O pequeno canto improvisado já estava pronto.
Rosa havia conseguido uma mesa simples, uma cadeira e um banquinho. Elisa organizou seus esmaltes com cuidado, alinhando cada cor como se aquilo desse mais segurança ao novo começo. João estava sentado em um tapete no chão, brincando com um carrinho que uma vizinha havia dado.
O movimento começou cedo.
— É aqui que tá fazendo unha? — perguntou a primeira mulher, encostando na porta.
— Sou eu… pode entrar. — Elisa respondeu com um sorriso tímido.
A mulher entrou observando tudo. Os olhos passaram pela mesa, pelos esmaltes… e depois voltaram para Elisa.
— Você que é a sobrinha da Rosa, né?
— Sou.
— Bonita você… — comentou, sem disfarçar a curiosidade.
Elisa apenas sorriu.
Não demorou muito e outra apareceu. Depois mais uma. Em poucos minutos, três mulheres estavam ali, sentadas, olhando, cochichando.
João batia o carrinho no chão, completamente à vontade.
— Quantos anos tem? — perguntou uma.
— Vinte e três.
— E esse pequeno?
— Um ano. Se chama João.
— Lindo… puxou a mãe.
Elisa sentiu o rosto esquentar.
Enquanto fazia a primeira unha, percebia os olhares. Não eram maldosos, mas eram curiosos. Queriam saber tudo.
— Você veio de onde mesmo?
— Do sul.
— Sul? — outra repetiu. — Longe, hein.
— Muito.
— E o pai do menino?
Elisa hesitou um segundo.
— Não estamos juntos.
O silêncio breve que se formou dizia muito.
As mulheres trocaram olhares discretos.
— Entendi… — murmurou uma delas.
Nesse momento, uma nova presença surgiu na porta.
O ambiente mudou.
Ela era bonita. Morena, corpo marcado, roupa justa. O olhar firme percorreu o pequeno espaço até parar em Elisa. Depois desceu para João. Depois voltou.
— Então é você. — disse.
Elisa levantou os olhos.
— Sou… — respondeu com calma.
A mulher entrou devagar, analisando cada detalhe.
— Tão falando de você no morro inteiro.
Rosa apareceu na porta da cozinha, percebendo o clima.
— Essa é a Elisa, minha sobrinha. — disse, com naturalidade.
A mulher assentiu, mas não desviou o olhar.
— Eu sei.
Uma das clientes cochichou baixo para a outra:
— É a Jéssica…
Elisa ouviu.
— Quer fazer a unha? — perguntou, tentando manter a cordialidade.
Jéssica cruzou os braços.
— Depois.
Seus olhos deslizaram novamente por Elisa, demorando mais do que o necessário. Depois, ela falou:
— O Lobão que mandou montar isso aqui?
— Não… — Elisa respondeu.
— Hum…
A forma como ela reagiu deixava claro que estava avaliando algo. Um leve incômodo cresceu no peito de Elisa.
João levantou e caminhou cambaleando até a mesa. Elisa o pegou no colo.
— Oi, pequeno… — disse Jéssica, mas sem sorrir.
Ela deu mais um olhar para Elisa e se virou.
— Boa sorte aí.
Saiu.
O ambiente pareceu respirar novamente.
Uma das mulheres soltou:
— Essa aí…
— O quê? — Elisa perguntou.
— Vive grudada no Lobão.
Rosa lançou um olhar para silenciar, mas a curiosidade já estava plantada.
Elisa fingiu não reagir, mas algo dentro dela se apertou.
Pela primeira vez… sentiu que não era a única mulher observando Henrique.