranquila.
Elisa entrou, respirando fundo pela primeira vez desde que saiu da casa do Lobão, como se só agora o ar entrasse direito no pulmão.
Rosa fechou a porta atrás dela, trancando com a tranca e a corrente. O barulho metálico deu uma sensação estranha de alívio.
— Viu? — Rosa falou, indo até ela e pegando João no colo pra ela respirar — Ele cuidou direitinho. Falei que ele não ia deixar nada acontecer.
Elisa sentou na cadeira de plástico da varanda, as pernas bambas. Ainda pensativa, olhando pro nada. A cabeça a mil.
— Isso sempre acontece? — perguntou, passando a mão no rosto, cansada — Esses tiros… essa correria toda?
— Às vezes — Rosa respondeu, dando de ombros enquanto balançava João — Semana passada teve também. Mas é rápido. Resolve logo. O Lobão não deixa criar caso — ela fez uma pausa, olhando pra sobrinha — Mas você acostuma, menina. O ouvido acostuma.
Elisa não tinha certeza se queria se acostumar. Se era possível acostumar com medo. Com a morte passando na rua de casa.
João já estava mais animado no colo da tia, batendo o pirulito meio derretido na mesa de fórmica, fazendo meleca. Elisa pegou um paninho e limpou a boca dele com carinho, a boquinha lambuzada, tentando focar no presente, no filho. No agora.
Não demorou muito e uma vizinha apareceu no portão da varanda. Era a Marlene, a que emprestou os esmaltes.
— Rosa, fiquei sabendo da correria… — disse, entrando sem esperar convite, com a cara assustada — Vim ver se tava tudo bem com vocês.
Os olhos dela, no entanto, foram direto para Elisa. Passaram pela Rosa e pararam na sobrinha. Medindo. Analisando.
— E você, menina? — perguntou, sentando na mureta — Ficou com medo? Ouvi que foi f**o lá em cima.
— Um pouco… — Elisa respondeu, dando um sorriso fraco, sem jeito — Muito, na verdade.
— Normal — a mulher riu, mas não tinha graça nenhuma no riso — Primeira vez assusta mesmo. Depois cê nem liga — ela inclinou a cabeça — Mas já vi que o Lobão mandou te levar pra dentro. Pra casa dele.
Rosa lançou um olhar discreto, cortante, pra Marlene, um aviso. Mas a conversa já tinha começado. E no morro, conversa não para no meio.
— O morro inteiro viu, Elisa — Marlene continuou, ignorando a Rosa — Dudu subindo com você e o menino, os outros dois atrás. Ele saiu de lá de baixo voado quando ouviu que perguntaram de loira.
Elisa sentiu o rosto esquentar na hora. O sangue subir. Queimando a orelha.
— Ele só… ajudou — defendeu, a voz saindo mais alta do que queria — Tava tendo tiro. Ele tirou a gente de lá. Só isso.
— Só? — a mulher arqueou a sobrancelha, com um sorrisinho de lado — Minha filha, ele não faz isso com qualquer um. Não leva pra casa dele. A casa dele é bunker, menina. Nem a polícia entra. Nem a mãe dele.
Mais duas mulheres apareceram logo depois no portão, a Suelen e a outra que fez unha de manhã. E o assunto continuou, crescendo, alimentando. A fofoca era comida no morro.
— Dizem que ele pegou o menino no colo — disse Suelen, se abanando com a mão — Que o João ficou lá, quietinho.
— Eu vi! — Marlene confirmou, batendo palma — A Cida me contou que viu da janela. O Lobão com criança no colo, dando pirulito. Parece até pai.
— A Bianca não gostou não… — a outra soltou, e mordeu a língua depois, tarde demais.
O nome fez Elisa ficar em silêncio na mesma hora. O corpo retesou. João parou de bater o pirulito.
— Ela tava lá? — Elisa perguntou, baixo, sem querer, mas precisava saber.
— Tava — Marlene respondeu, já sem freio na língua — Chegou logo depois que cê saiu com o Dudu. Entrou na casa dele sem bater. Saiu com uma cara… — fez uma careta — De quem chupou limão. Dizem que discutiram.
Rosa tentou mudar o assunto na marra, levantando e batendo palma.
— Chega, Marlene! Vamos falar de outra coisa. De novela. A menina tá cansada, assustada. Deixa ela em paz.
