O movimento no cantinho de manicure continuava. O cheiro de acetona misturava-se ao perfume doce de uma das clientes, enquanto Elisa terminava de pintar as unhas com cuidado. João brincava no chão, agora com dois carrinhos, conversando sozinho em sua linguagem infantil.
Apesar da conversa, Elisa ainda pensava na mulher que havia acabado de sair.
Jéssica.
A forma como ela havia olhado… como se estivesse marcando território. Elisa tentou afastar o pensamento. Não tinha direito algum de se incomodar. m*l conhecia o Lobão.
— Tá ficando linda — disse a cliente, admirando as unhas.
— Pronto… — Elisa sorriu.
De repente, um som seco ecoou ao longe.
Um estalo.
Elisa parou.
As mulheres se entreolharam.
Outro som.
Mais alto.
Dessa vez não havia dúvida.
Tiros.
João se assustou e começou a chorar. Elisa o pegou rapidamente no colo, o coração disparando.
— Tia…? — sua voz saiu trêmula.
Rosa apareceu na porta, já mais tensa.
— Entra todo mundo.
O barulho aumentou. Pessoas correndo na rua. Portas sendo fechadas. O som de motos acelerando.
Elisa nunca tinha ouvido aquilo tão perto. Seu corpo reagiu imediatamente. As mãos começaram a suar, o coração batia forte demais. João chorava agarrado ao pescoço dela.
— Calma, meu amor… calma… — ela murmurava, mas a própria voz tremia.
Uma das mulheres fechou a janela rapidamente.
— É lá em cima…
— Meu Deus… — outra disse.
Elisa não conseguia pensar. Só apertava João contra o peito, tentando protegê-lo, como se isso fosse suficiente.
Um barulho mais forte ecoou. Ela se abaixou instintivamente.
— Não, Elisa — Rosa disse — aqui é mais protegido. Fica calma.
Mas como ficar?
O mundo dela parecia girar. Nunca tinha vivido algo assim. Não sabia o que fazer, para onde correr, como agir.
Então, passos rápidos se aproximaram.
Um homem apareceu na porta.
— A mando do Lobão — disse. — É pra levar ela pra dentro.
Os olhos dele foram direto para Elisa.
— Eu…? — ela perguntou.
— Isso. Vem.
Rosa assentiu.
— Vai, filha. É melhor.
Elisa segurou João e seguiu o homem, ainda tremendo. O barulho dos tiros continuava, agora mais distante. Eles caminharam rápido até uma casa maior, mais protegida.
Ao entrar, ela parou.
Henrique estava lá.
De pé, falando no rádio. Ainda sem camisa. O corpo tenso. O olhar atento.
Quando viu Elisa, ele desligou.
Os olhos dele passaram por João chorando… depois por ela, claramente assustada.
— Calma… — disse com voz firme.
Ele se aproximou devagar.
— Já tá acabando.
Elisa não respondeu. Só segurava o filho com força. Henrique pegou uma cadeira.
— Senta.
Ela obedeceu.
João chorava, e Henrique, sem jeito, pegou outro pirulito do bolso e estendeu.
— Toma aí, campeão.
O menino, ainda soluçando, pegou.
O silêncio se instalou. Lá fora, o barulho diminuía.
Henrique olhou novamente para Elisa.
— Aqui dentro tá seguro.
As palavras eram simples, mas o tom transmitia algo forte.
Proteção.
E, mesmo assustada, Elisa sentiu que, naquele momento… estava.