O aviso

557 Palavras
O fim da tarde estava tranquilo demais. Elisa embalava o bebê na rede improvisada enquanto organizava seus esmaltes. O movimento daquele dia tinha sido bom, e pela primeira vez ela sentia que talvez conseguisse recomeçar ali. Foi quando o som de um motor diferente ecoou pela viela. Não era moto. Não era som de morador. Era carro. Elisa franziu a testa e caminhou até a janela. Um carro preto subia devagar, chamando atenção. Não era comum veículos assim entrarem no morro sem motivo. Ela sentiu um arrepio. Dois homens que ficavam de vigia se aproximaram imediatamente, atentos. O clima mudou em segundos. Conversas diminuíram. Portas foram fechadas. O bebê começou a resmungar, como se sentisse a tensão. Minutos depois, passos apressados subiram a escada. A porta abriu sem bater. Lobão entrou. Diferente das outras vezes, ele estava mais sério… mais perigoso. — Arruma suas coisas. O coração de Elisa disparou. — O quê? — Agora. — O que aconteceu? — Tem gente lá embaixo perguntando. O mundo dela pareceu girar. — Por mim? Ele não respondeu diretamente. — Eu não vou arriscar. — Lobão… — a voz dela tremia — …é ele? — Ainda não sei. Mas pode ser. Elisa sentiu as pernas enfraquecerem. Pegou o bebê no colo, abraçando-o com força. — Eu… eu não quero trazer problema pra você… — Já trouxe — ele disse, mas sem agressividade. — E eu já decidi. — Decidiu o quê? Ele deu um passo mais perto. — Você vem comigo. Ela piscou. — Pra onde? — Pra minha casa. O silêncio ficou pesado. O coração dela batia tão forte que parecia ecoar no quarto. — Eu… não sei se… — Lá é mais seguro. Do lado de fora, vozes começaram a aumentar. Alguém chamou por Lobão. Ele olhou para a porta e depois voltou o olhar para Elisa. — Não tem tempo pra pensar. Ela engoliu seco. Parte dela estava com medo… outra parte sentia um alívio estranho. — Tá bom… — ela sussurrou. Ele pegou a bolsa dela antes mesmo que ela terminasse de arrumar. — Vem. Eles saíram rapidamente. Dois homens já aguardavam. O clima era tenso, todos atentos. Elisa caminhava ao lado dele, o bebê no colo, tentando não demonstrar o medo. Quando passaram pela viela, ela viu o carro preto parado mais abaixo. Dois homens conversavam com outros moradores. Um deles olhou na direção deles. Lobão imediatamente colocou a mão nas costas de Elisa, guiando-a. — Continua andando. Ela obedeceu. Subiram mais alto, até chegar em uma casa diferente das outras. Maior, com portão reforçado e homens armados na entrada. — Entra — ele disse. Ela atravessou o portão. Assim que entrou, sentiu o peso da situação. Agora ela estava na casa do dono do morro. A porta fechou atrás deles. Elisa olhou ao redor, nervosa. Tudo ali era organizado, silencioso… seguro. — Você pode ficar no quarto lá dentro — ele disse. — Ninguém entra sem minha ordem. Ela assentiu, ainda sem palavras. Antes de se afastar, ela o chamou. — Lobão… Ele parou. — Obrigada… por não me deixar sozinha. Ele a encarou por alguns segundos. — Eu falei… — disse, com a voz mais baixa — …quando eu protejo, ninguém toca. E, naquele momento, Elisa percebeu: ela não estava apenas sob p******o. Ela estava, cada vez mais… sob o cuidado dele.
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