Mas Elisa já tinha entendido. Já tinha caído a ficha de vez.
A atenção dele… não tinha passado despercebida. Não por ninguém. Cada gesto, cada ordem, cada pirulito, tinha sido visto, contado, aumentado. E agora era dela. O peso era dela.
Mais tarde, quando o movimento diminuiu e o sol começou a cair, pintando o céu de laranja, Elisa voltou para o cantinho de manicure na varanda. Tentava se concentrar nas unhas da última cliente do dia, uma menina de quinze anos, mas a mente insistia em voltar para a cena. Pra casa grande. Pro silêncio. Pro João nos braços dele.
A forma como ele falou. Baixo. Firme.
_"Ninguém mexe contigo."_
Ela balançou a cabeça, forte, tentando afastar. Jogar pra longe. Não podia pensar nisso. Não devia. Era perigoso. Ele era perigoso. E ela tava ali por causa do filho, não pra se iludir com p******o de bandido.
Mas, naquele mesmo instante, como se o pensamento chamasse, alguém parou na entrada da varanda. A sombra tampou o sol.
Bianca.
Ela não entrou. Não pediu licença. Ficou apenas parada no portão, com o corpo todo em pose. A calça colada, o top, o cabelo solto. O batom vermelho. O olhar era uma lâmina.
— Tá se adaptando rápido… — disse, com um sorriso que não chegou aos olhos, que não curvou a boca de verdade — Já tá até trabalhando. Ganhando dinheiro.
Elisa levantou o olhar da unha que pintava. Largou o pincel. O coração, que tinha acalmado, disparou de novo. Mas era outro tipo de medo agora.
— Tô tentando — respondeu, a voz neutra, sem se levantar — Sobreviver.
Bianca deu mais um passo, entrando na varanda sem ser convidada. O salto bateu no cimento. Parou perto da mesa. Perto demais.
— Só toma cuidado — falou, a voz aveludada, mas cheia de veneno — Morro come gente viva, loira. Principalmente as que chegam achando que é tudo festa.
— Com o quê? — Elisa sustentou o olhar, mesmo com a mão tremendo embaixo da mesa — Com unha?
Bianca inclinou levemente a cabeça, analisando ela como se fosse inseto. Depois olhou pra João, que brincava no tapete, alheio. O olhar demorou no menino. E isso gelou Elisa mais que qualquer tiro.
— Nem tudo que parece p******o… é — disse, por fim, voltando o olhar pra Elisa — Às vezes é coleira. E coleira aperta. Enforca.
O silêncio ficou pesado. Denso. A cliente de quinze anos parou de mexer no celular, sentindo o clima. Rosa apareceu na porta da sala, com a cara fechada, pronta pra intervir.
Depois, Bianca deu um sorriso de verdade. Frio. Virou e foi embora, rebolando, sem pressa. Sem olhar pra trás.
Elisa ficou parada, com o pincel na mão, sentindo um frio leve percorrer a espinha, subindo pela nuca. A mão gelou.
Rosa veio até ela na hora.
— Não escuta essa cobra, menina — disse, brava — Ela tá com inveja. Sempre foi.
— Inveja de quê, tia? — Elisa perguntou, a voz saindo fraca — Eu não tenho nada. Eu fugi. Eu tô com a roupa do corpo.
— Cê tem o que ela nunca teve — Rosa respondeu, olhando na direção que Bianca foi — A atenção dele de verdade. Não só a cama. O cuidado.
Elisa fechou os olhos por um segundo. O morro não era só acolhimento. Não era só gente humilde dividindo café. Não era só a Rosa.
Também era disputa. Era território. Era ciúme. Era bala e era veneno.
E ela, sem querer, tinha entrado na linha de tiro dos dois. Do ex dela, que mandou o carro preto. E da ex dele, que mandou o aviso.
Naquela noite, com João dormindo, Elisa ficou na janela olhando pra laje da frente. Os dois homens tavam lá. Firmes. Vigiando.
Ela pegou o celular velho. Não tinha mensagem nova. Mas não precisava.
Sabia que ele tava acordado. Sabia que ele tava olhando também. De algum lugar.
E pela primeira vez, entendeu o que a Bianca quis dizer. Coleira. Porque p******o tem preço. E o preço era ser dele. Mesmo sem ser. Mesmo sem querer.
E no morro, quando o Lobão marca, não tem volta. Pro bem. E pro m*l.