O fim da tarde estava tranquilo demais.
Elisa embalava o bebê na rede improvisada enquanto organizava seus esmaltes. O movimento daquele dia tinha sido bom, e pela primeira vez ela sentia que talvez conseguisse recomeçar ali.
Foi quando o som de um motor diferente ecoou pela viela.
Não era moto.
Não era som de morador.
Era carro.
Elisa franziu a testa e caminhou até a janela. Um carro preto subia devagar, chamando atenção. Não era comum veículos assim entrarem no morro sem motivo.
Ela sentiu um arrepio.
Dois homens que ficavam de vigia se aproximaram imediatamente, atentos. O clima mudou em segundos. Conversas diminuíram. Portas foram fechadas.
O bebê começou a resmungar, como se sentisse a tensão.
Minutos depois, passos apressados subiram a escada. A porta abriu sem bater.
Lobão entrou.
Diferente das outras vezes, ele estava mais sério… mais perigoso.
— Arruma suas coisas.
O coração de Elisa disparou.
— O quê?
— Agora.
— O que aconteceu?
— Tem gente lá embaixo perguntando.
O mundo dela pareceu girar.
— Por mim?
Ele não respondeu diretamente.
— Eu não vou arriscar.
— Lobão… — a voz dela tremia — …é ele?
— Ainda não sei. Mas pode ser.
Elisa sentiu as pernas enfraquecerem. Pegou o bebê no colo, abraçando-o com força.
— Eu… eu não quero trazer problema pra você…
— Já trouxe — ele disse, mas sem agressividade. — E eu já decidi.
— Decidiu o quê?
Ele deu um passo mais perto.
— Você vem comigo.
Ela piscou.
— Pra onde?
— Pra minha casa.
O silêncio ficou pesado. O coração dela batia tão forte que parecia ecoar no quarto.
— Eu… não sei se…
— Lá é mais seguro.
Do lado de fora, vozes começaram a aumentar. Alguém chamou por Lobão.
Ele olhou para a porta e depois voltou o olhar para Elisa.
— Não tem tempo pra pensar.
Ela engoliu seco. Parte dela estava com medo… outra parte sentia um alívio estranho.
— Tá bom… — ela sussurrou.
Ele pegou a bolsa dela antes mesmo que ela terminasse de arrumar.
— Vem.
Eles saíram rapidamente. Dois homens já aguardavam. O clima era tenso, todos atentos.
Elisa caminhava ao lado dele, o bebê no colo, tentando não demonstrar o medo.
Quando passaram pela viela, ela viu o carro preto parado mais abaixo. Dois homens conversavam com outros moradores. Um deles olhou na direção deles.
Lobão imediatamente colocou a mão nas costas de Elisa, guiando-a.
— Continua andando.
Ela obedeceu.
Subiram mais alto, até chegar em uma casa diferente das outras. Maior, com portão reforçado e homens armados na entrada.
— Entra — ele disse.
Ela atravessou o portão. Assim que entrou, sentiu o peso da situação.
Agora ela estava na casa do dono do morro.
A porta fechou atrás deles.
Elisa olhou ao redor, nervosa. Tudo ali era organizado, silencioso… seguro.
— Você pode ficar no quarto lá dentro — ele disse. — Ninguém entra sem minha ordem.
Ela assentiu, ainda sem palavras.
Antes de se afastar, ela o chamou.
— Lobão…
Ele parou.
— Obrigada… por não me deixar sozinha.
Ele a encarou por alguns segundos.
— Eu falei… — disse, com a voz mais baixa — …quando eu protejo, ninguém toca.
E, naquele momento, Elisa percebeu:
ela não estava apenas sob p******o.
Ela estava, cada vez mais… sob o cuidado dele.