O ônibus começou a reduzir a velocidade lentamente.
Elisa despertou do torpor em que havia mergulhado sem perceber. O corpo estava dolorido, os braços cansados de segurar o filho por tantas horas, mas ela não ousava soltá-lo. O menino continuava dormindo, com a respiração tranquila, alheio ao turbilhão que a mãe carregava por dentro.
As primeiras luzes do Rio surgiram pela janela.
Diferentes.
Intensas.
O movimento aumentava conforme o ônibus avançava. Carros, motos, buzinas, prédios altos iluminados. Tudo parecia mais barulhento, mais vivo, mais caótico. Elisa observava em silêncio, absorvendo cada detalhe com uma mistura de curiosidade e receio.
Era ali.
Uma cidade enorme. Estranha. Imensa.
Ela se sentia pequena.
O ônibus entrou na rodoviária e parou com um solavanco leve. Algumas pessoas começaram a levantar, pegando mochilas e bolsas. O motorista anunciou a chegada, e Elisa sentiu o coração disparar.
Chegou.
Ela respirou fundo, tentando se preparar.
Com cuidado, ajustou o filho nos braços. Ele resmungou, mas não acordou. Pegou a mochila simples que estava aos seus pés — poucas roupas, algumas fraldas, documentos e o pouco dinheiro que tinha.
Era tudo o que restava.
Ao descer do ônibus, o ar quente da madrugada a envolveu imediatamente. Diferente do frio do sul, ali havia um calor úmido, pesado. Elisa olhou ao redor, meio perdida. Pessoas caminhavam apressadas, taxistas chamavam passageiros, vendedores ofereciam café.
Tudo era rápido demais.
Ela pegou o celular com mãos trêmulas e abriu a conversa com a tia Rosa. A última mensagem piscava na tela:
"Chegando me avisa, menina. Vou mandar alguém te buscar."
Elisa digitou com dificuldade:
"Cheguei."
A resposta veio quase imediata:
"Fica perto da entrada. Um rapaz vai te encontrar. Camisa preta. Nome dele é Júnior."
Ela engoliu seco.
Esperar.
Era tudo que podia fazer.
Elisa se encostou perto de uma parede, segurando o filho. O menino começou a despertar, abrindo os olhos devagar. Olhos claros, iguais aos dela.
— Oi, meu amor… — ela sorriu fraco.
Ele a observou, ainda sonolento, e puxou a blusa dela com a mão pequena.
— Já chegamos… — sussurrou, beijando sua bochecha.
Minutos que pareceram horas passaram. Até que um rapaz alto, moreno, com camisa preta e boné, se aproximou com olhar curioso.
— Elisa?
Ela ficou tensa.
— Sou eu.
— A Rosa me mandou te buscar. Sou o Júnior.
Ela assentiu, ainda desconfiada, mas não tinha escolha.
— Vamos? — ele perguntou, já pegando a mochila dela.
Elisa hesitou um segundo, depois seguiu.
Do lado de fora, ele a conduziu até um carro simples. Ela entrou no banco de trás com o filho. O coração continuava acelerado. A cidade passava pela janela, cada vez mais diferente conforme eles se afastavam do centro.
As ruas ficaram mais estreitas.
As casas mais próximas.
O movimento mais intenso.
Até que começaram a subir.
O carro entrou em uma rua íngreme, depois outra, e outra. Elisa percebeu que estavam entrando no morro. Seu estômago apertou.
Música alta.
Gente nas esquinas.
Luzes improvisadas.
Olhares curiosos.
Ela se encolheu um pouco, protegendo o filho.
Júnior percebeu pelo retrovisor.
— Relaxa… aqui todo mundo conhece a Rosa. Ninguém vai mexer contigo.
Ela apenas assentiu.
O carro parou diante de uma casa simples, mas bem cuidada. Antes mesmo que Elisa abrisse a porta, uma mulher saiu correndo.
— Elisa!
Rosa.
Ela abraçou a sobrinha com força, emocionada. Depois olhou para o bebê.
— Ai, meu Deus… como ele tá grande!
Elisa sorriu pela primeira vez com sinceridade.
— Tia…
— Entra, menina. Entra logo.
Elisa atravessou a porta, sentindo algo diferente.
Talvez… pela primeira vez… estivesse segura.
Mas, lá fora, no alto do morro, alguém observava a movimentação.
E o destino dela estava mais perto do que imaginava.