A manicure do morro

695 Palavras
Os dias começaram a passar mais devagar para Elisa. Ficar dentro da casa, olhando pela janela, esperando o tempo passar, estava começando a sufocá-la. O bebê precisava de fraldas, ela precisava de dinheiro… e, acima de tudo, precisava se sentir útil. Foi sua tia quem percebeu primeiro. — Você tá ficando doida aí dentro — disse, colocando uma panela no fogão. — Mulher precisa se mexer. Elisa suspirou. — Eu não posso sair… o Lobão falou… — Lobão não manda em tudo — a tia respondeu, mas logo baixou o tom. — Quer dizer… manda, mas não assim. Elisa quase sorriu. — Eu só queria trabalhar… fazer unha… qualquer coisa. A tia virou-se animada. — Então faz! Aqui no morro tem um monte de mulher que adora uma manicure. — Mas… será que deixam? — Deixam. Ainda mais sendo protegida dele. Elisa sentiu o rosto esquentar. — Eu não sou “dele”. A tia apenas levantou as sobrancelhas, divertida. Pouco tempo depois, uma cadeira foi colocada na varanda. Uma mesinha improvisada, esmaltes emprestados, e a primeira cliente apareceu: Dona Cida, falante e curiosa. — Então você é a menina nova… — disse, sentando-se. — Bonita você. — Obrigada… — Elisa respondeu, tímida. Enquanto fazia as unhas, outras mulheres foram chegando. Comentários, risadas, perguntas. O clima era leve, quase acolhedor. Pela primeira vez, Elisa relaxou. — Você tem mão boa — disse uma das mulheres. — Quanto você cobra? — perguntou outra. Elisa hesitou, sem saber. A tia respondeu por ela. — Barato, só pra começar. Logo, Elisa estava ocupada, atendendo uma após a outra. O bebê dormia no carrinho ao lado, e o som das conversas preenchia o ar. Mas, do outro lado da viela, alguém observava. Lobão estava encostado em um muro, braços cruzados, olhar atento. Ele não interferia, apenas observava. Notou o sorriso tímido dela, o cuidado com cada cliente, a forma como se inclinava para ajeitar o bebê. Algo apertou no peito dele. Foi então que um rapaz se aproximou. Jovem, sorriso fácil, postura confiante. — Tá cheia hoje, hein? — ele disse, olhando para Elisa. Ela ergueu os olhos rapidamente. — É… tô tentando. — Quando terminar… faz a minha também? — ele brincou. As mulheres riram. Elisa ficou sem graça. — Eu… só faço feminina. — Ah, então vou ter que inventar uma desculpa pra voltar — ele insistiu. O clima mudou levemente. Algumas mulheres trocaram olhares. Do outro lado, Lobão endireitou o corpo. O rapaz se apoiou na mesa. — Você não é daqui, né? — Não… — Dá pra perceber. Ele sorriu novamente, mas não teve tempo de continuar. — Já deu. A voz grave cortou o ar. Todos olharam. Lobão se aproximava devagar, expressão fechada. O rapaz imediatamente se afastou um pouco. — Só tava conversando, chefe — disse, nervoso. — Conversa em outro lugar. — Eu só… — Eu falei… em outro lugar. O tom não deixava espaço para discussão. O rapaz levantou as mãos. — Tá tranquilo… já tô indo. Ele saiu rapidamente. O silêncio ficou pesado por alguns segundos, até que as mulheres voltaram a conversar, como se nada tivesse acontecido. Elisa evitava olhar para Lobão, mas sentia a presença dele ali. Ele observou tudo por mais um instante e então se afastou. Mais tarde, quando o movimento diminuiu, Elisa guardava os esmaltes quando ele apareceu novamente. — Não precisava disso — ela disse, sem encará-lo. — Disso o quê? — Espantar ele. — Ele tava te incomodando. — Não tava. — Tava. Ela finalmente olhou para ele. — Eu sei me virar. Ele deu um passo mais perto. — Eu sei. Mas não precisa. O coração dela acelerou. — Você não pode controlar tudo. — Posso tentar. Elisa respirou fundo. — Eu só quero trabalhar. — E vai. — Sem… interferência. Ele a observou por alguns segundos. — Enquanto eu achar seguro. Ela suspirou, já cansada daquela resposta. Mas, quando ele se virou para sair, falou: — Você trabalha bem. Elisa ficou surpresa. — Obrigada… Ele não respondeu. Apenas continuou andando. Mas, no fundo, algo estava mudando. E, pela primeira vez, o morro começava a parecer… um pouco mais como lar.
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