O barulho dos tiros já havia diminuído, mas o corpo de Elisa ainda tremia. João continuava agarrado a ela, chupando o pirulito enquanto fungava baixinho.
Henrique observava em silêncio.
Ele não parecia nervoso. Não parecia abalado. Era como se aquilo fosse apenas parte da rotina. Isso, de alguma forma, deixava Elisa ainda mais consciente de que aquele mundo era muito diferente do dela.
— Já passou. — ele disse, com a voz calma.
Elisa assentiu, mas suas mãos continuavam frias.
— Você não tá acostumada com isso, né? — ele perguntou.
Ela negou com a cabeça.
— Nunca… nunca ouvi tão perto.
Henrique apoiou o rádio na mesa.
— Aqui acontece. Mas ninguém mexe contigo.
Mais uma vez aquela frase.
Proteção.
João, já mais calmo, olhou para Henrique com curiosidade. O menino inclinou o corpo para frente, esticando os bracinhos pequenos.
Elisa se surpreendeu.
— João… — murmurou.
Henrique arqueou levemente a sobrancelha.
— Ele quer vir. — disse Rosa, que estava ali perto.
Por um segundo, Henrique hesitou. Depois estendeu os braços e pegou o menino com cuidado, como se tivesse receio de machucar.
João se acomodou contra o peito tatuado dele, segurando a corrente que pendia em seu pescoço.
O contraste era grande demais.
Um homem temido.
Uma criança tranquila em seus braços.
Elisa observava, sem conseguir disfarçar a surpresa.
Henrique olhou para o menino.
— Pesado, hein, campeão.
João riu, batendo a mãozinha no peito dele.
Foi nesse momento que uma voz surgiu na entrada.
— Tá tudo bem aí?
Bianca.
Ela parou ao ver a cena.
Os olhos dela foram direto para João no colo de Henrique. Depois para Elisa sentada. O olhar endureceu.
— Tá. — Henrique respondeu, simples.
Bianca entrou mais alguns passos, cruzando os braços.
— Fiquei sabendo que teve correria.
— Já resolveu.
Ela assentiu, mas não desviou os olhos de Elisa.
— Então é ela… — disse, com um leve tom provocativo.
Elisa sentiu o clima mudar novamente.
Henrique não respondeu. Apenas entregou João de volta para Elisa.
— Leva ela em casa. — ele disse para um dos homens. — Devagar.
Bianca soltou uma risada curta.
— Tá protegendo agora?
Henrique lançou um olhar firme para ela.
— Tô mandando.
O silêncio caiu.
Elisa se levantou, segurando João. O homem já aguardava para acompanhá-la. Ela olhou para Henrique.
— Obrigada… — disse, sincera.
Ele apenas assentiu.
Enquanto saía, Elisa sentia o olhar de Bianca queimando em suas costas.
E soube.
Aquilo estava só começando.