Os dias começaram a passar mais devagar para Elisa. Ficar dentro da casa, olhando pela janela, esperando o tempo passar, estava começando a sufocá-la. O bebê precisava de fraldas, ela precisava de dinheiro… e, acima de tudo, precisava se sentir útil.
Foi sua tia quem percebeu primeiro.
— Você tá ficando doida aí dentro — disse, colocando uma panela no fogão. — Mulher precisa se mexer.
Elisa suspirou.
— Eu não posso sair… o Lobão falou…
— Lobão não manda em tudo — a tia respondeu, mas logo baixou o tom. — Quer dizer… manda, mas não assim.
Elisa quase sorriu.
— Eu só queria trabalhar… fazer unha… qualquer coisa.
A tia virou-se animada.
— Então faz! Aqui no morro tem um monte de mulher que adora uma manicure.
— Mas… será que deixam?
— Deixam. Ainda mais sendo protegida dele.
Elisa sentiu o rosto esquentar.
— Eu não sou “dele”.
A tia apenas levantou as sobrancelhas, divertida.
Pouco tempo depois, uma cadeira foi colocada na varanda. Uma mesinha improvisada, esmaltes emprestados, e a primeira cliente apareceu: Dona Cida, falante e curiosa.
— Então você é a menina nova… — disse, sentando-se. — Bonita você.
— Obrigada… — Elisa respondeu, tímida.
Enquanto fazia as unhas, outras mulheres foram chegando. Comentários, risadas, perguntas. O clima era leve, quase acolhedor. Pela primeira vez, Elisa relaxou.
— Você tem mão boa — disse uma das mulheres.
— Quanto você cobra? — perguntou outra.
Elisa hesitou, sem saber. A tia respondeu por ela.
— Barato, só pra começar.
Logo, Elisa estava ocupada, atendendo uma após a outra. O bebê dormia no carrinho ao lado, e o som das conversas preenchia o ar.
Mas, do outro lado da viela, alguém observava.
Lobão estava encostado em um muro, braços cruzados, olhar atento. Ele não interferia, apenas observava. Notou o sorriso tímido dela, o cuidado com cada cliente, a forma como se inclinava para ajeitar o bebê.
Algo apertou no peito dele.
Foi então que um rapaz se aproximou. Jovem, sorriso fácil, postura confiante.
— Tá cheia hoje, hein? — ele disse, olhando para Elisa.
Ela ergueu os olhos rapidamente.
— É… tô tentando.
— Quando terminar… faz a minha também? — ele brincou.
As mulheres riram. Elisa ficou sem graça.
— Eu… só faço feminina.
— Ah, então vou ter que inventar uma desculpa pra voltar — ele insistiu.
O clima mudou levemente. Algumas mulheres trocaram olhares.
Do outro lado, Lobão endireitou o corpo.
O rapaz se apoiou na mesa.
— Você não é daqui, né?
— Não…
— Dá pra perceber.
Ele sorriu novamente, mas não teve tempo de continuar.
— Já deu.
A voz grave cortou o ar.
Todos olharam.
Lobão se aproximava devagar, expressão fechada. O rapaz imediatamente se afastou um pouco.
— Só tava conversando, chefe — disse, nervoso.
— Conversa em outro lugar.
— Eu só…
— Eu falei… em outro lugar.
O tom não deixava espaço para discussão. O rapaz levantou as mãos.
— Tá tranquilo… já tô indo.
Ele saiu rapidamente. O silêncio ficou pesado por alguns segundos, até que as mulheres voltaram a conversar, como se nada tivesse acontecido.
Elisa evitava olhar para Lobão, mas sentia a presença dele ali. Ele observou tudo por mais um instante e então se afastou.
Mais tarde, quando o movimento diminuiu, Elisa guardava os esmaltes quando ele apareceu novamente.
— Não precisava disso — ela disse, sem encará-lo.
— Disso o quê?
— Espantar ele.
— Ele tava te incomodando.
— Não tava.
— Tava.
Ela finalmente olhou para ele.
— Eu sei me virar.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu sei. Mas não precisa.
O coração dela acelerou.
— Você não pode controlar tudo.
— Posso tentar.
Elisa respirou fundo.
— Eu só quero trabalhar.
— E vai.
— Sem… interferência.
Ele a observou por alguns segundos.
— Enquanto eu achar seguro.
Ela suspirou, já cansada daquela resposta.
Mas, quando ele se virou para sair, falou:
— Você trabalha bem.
Elisa ficou surpresa.
— Obrigada…
Ele não respondeu. Apenas continuou andando.
Mas, no fundo, algo estava mudando.
E, pela primeira vez, o morro começava a parecer… um pouco mais como lar.