Aviso

576 Palavras
Elisa acordou com um som distante de vozes e música baixa vindo da rua. Por alguns segundos, ficou imóvel, tentando lembrar onde estava. O teto simples, o ventilador girando devagar, o calor diferente… então tudo voltou. Rio. O morro. A fuga. Ela virou o rosto e encontrou João dormindo ao seu lado, espalhado no colchão fino que Rosa havia preparado. O menino tinha as bochechas coradas, os cabelos claros bagunçados, e dormia profundamente. Elisa sorriu, passando a mão com carinho no rosto dele. — Bom dia, meu amor… — sussurrou. Levantou devagar para não acordá-lo. O corpo ainda doía da viagem, mas algo dentro dela parecia um pouco mais leve. Caminhou até a pequena janela e abriu a cortina. O morro já estava acordado. Crianças correndo, alguém varrendo a frente da casa, o cheiro de café fresco no ar, música tocando em algum lugar. Era uma rotina simples, viva, diferente de tudo que ela conhecia. — Dormiu bem? — a voz de Rosa veio da cozinha. — Dormi… — Elisa respondeu, saindo do quarto. A tia colocou uma xícara de café sobre a mesa e a observou com carinho. — E o pequeno? — Ainda dormindo. Rosa sorriu. — Deixa ele descansar. Viagem cansa. Elisa sentou-se, segurando a xícara com as duas mãos. O calor do café parecia confortar. Por alguns instantes, elas ficaram em silêncio, até Rosa falar novamente. — Elisa… preciso te avisar uma coisa. Ela levantou os olhos, atenta. — Aqui no morro funciona diferente. — Rosa falou com naturalidade. — O dono gosta de saber quem tá chegando, quem tá morando. É pra manter a ordem. O coração de Elisa acelerou um pouco. — Dono? Rosa assentiu. — Henrique. Mas todo mundo chama de Lobão. O nome ficou no ar. Elisa engoliu seco. — Eu já avisei ele que você tava vindo. — continuou Rosa. — Falei que era minha sobrinha, que vinha com um bebê. — Ele… ele sabe? — Sabe. E hoje eu vou te levar lá pra apresentar. Elisa sentiu um frio percorrer o corpo. — Precisa? — É melhor. — Rosa respondeu com firmeza, mas sem dureza. — Assim ninguém mexe contigo. Ele respeita quem se apresenta. Elisa olhou para as próprias mãos. Elas tremiam levemente. Pensou em Levi, pensou nos homens que ele conhecia, pensou em tudo que havia deixado para trás. Não queria mais se envolver com gente perigosa. Mas ela estava em um morro. Não havia escolha. — Tá… — murmurou. Rosa percebeu o nervosismo e tocou o braço dela. — Fica tranquila. Ele não é r**m. Só é sério. Cuida daqui. Ajuda muita gente. Elisa assentiu, mas o aperto no peito continuava. — E você… trabalha com o quê mesmo? — Rosa perguntou, mudando de assunto. — Sou manicure. — Elisa respondeu. — Fazia atendimento em casa no sul… tinha algumas clientes fixas. Os olhos de Rosa se iluminaram. — Então tá resolvido! Aqui falta manicure. As mulheres vivem reclamando. Elisa sorriu de leve. — Eu posso começar devagar… — Vai começar sim. Depois a gente arruma uma mesinha pra você. Nesse momento, João começou a chorar no quarto. Elisa se levantou rapidamente e foi até ele. — Oi, meu amor… — pegou o filho no colo. O menino ainda estava sonolento, mas se aninhou contra ela. Elisa beijou sua cabeça, sentindo uma força nova surgir. Ela precisava dar certo ali. Por ele. Mas, no fundo, o pensamento voltava. Hoje. Ela conheceria o Lobão.
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